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Revista Brazilian Times # 86
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Cláudio Martins Costa: guerreiro ou escultor de escultores?

A trajetória do escultor Cláudio Martins Costa permanece como um legado silencioso e, ao mesmo tempo, eloquente — expressão de uma arte que resistia à pressa e à superficialidade do mundo contemporâneo.

A trajetória do escultor Cláudio Martins Costa permanece como um legado silencioso e, ao mesmo tempo, eloquente — expressão de uma arte que resistia à pressa e à superficialidade do mundo contemporâneo. Sua obra inscreveu-se numa tradição que valorizava o gesto, a força expressiva da matéria e a permanência simbólica da forma, sem jamais abrir mão de um olhar autoral profundamente sintonizado com as inquietações da humanidade.

Ficou conhecido no meio artístico como um importante “escultor de escultores”, título que expressa a tradição herdada de seu mestre Fernando Corona bem como o respeito técnico e poético que sua obra inspirou em diversas gerações. No entanto, sua vida — desde a infância — foi marcada por uma batalha solitária pela afirmação de uma estética própria, muitas vezes travada contra resistências externas, mas sobretudo contra si mesmo: dúvidas, exigências e conflitos internos que moldaram tanto sua arte quanto sua subjetividade. O saldo dessa luta não foi apenas uma obra sólida e coerente, mas um legado de profunda humanidade, onde forma e existência se tornaram indissociáveis.

Cláudio Martins Costa destacou-se pelo rigor técnico e pela sensibilidade estética com que tratava o volume, a textura e a luz. Sua produção escultórica abrangeu três vertentes fundamentais: a figura humana, os animais e as formas abstratas.

Na figura humana, sua abordagem não era meramente anatômica, mas existencial: os corpos por ele esculpidos — muitas vezes em posições introspectivas ou meditativas — expressavam não o indivíduo particular, mas o ser em sua condição sensível e silenciosa.

Nos animais, explorava com delicadeza e potência simbólica o elo ancestral entre o humano e a natureza, representando cavalos, touros, galos, cavalos com um traço ao mesmo tempo firme e fluido, que evocava movimento e respeito à alteridade das formas vivas.

Já nas formas abstratas, frequentemente inspiradas em geometrias orgânicas ou estruturas simbólicas, Cláudio buscava traduzir emoções, tensões e princípios de equilíbrio — como se quisesse dar corpo ao que é invisível: a memória, o silêncio, o tempo.

Sua trajetória criativa pode ser compreendida em ciclos distintos. Nos anos 1960 e 1970, produziu uma série de desenhos com figuras de gatos e esculturas em cerâmica representando galos e palhaços, com forte presença de cores primárias, influenciado por uma sensibilidade lúdica e popular.

Na década de 1980, voltou-se a temas mais introspectivos, como a figura de São Francisco, além de animais totêmicos e figuras indígenas, consolidando sua maturidade técnica com uma série em bronze que incluiu touros, galos e cavalos.

Nos anos 1990, experimentou novos caminhos. Um dos destaques desse período foi a série de esculturas que uniam bases em bronze a corpos feitos de pedras seixo, tensionando leveza e densidade — obras apresentadas no Atelier Livre da Prefeitura de Porto Alegre e que sinalizavam seu interesse pelas possibilidades contemporâneas da forma.

Mais do que representar, Cláudio parecia querer revelar — como se cada peça fosse o desvelar de uma presença adormecida na matéria bruta. Sua escultura era marcada por um profundo respeito ao tempo do fazer e à densidade dos materiais. Cada entalhe, cada polimento, cada fundição resultava de um compromisso ético com a arte como ofício e como expressão interior. Para ele, “a escultura era a emoção em volume” — uma forma de transformar o invisível em forma palpável, o sentimento em matéria viva.

Cláudio foi, também, o escultor que enfrentava as intempéries. Não temia o frio da argila, da pedra nem a umidade do seu atelier na zona sul de Porto Alegre, onde passava longas jornadas em silêncio e concentração, mesmo nos dias rigorosos de inverno. Sua entrega ao gesto escultórico não se dava apenas no plano intelectual ou estético — era, antes de tudo, corporal, resistente, comprometida com o fazer como experiência vital. E vivia numa zona de conflito entre a desejada liberdade da natureza e o rigor normativo do catolicismo que nunca abandonou.

Sua formação sensível foi forjada em múltiplas fontes. O Dicionário de Artes Plásticas do Rio Grande do Sul o define como “escultor, desenhista e professor. Nascido em Porto Alegre, destacou-se por sua atuação na formação de jovens artistas e pela exploração da figura humana em sua produção tridimensional. Sua obra reflete influências do classicismo europeu, da arte indígena e do pensamento contemporâneo sobre o corpo e o espaço”.

Entre suas influências, destacam-se o mestre Fernando Corona, catalão que estruturou o ensino da escultura no Rio Grande do Sul, e a escultura O Flautista, de Leda Flores, cuja delicadeza lírica despertou em Cláudio uma nova percepção sobre a escultura como linguagem da interioridade.

Outro elemento essencial em sua poética foi o contato direto com comunidades indígenas, especialmente com tribos caingangues, com quem conviveu. Desse convívio, absorveu não só traços formais, mas uma filosofia do corpo, da terra e do tempo — perceptível em sua reverência pelos materiais naturais e pela forma ritual das imagens.

Durante sua carreira, Cláudio Martins Costa foi professor de Escultura na UFRGS, foi professor no Atelier Livre da Prefeitura de Porto Alegre, cuja sala de escultura hoje leva seu nome e atuou como professor na Escola de Belas Artes de Cachoeira do Sul. Nessas funções, formou gerações de artistas e irradiou um modo próprio de habitar a linguagem escultórica.

O Museu de Arte do Rio Grande do Sul (MARGS) incorporou ao seu acervo, em 2019, um molde em gesso de escultura figurativa do artista, doado por sua família. A obra, que integra o núcleo de escultura contemporânea da instituição, representa a permanência física e simbólica de seu legado.

A permanência de sua arte foi consolidada no catálogo de obras organizado por Tete Barachini e Clovis Martins Costa, que apresenta uma seleção representativa de sua produção acompanhada de reflexões poéticas, registros visuais e relatos familiares. O catálogo é um importante testemunho de sua contribuição à escultura brasileira.

Cláudio Martins Costa faleceu em 2008. Sua obra — silenciosa, firme, humana — segue interpelando. Em tempos de automatização e imagens descartáveis, ela resiste. E convida, sempre, a reaprender o olhar e a reconhecer, na matéria moldada com paciência e coragem, o que ainda nos torna humanos.

 

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