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Coisas do povo
Maurcio Mendes
Coluna - Maurcio Mendes
AUMENTAR FONTE
CORTÊS E HOSPITALEIRO
14 de novembro de 2008.

O dramaturgo, romancista e

professor da Universidade Federal de

Pernambuco, Ariano Suassuna,

recentemente soltou o seguinte:

___”Eu sou muito contrário a esse

negócio de falar mal das pessoas pela

frente. Constrange quem ouve e quem

fala. Não custa nada esperar a pessoa

sair e descer a lenha”.

Claro, essas palavras são produto

do universo do escritor, sempre

imprevisível na maneira de falar e de

escrever.

Sendo Ariano Suassuna um

defensor incondicional da cultura

nordestina, aproveitamos a

oportunidade para exaltar os poetas

repentistas, cordelistas, contadores

de causos, enfim, todos os artistas

daquela região brasileira. Os heróis do

cordel que defendem o pão de cada

dia vendendo fábulas e histórias

populares contadas em folhetos.

Conversa vai, conversa vem,

encontramos aqui nos Estados

Unidos um notável rimador e contador

de causos. O notável “Cegonha”,

apelidado assim porque gosta de levar

todo mundo no bico, que numa de

suas rimas, escreveu: “Sobreviver nas

agruras do sertão/ Não é para qualquer

um/ Falta água, falta pão/ Às vezes,

macaxeira e jerimum/ Mas Deus em

Sua infinita compaixão/ Sempre mostra

o jeitinho de amenizar o jejum”. E,

sobre a arte do improviso, a

preferência dele tende para os

inigualáveis nordestinos Lourival

Batista e Severino Pinto: “Eu, da

graça, faço o riso/ E, do riso, faço a

graça/ E da massa, faço o pão/ E do

pão, faço a massa/ Você desgraçou a

peça/ Que u’a misturada dessa/ Não

há padeiro que faça!”.

Mas quem conhece

“Cegonha” de perto diz que seu

coração é do tamanho da crise

financeira mundial. Enooooorme! Ele

é capaz de passar por uma caçamba

de lixo e ao ler: “Colabore com a

Limpeza Pública”, abrir a carteira,

sacar uma nota de grande valor e

depositá-la ali. Para ele não há tempo

ruim. Carismático como poucos, atrai

pessoas de todas as classes sociais

com a picardia dos seus “causos”

(abaixo expressões como arretado, da

gota serena, mangar, peleja, vigi,

óxenti etc, do “nordestês”, foram

substituídas por outras do

“sudoestês”, para facilitar o

entendimento).

___”Quando eu chequei na

América disseram que o povo daqui

era cortês e hospitaleiro. Realmente

isso é verdade: quem não está na corte,

está no hospital. Inclusive eu que por

pouco não vesti paletó de madeira. O

médico preocupado com minha

enfermidade ordenou inúmeros testes

cujos resultados não foram

animadores. O exame de fezes, saiu uma

bosta; O intestino decretou greve; O

exame de glicose dizia que eu tinha

formiga no sangue; A pressão de tão

alta só podia ser medida no posto de

gasolina; A respiração era precária. O

ar que faltava em cima, sobrava

embaixo...”.

A turma se esbaldava de rir, até

soluçava. E ele continuou.

___” O doutor balançou a cabeça

e disse:

___”A partir de hoje nada de

uísques, nada de vinhos importados,

nada de restaurantes caros, nada de

carros novos, nada de férias....”.

Curioso, perguntei: Doutor isso é

até eu ficar curado? Então ele foi frio:

___”Não, não. É só até você

terminar de pagar o que me deve!!!”.

Felizmente estou aqui, quase firme,

quase forte, para desafiar a ciência.

Mas a situação estava tão braba,

tão braba, que se eu contasse para o

carroceiro, o cavalo era capaz chorar.

Quando tudo parecia aprumar, minha

tia foi atropelada. Ao tentar atravessar

a Kurral st. com Shikeiros ave., um

veículo desgovernado deu-lhe uma

traulitada que jogou a velha em cima

do telhado. Em frangalhos ela foi

parar na Emergência do hospital. O

médico a examinava enquanto a

enfermeira anotava tudo numa ficha:

Escoriações na cabeça... fratura no

braço direito... luxação na clavícula...

desarticulação do tornozelo

esquerdo... secção longitudinal na

coxa esquerda... e, em seguida,

virando-se para minha tia, perguntou:

Qual a sua idade, minha senhora?

Trinta e cinco!, respondeu ela

gemendo. O médico virando-se para

a enfermeira, disse: Anota também –

perda de memória. No entanto, entre

mortos e feridos todos se salvaram!”.

Sob aplausos, ele encerrou sua

apresentação do dia.

A literatura brasileira continua

descendo a rampa do descaso.

Repentistas, contadores de causos,

poetas de cordel e outros passam pela

vida no anonimato e morrem na pobreza

sem qualquer reconhecimento. Uma

grande injustiça com a nossa cultura!

O governo precisa urgente salvar essas

raízes genuínas, esses artistas

populares, prestes a se extinguirem pela

corrosão do esquecimento.



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