Num desses escassos lugares estritamente bucólicos, aonde as artificialidades da cidade não chegaram e as amizades ainda são orgânicas, isto é, sem os agrotóxicos dos interesses, seus ocupantes tocavam a vida pacata cheia de cumplicidade. Tinham criações de animais, comiam do que plantavam, bebiam da água pura da fonte e todos se respeitavam como tradição. No pomar havia grande variedade de árvores frutíferas, além de Pau-Pereira, Cagaiteira, Chapéu-de-Couro, Catinga-de-Mulata e outros. O patriarca de uma das famílias, seu Girino, iniciava o dia à frente da boiada na pastagem.
___“ Êêêêê, boi!!! Vão, vão, soberaaaano!”.
Mas o xodó da família era mesmo “Generosa”, uma vaca dócil, gentil, misteriosa e muito inteligente. Tanto assim que a filha mais velha, Florefúncia, escancarou sua paixão por ela no “Diário de Uma Vaca Milagreira”, e confidenciou:
___“Quando eu era criança pensava que a vaca “Generosa” era minha mãe. Me contavam que todas as manhãs eu chorava para mamar nas tetas da “gordona”. Ela era carinhosa comigo, me lambia e espantava os mosquitos persistentes com o rabo, num gesto instintivo de proteção materna. Também, nossos vizinhos achavam seu leite milagroso porque alguém, após tomá-lo, sentiu-se curado de grave enfermidade. Esse milagre se espalhou pela redondeza que nem tiririca, correndo mais que paca no brejo. As romarias de enfermos não tardaram, deixando meu pai impaciente”.
Seu Girino, então, tomou a decisão equivocada de eliminar a vaca. Pensava ele que dessa maneira resolveria dois problemas: abafava a desenfreada crendice popular e não perderia a carne do animal prestes a morrer de velhice. Seus familiares foram contra, a vizinhança se rebelou pedindo “clemência” para a “milagreira”. Mesmo sob pressão, o coração do homem continuou endurecido. O dia da execução chegou. As nuvens carregadas pareciam pressagiar algo ruim, enquanto o “carrasco” dava as últimas ordens em casa.
___“Não quero ver ninguém lá fora, ouviram????”.
E ele mesmo descreveu o impacto da execução.
___“Generosa” provavelmente sabia da sua morte. Andava para frente e para trás, meneava a cabeça, batia com as patas no chão, estava nervosa como nunca. Mas minha decisão tinha de prevalecer, custasse o que custasse. Hesitei por alguns minutos, tomei fôlego e empunhei firme o ponteiro para o golpe fatal. Que quadro estarrecedor! Ela não esboçou qualquer gemido de dor, apenas fixou o olhar em mim e chorou. Chorou das lágrimas escorrerem no focinho. Em seguida seu corpo tombou pesadamente no chão. Estava morta!!! Aquele foi o maior engano da minha vida”.
Conforme Florefúncia detalhou em seu livro, “a carne da vaca terminou no lixo, ninguém quis comê-la. Nas ruas as pessoas acusavam meu pai de “assassino!”, os amigos viravam a cara, foi difícil suportar tal situação. De repente o paraíso virou inferno. Para remediar, juntamos os “trapos” e mudamos dali rapidamente. Embora distante, a presença de “Generosa” doía muito dentro de nós. Por sua lembrança até nos abstivemos de comer carne”.
Sem a família de seu Girino por perto, os simpatizantes da “mártir” ergueram no local de sua morte um cruzeiro, cuja legenda era enfática: “Lembranças de Generosa, a Milagrosa - uma vaca mais gente que animal, vítima de alguém mais animal que gente”.
Gautama, o Buda, certa vez falou: “Os
animais que sacrificais já vos deram o doce tributo de seu leite, a maciez de
sua lã e depositaram confiança nas mãos criminosas que os degolam”. E o yogi, Swami Tilak, arrematou: “Temos o direito
de sugar o leite da Mãe Natureza, mas não seu sangue”.
Vale a pena uma profunda reflexão sobre o tema, pois os animais não necessitam do homem para viver, mas os homens sem eles terão grandes dificuldades em suas vidas.