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BT MAGAZINE

Revista Brazilian Times # 86
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BT Arquivos Secretos | Jack, o Estripador: o terror de Whitechapel e o mistério que atravessa séculos

Em 1888, uma série de assassinatos brutais em Whitechapel transformou “Jack, o Estripador” em um dos maiores mistérios criminais da história, jamais solucionado.

Por Thomas Andrew
Chief Digital Officer – Brazilian Times

Londres, 1888. No labirinto de ruas estreitas e cortiços superlotados do East End, um nome provavelmente inventado virou sinônimo de pânico, imprensa sensacionalista e um dos maiores enigmas criminais da história: Jack, o Estripador. Até hoje, o assassino jamais foi identificado oficialmente.

Na época, ele também era chamado de “Assassino de Whitechapel” e “Leather Apron” (Avental de Couro). O que se sabe com mais segurança é o cenário: o distrito pobre de Whitechapel, marcado por miséria extrema, violência cotidiana, alcoolismo e falta de oportunidades, especialmente para mulheres. A prostituição era, para muitas, um caminho de sobrevivência.

Um bairro em crise

No fim do século XIX, Whitechapel se tornou um retrato duro da desigualdade na Inglaterra vitoriana. A região recebeu ondas de imigração, incluindo irlandeses e refugiados judeus que fugiam de perseguições no Leste Europeu, e a população cresceu rapidamente. Em 1888, estima-se que cerca de 80 mil pessoas viviam na área, com condições de moradia cada vez piores. Hospedarias coletivas lotavam todas as noites, e a tensão social se intensificava com protestos, repressão policial e preconceitos como nativismo e antissemitismo.

Foi nesse caldo social que uma sequência de crimes brutais ganhou atenção inédita, não apenas pela violência, mas também pela forma como a imprensa passou a narrar o caso, dia após dia, alimentando medo e curiosidade.

As “Cinco Canônicas”: as vítimas mais associadas ao Estripador

A investigação policial reuniu 11 assassinatos entre 1888 e 1891, conhecidos como os “Crimes de Whitechapel”. Mas cinco mortes ocorridas entre 31 de agosto e 9 de novembro de 1888 são consideradas, por muitos especialistas, as mais provavelmente ligadas ao mesmo autor. Elas ficaram conhecidas como as “cinco canônicas”:

  • Mary Ann Nichols (31 de agosto de 1888), encontrada em Buck’s Row (hoje Durward Street).

  • Annie Chapman (8 de setembro de 1888), encontrada em Hanbury Street, Spitalfields.

  • Elizabeth Stride (30 de setembro de 1888), encontrada em Dutfield’s Yard, Berner Street (hoje Henriques Street).

  • Catherine Eddowes (30 de setembro de 1888), encontrada em Mitre Square, City of London, menos de uma hora depois do caso Stride, no chamado “evento duplo”.

  • Mary Jane Kelly (9 de novembro de 1888), encontrada em seu quarto em Miller’s Court, Dorset Street, em um dos crimes mais chocantes da série.

Os ataques, em geral, ocorreram à noite, muitas vezes perto de finais de semana e em áreas próximas entre si, um padrão que reforçou a ideia de um criminoso que vivia ou circulava com frequência pela região.

O “nome” que nasceu de uma carta

O apelido “Jack the Ripper” surgiu a partir de uma correspondência enviada à imprensa, a famosa carta “Dear Boss”, assinada por alguém que dizia ser o assassino. O conteúdo foi divulgado e ajudou a transformar o caso em um fenômeno midiático. Hoje, muitos pesquisadores consideram essa carta provavelmente uma farsa, possivelmente ligada ao próprio ambiente jornalístico, criada para aumentar a atenção do público e a circulação de jornais.

Outras mensagens também viraram parte da lenda, como o cartão “Saucy Jacky”, que menciona o “evento duplo”, e a carta “From Hell”, enviada a George Lusk, do Comitê de Vigilância de Whitechapel, acompanhada por um pacote macabro que chocou a cidade. Mesmo assim, cartas e assinaturas nunca foram prova conclusiva, e a polícia chegou a desconfiar publicamente de que tudo poderia ser obra de imitadores ou oportunistas.

Investigação: esforço enorme, resposta nenhuma

A polícia vitoriana mobilizou uma operação gigantesca para os padrões da época: buscas de porta em porta, coleta de evidências, análise de suspeitos e centenas, ou milhares, de entrevistas. Após o “evento duplo”, chegou a ser oferecida uma recompensa de £500 por informações que levassem à captura.

Entre os suspeitos, apareceram profissões ligadas ao uso de lâminas, como açougueiros, matadores e médicos, mas as suspeitas nunca se sustentaram de forma definitiva. O caso também sofreu com dificuldades internas. Durante parte do período mais crítico, um alto responsável da investigação, Robert Anderson, esteve fora do país, o que afetou a coordenação.

No final de outubro de 1888, o médico policial Thomas Bond elaborou um dos primeiros registros do que hoje seria chamado de perfil criminal. Curiosamente, Bond rejeitou a ideia de que o assassino tivesse grande conhecimento técnico ou cirúrgico, contrariando rumores populares.

Depois das cinco: cópia, continuidade ou outro assassino?

Após novembro de 1888, ocorreram outros crimes incluídos nos “Crimes de Whitechapel”, como os casos de Rose Mylett (1888), Alice McKenzie (1889), o “Torso de Pinchin Street” (1889) e Frances Coles (1891). Especialistas divergem. Alguns acreditam em um único autor por mais tempo. Outros defendem que houve crimes diferentes, cometidos por pessoas diferentes, e que a figura do Estripador virou um rótulo para explicar o horror.

O grafite, o medo e o risco de violência

Um dos episódios mais delicados envolve o chamado grafite de Goulston Street, encontrado perto de um pedaço de tecido ligado ao caso Eddowes, com uma frase interpretada por muitos como antissemita. Temendo tumultos e ataques contra judeus, o comissário Charles Warren ordenou que a inscrição fosse apagada antes do amanhecer. O gesto mostra como o caso não era apenas criminal. Era também social e político, inflamado por preconceitos já existentes.

Por que o mistério nunca acabou?

Parte da resposta está na própria construção do mito. A combinação de violência extrema, medo coletivo e cobertura jornalística intensa criou um personagem maior que o crime. Com o tempo, o caso virou um campo de estudo próprio, a “ripperologia”, reunindo pesquisadores, teorias, livros e disputas.

Até hoje, dezenas de nomes foram sugeridos como possíveis suspeitos. Testes de DNA foram tentados em materiais antigos e cartas atribuídas ao assassino, mas os resultados têm sido amplamente contestados por problemas como contaminação, falta de rastreabilidade e impossibilidade de reprodução dos dados. O fato central permanece: a identidade de Jack, o Estripador continua desconhecida.

Um arquivo que segue aberto

Mais de um século depois, o caso ainda prende a atenção do mundo porque mistura tudo o que fascina e assombra: pobreza e abandono, cidade grande, medo noturno, imprensa em ebulição e um criminoso que desapareceu sem deixar nome, rosto ou certeza.

No BT Arquivos Secretos, Jack, o Estripador entra para a lista de histórias em que a verdade histórica, a investigação e a lenda caminham juntas, e onde, mesmo com tantos detalhes preservados, a resposta mais importante continua faltando: quem foi ele?

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