Há meia dúzia de décadas atrás, o casamento era respeitado como sacramento sagrado. Para dar esse passo tão importante, os jovens tinham de seguir rigoroso ritual de namorar, noivar e casar. Regra exigida pela tradição da época, cujo descumprimento sempre terminava no maior bafafá. “Abusar” da escolhida antes do matrimônio, nem pensar! Dois destinos esperavam o infrator: reparar imediatamente o “erro” ou ser preso. Se por acaso ela ficasse buchuda era publicamente escrachada por seus atos “pecaminosos”, conforme a “Geni, maldita Geni! – de Chico Buarque de Holanda”. Ainda, segundo a concepção de outrora, a mulher vinha ao mundo com a sublime missão de criar, educar e deixar um legado aos filhos. Mas tudo isso ficou ancorado no passado, não permanecendo pedra sobre pedra. Os novos conceitos enferrujaram tais valores e implodiram os alicerces da família. Do romantismo caímos nas garras do “virtualismo”. Os apelos do coração deram lugar à banalização dos sentimentos esfriando a vida conjugal, além de empurrar o “Lar Doce Lar” para dentro do computador. Ali, na frieza das palavras, a nova geração foi ensinada buscar sua “tela metade”, mesmo sob o risco de pegar um perigoso vírus. Não como os de então, de graves enfermidades físicas, mas igual ao Zhelatin, um dos "storm worm", propagado por e-mails. Nessas andanças também despontou nova “perspectiva” de relacionamento - o casamento cibernético. Normalíssimo para os liberais e esconjurado pelos radicais, ele promete “libertar” os cônjuges cativos da “prisão domiciliar”. O regime dita que cada qual deve continuar em sua própria casa mantendo contato apenas através das câmaras do aparelho. Se por acaso a afetividade cair ou se estiver de cabeça para baixa, não é necessário Viagra, basta colocar mais potência... no computador. Isso anima os casais cibernéticos que já pensam em “formatarem” famílias felizes e gerarem muitos filhos virtuais.
Pois é, em dias de tecnologias de ponta, o que podemos argumentar? Falar de casamento convencional, virou cafonice. Falar de sentimentos, virou caretice. Falar de adultério, virou gaiatice, como ter quatro mulheres é poligamia, ter duas é bigamia e ter uma é monotonia. Postura esta evidenciada por Rotifúncio que esparramado no sofá, vendo o futebol pela televisão, levou violenta frigideirada na cabeça. Cheio de dor, gritou para a mulher:
___“O que houve? Tas maluca, Suspelina???”.
___“Você pensa que eu sou estúpida? Essa pancada é pelo bilhete que acabei de encontrar no seu bolso com o nome de “La Perigosa” e o número 18912502708, talvez o telefone da vagabunda!”- falou a mulher franzindo a testa.
___“Dá para notar que você é uma ignorante. Esse bilhete é da última vez que fui ao hipódromo, mulher! “La Perigosa” é o nome da égua, 18 o número dela, 9 o número do páreo, 1250 o valor da aposta e 2708 a data da corrida: 2 do 7 de 08. Agora pare de me aporrinhar o juízo e vai dormir... grrrrrrr!!!”.
Arrependida, ela pediu mil e uma desculpas ao marido.
___“Eu errei... Eu sei que sou uma burra. Meu amor, me perdoe, me perdoe, isso não vai mais acontecer!!!”.
Dois dias se passaram e, outra vez, o homem estava distraído, acompanhando os resumos do futebol, quando.... PUUUUUUUUMMMMMM, levou forte panelada bem no centro da cachola. Completamente aturdido, esperneou daqui, esperneou dali, até desabar no chão da sala. Refeito da pancada, berrou:
___“O que aconteceu desta vez, sua aaaanta???”.
A mulher com cara de cachorro que lambeu graxa, respondeu:
___“A égua “La Perigosa”, lá do hipódromo, está ao telefone querendo falar com você...!!!”.
O casamento é como uma garrafa, depois de quebrada não adianta juntar os cacos que as marcas sempre permanecerão. Sem amor, respeito, cumplicidade, compreensão, persistência e fidelidade, nada valerá. E mais, enquanto não voltarmos aos sábios princípios de antigamente, respaldados pelos conhecimentos atuais, não conseguiremos resgatar a família do caos que se encontra. Somente assim devolveremos à humanidade a confiança de acreditar no verdadeiro matrimônio.