O mundo começa nos sonhos! Sonhamos com a falta: com o que nos falta.
Não necessariamente um iate, uma mansão, o poder ou a fama. Sonhamos aquilo
da ordem do desejo, muitas vezes imediato, necessário ou prazeroso. Na ausência
da falta, com quê sonharemos?
Sonhar faz parte do costume: acostumamo-nos a sonhar – idealizar nossos
desejos – com a bicicleta, o autorama, o videogame, o celular, mas também com
a profissão, o formar uma família, construir um lar... Êpa! Como é que é? Um lar?
Como assim, lar? Não preciso construir um, pois já o tenho. Preciso é aproveitar
a vida, curtir, badalar, conhecer lugares, estar com os amigos. Isso sim é sonhar!
Diante dessa narrativa de um pós-adolescente tardio de trinta e poucos
anos que ainda vivia como se tivesse quinze, na casa dos pais e às expensas
deles, nossa curiosidade não nos permitiu calar. Então “invadimos literalmente
sua árvore genealógica”.
_Mas você não sente falta de ter o seu canto, construir seu espaço.
_Não, aqui tenho tudo! Casa, comida, liberdade, minha roupa sempre pronta,
tudo limpo e arrumado e minha mulher sempre cheirosa. Minha mãe cuida de
tudo.
_Ah, mas vocês então contribuem com as despesas, não é?
_Bem, pensamos em passar a fazer isso quando terminarmos de pagar o
carro, os cartões de crédito e a viagem que fizemos. Mas, por enquanto, não dá.
Não dá pra ficar duro e perder os finais de semana trancados em casa. Somos
jovens. Temos que curtir a vida
_Mas como seus pais vêem essa situação de custo zero?
_A mamãe prefere que fiquemos aqui, onde temos conforto e tranqüilidade
para pensar no futuro. Às vezes ela reclama que deixamos as coisas bagunçadas,
esse blá-blá-blá de mãe, você sabe como é. Já meu pai não fala mais nada,
porque, afinal de contas, eles podem desfrutar da nossa companhia.
Apesar da aparente harmonia familiar, esse tipo de situação aponta para
uma dependência psíquica entre pais e filhos. O filho, mesmo adulto, não contribui
em nada nas despesas, na limpeza ou na administração da casa. A mãe não
reclama da situação, e até alimenta, pois assim não precisa enfrentar a solidão e
as questões do “ninho vazio”. Casos assim são muito comuns hoje em dia,
chegando até ao cúmulo de pais tiranizados pelos filhos adultos e improdutivos.
Culpa de quem?
Esse tipo de funcionamento familiar vai dando origem à “geração canguru”,
onde pai e/ou mãe não querem que seus filhos cresçam e que aprendam a viver
sozinhos, responsabilizando-se por suas vidas, seus atos, suas despesas e
pela família que construírem. Na justificativa de que os estão ajudando, que eles
precisam de sua ajuda para terem um futuro melhor, sentem-se amparados por
esses filhos (mesmo quando a relação mostra-se tumultuada). Não
percebem que estão impedindo o processo natural de
amadurecimento em troca de presença e reconhecimento. Por
outro lado, os pais podem agir dessa forma para compensar
erros de criação, principalmente o excesso de
permissividade durante a infância e adolescência.
O interessante é que, muitas são as famílias que tratam
seus filhos pequenos e adolescentes como adultos.
Depois, quando estes já cresceram, passam a tratálos
como crianças, investindo na dependência,
no favorecimento, na formação de casais que
vão gerar filhos mantendo-se dependentes
financeira e emocionalmente dos pais.
Essa nova geração já traz “incorporada”
a característica e, dificilmente
conseguirá modificar seu padrão e
tornarem-se pessoas responsáveis
e independentes.
Uma ótima semana para
todos.