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Revista Brazilian Times # 83
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Brasileira em Boston perde mais de US$ 255 mil em golpe sofisticado com criptomoedas envolvendo falsas autoridades

A brasileira Maria Lúcia Mayrinck, moradora de Boston, em Massachusetts, foi vítima de um golpe altamente elaborado envolvendo criptomoedas, no qual criminosos se passaram por agentes da Polícia Civil do Distrito Federal, Polícia Federal, Consulado Brasileiro em Washington, D.C. e até por um suposto agente da CIA. Ao longo de cerca de um mês, os golpistas utilizaram táticas de intimidação, medo e isolamento psicológico para induzir a vítima a transferir US$ 255.871 em Bitcoin para endereços de blockchain controlados pela quadrilha.

A brasileira Maria Lúcia Mayrinck, moradora de Boston, em Massachusetts, foi vítima de um golpe altamente elaborado envolvendo criptomoedas, no qual criminosos se passaram por agentes da Polícia Civil do Distrito Federal, Polícia Federal, Consulado Brasileiro em Washington, D.C. e até por um suposto agente da CIA. Ao longo de cerca de um mês, os golpistas utilizaram táticas de intimidação, medo e isolamento psicológico para induzir a vítima a transferir US$ 255.871 em Bitcoin para endereços de blockchain controlados pela quadrilha.

Segundo o relato de Maria Lúcia, os criminosos operavam a partir de Brasília e construíram uma narrativa complexa que envolvia uma suposta investigação internacional de lavagem de dinheiro ligada à empresa Garantex, citando nomes e estruturas institucionais para dar aparência de legitimidade ao golpe.

 

Como o golpe começou

O primeiro contato ocorreu em 10 de novembro de 2025, quando Maria Lúcia recebeu uma ligação do número 202-696-6835, enquanto estava de férias em Dubai, sozinha em um quarto de hotel. O interlocutor se apresentou como Carlos Eduardo Ferreira, do Consulado Brasileiro em Washington, D.C., alegando que um telefone comprado no Brasil e registrado em seu nome estaria sendo usado para atividades ilícitas.

Ao informar que não poderia comparecer ao consulado por estar fora do país, ela foi transferida para o Departamento de Polícia Especializada do Distrito Federal (DPE), onde passou a falar com uma mulher identificada como Raquel. A suposta policial afirmou que um número de telefone registrado em seu nome estaria sendo usado para aplicar golpes em todo o Brasil e que uma conta no Banco Santander, aberta em Brasília em 16 de maio de 2024, também em seu nome, estaria envolvida em um esquema internacional de lavagem de dinheiro.

 

Ameaças, mandado internacional e falsa promotora

Na sequência, Maria Lúcia foi colocada em contato com uma suposta policial chamada Daniele, também do DPE, que confirmou seus dados pessoais, incluindo o CPF, e afirmou que a conta bancária estaria ligada à empresa Garantex, supostamente administrada por um russo chamado Aleksej Besciokov e um brasileiro.

Durante a ligação, foi incluído um homem que se apresentou como “Delegado”, participando por vídeo, vestindo uniforme policial e exibindo distintivo. Ele questionou se Maria Lúcia conhecia os envolvidos, o que foi negado pela vítima.

Em seguida, a falsa policial Daniele informou que havia um mandado de prisão internacional contra Maria Lúcia, afirmando que ela poderia ser presa em qualquer lugar do mundo, ficar isolada por até um ano, ter bens confiscados, passaporte apreendido e até perder a cidadania americana.

A pressão aumentou quando ela foi colocada em contato com uma suposta promotora identificada como Dra. Patrícia, que disse conduzir uma “oitiva” gravada e afirmou ter participado da condenação do presidente Lula em 2018. A falsa promotora alegou que um brasileiro preso no caso da Garantex teria declarado que negociou diretamente com Maria Lúcia a “venda” da conta bancária por 10% dos lucros, cerca de R$ 8 milhões (US$ 1,4 milhão), tornando-a suspeita no esquema.

 

Isolamento e vigilância constante

Os golpistas determinaram que o caso era “Segredo de Estado”, proibindo Maria Lúcia de falar com familiares, amigos ou advogados. Entre a noite de 10 de novembro e a manhã do dia 11, ela permaneceu em contato ininterrupto por telefone e WhatsApp, sendo informada de que estava sob vigilância 24 horas, com GPS ativo, telefone grampeado e monitoramento de mensagens, e-mails e redes sociais.

