Pescador soooofre! Quantos não ouviram falar que os maiores
mentirosos são os políticos antes das eleições e os pescadores depois da
pescaria? Será que isso é verdade? Heptásia, mulher de um pescador,
comentou a questão:
___“Meu marido, Sirifôncio, depois que se meteu nessa classe virou
um tremendo cascateiro. E mostrou essa habilidade ao convencer os
pescadores comprar com exclusividade suas “minhocas orgânicas, bem mais
saudáveis, criadas em moderníssimos minhocários (berçários)”. Enquanto
isso, em casa, alimentava a ilusão das minhocas nos tirarem do buraco. A
intenção era boa, no entanto, elas nos afundaram mais ainda! Sem se dar por
vencido, mudou de estratégia. Partiu para o ramo pesqueiro espalhando o
boato de ser diplomado numa escola do sertão do Cabriocó, especializada
em pesca com peixeira. E dava detalhes do fantasioso conto.
___“Durante as aulas fiquei em dúvida se naquelas terras áridas, tão
secas, rachadas, havia peixes. Logo uma poeira se levantou na estrada e o
professor respondeu: “tá vendo aquilo ali? É um cardume! Se não tem água,
meu amigo, os peixes nadam até no asfalto. É a lei da sobrevivência”.
Depois de tantas mentiras, Sirifôncio não perdeu tempo. Pegou dinheiro
emprestado, comprou uma canoa, a “Titicanic”, pintando a frase: “esta
bóia de verdade, não afunda”. Uma sátira ao navio “Titanic” projetado para
não afundar, mas... deu no que deu. No início tudo corria às mil maravilhas,
porém, pelo quinto mês, o negócio desabou. Ele começou a chegar em casa
cada vez mais tarde com peixes carimbados pela inspeção sanitária dentro
do cesto. Não adiantava eu apertar, o homem escorregava que nem quiabo.
___“Aquele local é muito freqüentado pela fiscalização. Talvez, após
a inspeção, os peixes foram carimbados e devolvidos à água”.
Sua transformação era notada por todos. As vizinhas, bisbilhoteiras,
me alertavam: “cuidado que tem alguém pedalando na sua bicicleta”. Mas o
barraco caiu mesmo quando ele pernoitou fora alegando “problemas
sobrenaturais”. E o “cara de pau” ainda tentou me enrolar.
___“De repente um enorme peixe quebrou o silêncio da noite, esticou a
cabeça e gritou para mim: “Vá pescar no infeeerno!!!”. Foi a visão do capeta
chupando limão! Nisso eu apaguei, só recobrando os sentidos no dia seguinte
quando meus amigos me encontraram”.
Para pegar o mentiroso com a boca na botija, indaguei quais eram essas
pessoas que o “salvaram”? Nervosíssimo, não quis apontá-los. Claro, aquilo
era mais uma de suas armações. Farta de ser enganada, apelei: esta noite eu
vou pescar com você, doa a quem doer!!!!! Pra quê, o homem tremeu dos
pés à cabeça.
___“De jeito nenhum!!!! Você vai é acabar com o nosso ganha pão. Pelo
que te conheço é capaz de usar capim para pescar peixe-boi, de lançar sacos
de leite para pescar peixe-gato, de jogar tinta para pescar pintado, vai ser o
caos!”.
Aquilo me magoou profundamente, era um atestado de burrice. Já
desequilibrada, detonei: se você pode sair todas as noites para pescar
PIRANHAS, porquê eu não posso pescar NAMORADOS??? Essas palavras
foram fatais. Sem esperar eu descarregar toda minha ira, saiu de casa
espumando e ao regressar, na manhã seguinte, me deixou intrigada. Estava
manso como um cordeiro. Pensei: qual o motivo de tamanha mudança?
Então procurei seus amigos para desvendar o mistério. Eles contaram
que naquela noite Sirifôncio soltava faíscas, disposto a esganar as
minhocas, a vender a “Titicanic” e a abandonar tudo. Falava apenas
de seguir um novo lema de vida: “Quem muito corre atrás dos
peixinhos, acaba perdendo os peixões”. Segundo eles, meu marido
se referia a mim. Agora eu compreendo o porquê das suas mentiras,
era para não desonrar a classe (?).
Bom, o importante é que as coisas mudaram para melhor.
Sirifôncio conseguiu um emprego fixo na “Peixaria Peixe Podre” e,
principalmente, reatou nosso difícil relacionamento. Também estou
orgulhosa porque ele não é mais pescador, não precisa mentir e eu
me converti em sua única e predileta isca!!!”.
Sem querermos defender o erro ou justificá-lo, taxar os
pescadores de mentirosos na atual fase da humanidade é uma grande
piada. Ainda mais quando as mentiras rolam soltas por aí. Ao invés
de enquadrá-los sozinhos nessa “roubada”, deveríamos meter o dedo
na consciência pois somente quem nunca mentiu pode atirar a primeira
vara (de pescar).