O dramaturgo, romancista e
professor da Universidade Federal de
Pernambuco, Ariano Suassuna,
recentemente soltou o seguinte:
___”Eu sou muito contrário a esse
negócio de falar mal das pessoas pela
frente. Constrange quem ouve e quem
fala. Não custa nada esperar a pessoa
sair e descer a lenha”.
Claro, essas palavras são produto
do universo do escritor, sempre
imprevisível na maneira de falar e de
escrever.
Sendo Ariano Suassuna um
defensor incondicional da cultura
nordestina, aproveitamos a
oportunidade para exaltar os poetas
repentistas, cordelistas, contadores
de causos, enfim, todos os artistas
daquela região brasileira. Os heróis do
cordel que defendem o pão de cada
dia vendendo fábulas e histórias
populares contadas em folhetos.
Conversa vai, conversa vem,
encontramos aqui nos Estados
Unidos um notável rimador e contador
de causos. O notável “Cegonha”,
apelidado assim porque gosta de levar
todo mundo no bico, que numa de
suas rimas, escreveu: “Sobreviver nas
agruras do sertão/ Não é para qualquer
um/ Falta água, falta pão/ Às vezes,
macaxeira e jerimum/ Mas Deus em
Sua infinita compaixão/ Sempre mostra
o jeitinho de amenizar o jejum”. E,
sobre a arte do improviso, a
preferência dele tende para os
inigualáveis nordestinos Lourival
Batista e Severino Pinto: “Eu, da
graça, faço o riso/ E, do riso, faço a
graça/ E da massa, faço o pão/ E do
pão, faço a massa/ Você desgraçou a
peça/ Que u’a misturada dessa/ Não
há padeiro que faça!”.
Mas quem conhece
“Cegonha” de perto diz que seu
coração é do tamanho da crise
financeira mundial. Enooooorme! Ele
é capaz de passar por uma caçamba
de lixo e ao ler: “Colabore com a
Limpeza Pública”, abrir a carteira,
sacar uma nota de grande valor e
depositá-la ali. Para ele não há tempo
ruim. Carismático como poucos, atrai
pessoas de todas as classes sociais
com a picardia dos seus “causos”
(abaixo expressões como arretado, da
gota serena, mangar, peleja, vigi,
óxenti etc, do “nordestês”, foram
substituídas por outras do
“sudoestês”, para facilitar o
entendimento).
___”Quando eu chequei na
América disseram que o povo daqui
era cortês e hospitaleiro. Realmente
isso é verdade: quem não está na corte,
está no hospital. Inclusive eu que por
pouco não vesti paletó de madeira. O
médico preocupado com minha
enfermidade ordenou inúmeros testes
cujos resultados não foram
animadores. O exame de fezes, saiu uma
bosta; O intestino decretou greve; O
exame de glicose dizia que eu tinha
formiga no sangue; A pressão de tão
alta só podia ser medida no posto de
gasolina; A respiração era precária. O
ar que faltava em cima, sobrava
embaixo...”.
A turma se esbaldava de rir, até
soluçava. E ele continuou.
___” O doutor balançou a cabeça
e disse:
___”A partir de hoje nada de
uísques, nada de vinhos importados,
nada de restaurantes caros, nada de
carros novos, nada de férias....”.
Curioso, perguntei: Doutor isso é
até eu ficar curado? Então ele foi frio:
___”Não, não. É só até você
terminar de pagar o que me deve!!!”.
Felizmente estou aqui, quase firme,
quase forte, para desafiar a ciência.
Mas a situação estava tão braba,
tão braba, que se eu contasse para o
carroceiro, o cavalo era capaz chorar.
Quando tudo parecia aprumar, minha
tia foi atropelada. Ao tentar atravessar
a Kurral st. com Shikeiros ave., um
veículo desgovernado deu-lhe uma
traulitada que jogou a velha em cima
do telhado. Em frangalhos ela foi
parar na Emergência do hospital. O
médico a examinava enquanto a
enfermeira anotava tudo numa ficha:
Escoriações na cabeça... fratura no
braço direito... luxação na clavícula...
desarticulação do tornozelo
esquerdo... secção longitudinal na
coxa esquerda... e, em seguida,
virando-se para minha tia, perguntou:
Qual a sua idade, minha senhora?
Trinta e cinco!, respondeu ela
gemendo. O médico virando-se para
a enfermeira, disse: Anota também –
perda de memória. No entanto, entre
mortos e feridos todos se salvaram!”.
Sob aplausos, ele encerrou sua
apresentação do dia.
A literatura brasileira continua
descendo a rampa do descaso.
Repentistas, contadores de causos,
poetas de cordel e outros passam pela
vida no anonimato e morrem na pobreza
sem qualquer reconhecimento. Uma
grande injustiça com a nossa cultura!
O governo precisa urgente salvar essas
raízes genuínas, esses artistas
populares, prestes a se extinguirem pela
corrosão do esquecimento.