De volta a Massachusetts em 13 de novembro, Maria Lúcia foi instruída a comprar um novo telefone, que seria usado exclusivamente para o suposto monitoramento. O aparelho custou US$ 400, além de um aumento mensal de US$ 45 na conta telefônica, com a promessa de reembolso pelo “governo brasileiro”.

 

Entrada do falso agente da CIA e as transferências em Bitcoin

Posteriormente, a vítima foi apresentada a um suposto “Agente da CIA”, identificado como Jake Davis, que alegou conduzir investigações sobre a Garantex nos Estados Unidos. Ele afirmou que os recursos financeiros de Maria Lúcia precisariam ser “inspecionados” pelo governo americano.

Para evitar o congelamento de suas contas, o falso agente exigiu a liquidação de 40% do plano de aposentadoria 401K e de 40% de uma conta de investimentos no banco Oppenheimer. Seguindo as instruções, Maria Lúcia sacou US$ 240 mil do 401K na Charles Schwab e US$ 5.600 da Oppenheimer, abriu contas no SoFi e no aplicativo de Bitcoin Strike, e transferiu os valores até chegar a um endereço de blockchain fornecido pelos criminosos.

Foram realizadas duas transferências em Bitcoin:

US$ 139.470, em 4 de dezembro, mais US$ 955,75 em taxas;

US$ 115.371,12, em 8 de dezembro, mais US$ 790,62 em taxas.

 

Desaparecimento dos golpistas e denúncia às autoridades

No dia 8 de dezembro, o falso agente informou que o dinheiro havia sido considerado “limpo” e que seria devolvido às contas originais até o fim do dia, além da emissão de documentos do Federal Reserve e do FinCEN para justificar os saques junto ao IRS. No entanto, na manhã de 9 de dezembro, nenhum valor havia sido restituído.

Após cobrar explicações, Maria Lúcia não recebeu mais respostas e perdeu completamente o contato com os golpistas. Em conversas anteriores, a suposta policial Daniele havia afirmado que monitorava outras quatro pessoas, indicando que ao menos cinco vítimas estariam sendo enganadas simultaneamente.

Diante do prejuízo, Maria Lúcia registrou queixas formais junto ao FBI e à Federal Trade Commission (FTC) e enviou uma carta à Polícia Federal do Brasil em Washington, D.C., na esperança de que o caso seja investigado e que outras vítimas sejam identificadas.

 

ALERTA

Maria Lúcia decidiu tornar sua história pública para alertar a comunidade brasileira nos Estados Unidos sobre a sofisticação de golpes financeiros como o da Garantex. Ela relatou que em nenhum momento desconfiou do golpe, porque o medo que sentiu superou qualquer alerta interno, e que os criminosos foram extremamente estratégicos, não mencionando dinheiro de imediato e construindo uma narrativa elaborada envolvendo um russo e a Garantex.

Os golpistas apresentaram documentos supostamente oficiais do governo brasileiro, com fotos e detalhes dos crimes alegadamente cometidos pelo russo e por um brasileiro. Maria Lúcia detalhou que, durante uma oitiva pelo WhatsApp com a suposta promotora Patrícia, foi questionada sobre a suposta ligação direta do brasileiro com ela, e que até as vítimas reais do golpe no Brasil haviam transferido dinheiro para uma conta em “seu nome”. Ela destacou que o esquema foi planejado, elaborado, assustador e extremamente convincente, mesmo para alguém com 30 anos de experiência em escritório de advocacia americano em Boston e acostumada a reconhecer golpes por email, telefone ou mensagens.

Apesar de ter feito denúncias ao FBI, FTC e à polícia federal e civil de Brasília, Maria Lúcia não sabe se as autoridades terão interesse em perseguir os criminosos, que continuam atuando sem medo de punição.

Além disso, ela informou que terá prejuízo financeiro adicional, pois terá que pagar impostos sobre o dinheiro retirado de seu plano de aposentadoria 401K, acrescidos de 10% de multa (US$25.000) por ter retirado antes dos 59 anos e meio. Ou seja, Maria Lúcia perdeu dinheiro duas vezes: uma para os golpistas e outra para o governo americano.

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