Segundo Joanna, a inspiração surgiu a partir de uma passagem bíblica que a levou a refletir sobre comportamentos humanos que, apesar da passagem do tempo, permanecem atuais.
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Poema de Joanna New York em homenagem a Junior Pena emociona comunidade brasileira nos EUA
A cantora e instrumentista Joanna New York, reconhecida por sua trajetória artística e pelo forte vínculo com a comunidade brasileira nos Estados Unidos, voltou a sensibilizar o público ao escrever um poema em homenagem a Junior Pena. Vencedora de diversos prêmios ao longo da carreira — incluindo o Prêmio As Notáveis 2025 — a artista compartilhou um texto marcado por emoção, reflexão e espiritualidade.
Segundo Joanna, a inspiração surgiu a partir de uma passagem bíblica que a levou a refletir sobre comportamentos humanos que, apesar da passagem do tempo, permanecem atuais. No poema, ela traça um paralelo entre julgamentos históricos e situações vividas nos dias de hoje, destacando como atitudes de condenação pública e moral ainda se repetem na sociedade contemporânea.
O texto ganha contornos ainda mais sensíveis por ter sido escrito pouco tempo após a artista enfrentar um câncer de cólon, diagnosticado no ano passado. A experiência pessoal com a fragilidade da vida e os desafios da superação reforçou o tom intimista e verdadeiro da homenagem.
Inspirada no caso de Junior Pena, Joanna aborda, em versos, a dor de ser imigrante e de ver anos de esforço e trabalho serem diminuídos, desmoralizados ou até humilhados — muitas vezes por pessoas que, em algum momento, foram acolhidas ou ajudadas. O poema também expõe sentimentos humanos complexos, como ódio, rancor e mágoa, além da inquietante constatação de que, por vezes, há quem encontre satisfação na queda do outro.
A obra ainda provoca reflexão ao lembrar que, mesmo após séculos de evolução social, continuam presentes os julgamentos precipitados e as condenações coletivas. Para a artista, nem sempre as escolhas feitas pelo “povo” são justas — muitas vezes são guiadas por narrativas, conveniências ou pela convicção equivocada de que se está fazendo o certo.
A homenagem repercutiu entre brasileiros que vivem no exterior, reforçando o papel da arte como instrumento de empatia, denúncia e reflexão social. O poema de Joanna New York não apenas reverencia Junior Pena, mas também lança um olhar profundo sobre dignidade, pertencimento e humanidade em tempos de polarização e julgamentos públicos.
Poema Inspirado no Caso Júnior Pena – Jesus e Barrabás
Naquele dia, o céu parecia pesado.
Não havia trovões, mas havia silêncio.
O silêncio mais cruel de todos: o da escolha.
De um lado, Jesus.
O homem que curou sem cobrar.
Que tocou os intocáveis.
Que deu pão, abrigo, esperança.
Que chorou com quem chorava
e ensinou que amar era maior que julgar.
Do outro lado, Barrabás.
Um nome marcado pela violência,
pela dor que destrói em vez de curar.
E então veio a pergunta que atravessa os séculos:
“Quem vocês querem que eu solte?”
Jesus não foi condenado apenas pela cruz.
Foi condenado pela ingratidão.
Pela memória curta.
Pelo coração endurecido.
Pilatos lavou as mãos.
Mas o povo sujou as suas.
Porque Jesus poderia ter sido liberto.
Ele deveria ter sido liberto.
Mas a multidão escolheu Barrabás.
Ali, naquele pátio, os valores se inverteram.
O bem virou ameaça.
A verdade virou incômodo.
O amor virou fraqueza.
É assim até hoje.
As pessoas esquecem.
Esquecem quando precisaram de um prato de comida.
Quando bateram à porta pedindo abrigo.
Quando estenderam a mão por socorro —
e alguém estendeu a sua.
A ajuda de ontem não vale nada hoje.
A gratidão tem prazo curto.
O favor vira poeira na memória.
Hoje, as costas se viram.
O olhar vira desprezo.
O perdão é negado
— por crenças, por rótulos, por política, por orgulho.
Não há empatia.
Não há amor no coração.
Há crueldade disfarçada de opinião.
As pessoas se alegram com a queda do outro.
Sentem prazer na desgraça alheia.
Riem da dor que não é delas
e chamam isso de justiça.
Mas há algo que esquecemos…
não sabemos o dia de amanhã.
Hoje você aponta o dedo.
Amanhã pode ser você no centro da praça.
Hoje você escolhe.
Amanhã pode ser o escolhido — ou o rejeitado.
A sua história pode se parecer com a de Jesus e Barrabás.
Porque a vida muda de lado rápido.
E o mundo não tem misericórdia
quando decide virar as costas.
E então eu te pergunto, sem gritos, sem multidão:
como você se sentiria
se escolhessem o outro no seu lugar?
Se esquecessem tudo o que você fez.
Se anulassem sua dor.
Se negassem perdão.
Se se alegrassem com a sua queda.
O povo gritou por Barrabás ontem.
E continua gritando hoje.
Toda vez que escolhe o ódio em vez do amor.
Toda vez que condena quem fez o bem.
Toda vez que lava as mãos diante da injustiça.
Jesus foi crucificado uma vez na cruz.
Mas é crucificado todos os dias
nos corações frios,
nas escolhas sem compaixão,
na ausência de humanidade.
E a pergunta ainda ecoa, atravessando o tempo, atravessando a alma:
Quem você escolhe quando ninguém está olhando?
E mais ainda…
quem você espera que escolham quando for a sua vez ?
Joanna New York





