A mudança permitirá que a Califórnia passe a integrar o State-to-State Verification Service (S2S) e o banco de dados SPEXS, sistemas administrados pela American Association of Motor Vehicle Administrators (AAMVA).
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Califórnia aprova compartilhamento de dados de carteiras de motorista com sistema nacional e gera preocupação entre imigrantes
Da Redação
A aprovação do novo orçamento da Califórnia trouxe à tona um debate que preocupa milhões de imigrantes no estado. O governador Gavin Newsom sancionou a proposta que autoriza o Departamento de Veículos Motorizados da Califórnia (DMV) a compartilhar informações de carteiras de motorista e documentos de identificação com uma rede nacional de verificação, medida que, segundo o governo estadual, é necessária para atender às exigências federais. No entanto, organizações de defesa dos direitos dos imigrantes alertam que a iniciativa poderá aumentar o risco de acesso às informações por autoridades federais de imigração.
A mudança permitirá que a Califórnia passe a integrar o State-to-State Verification Service (S2S) e o banco de dados SPEXS, sistemas administrados pela American Association of Motor Vehicle Administrators (AAMVA). Essas plataformas são utilizadas para impedir que uma mesma pessoa mantenha carteiras de motorista válidas em mais de um estado e fazem parte da estratégia nacional de implementação da REAL ID Act, legislação federal que estabelece padrões de segurança para documentos de identificação emitidos pelos estados.
Segundo o governo da Califórnia, a integração ao sistema nacional é fundamental para manter a conformidade com a legislação federal e preservar a validade das carteiras emitidas pelo estado para acesso a aeroportos, prédios federais e outras instalações que exigem identificação compatível com o programa REAL ID. O orçamento estadual destinou cerca de US$ 55 milhões para a implantação da nova estrutura tecnológica.
Apesar da justificativa oficial, a decisão provocou forte reação de entidades que atuam na defesa dos direitos dos imigrantes. O principal motivo é que a base de dados poderá incluir informações relacionadas às carteiras emitidas por meio da AB 60, lei aprovada em 2013 que permite a emissão de carteira de motorista para pessoas que vivem na Califórnia independentemente de seu status imigratório.
Desde que a legislação entrou em vigor, em 2015, mais de um milhão de imigrantes obtiveram o documento, incluindo milhares de brasileiros residentes no estado. Para esses grupos, a carteira representa uma ferramenta essencial para dirigir legalmente, contratar seguros e exercer atividades cotidianas com maior segurança.
Especialistas alertam que o banco de dados nacional registra parte das informações utilizadas na identificação dos motoristas. Nos casos em que o condutor não possui número de Seguro Social, situação comum entre imigrantes sem status migratório regular, o sistema utiliza um código específico para indicar a ausência desse documento. Organizações de direitos civis afirmam que, embora o governo assegure que não haverá identificação automática da condição migratória dos motoristas, a existência dessas informações pode representar um risco caso ocorram mudanças futuras nas políticas federais de imigração.
O governo de Gavin Newsom afirma que as preocupações são infundadas. De acordo com o DMV, o sistema não permite pesquisas em massa e só poderá ser consultado mediante solicitações individuais contendo dados específicos do motorista, como nome e data de nascimento. As autoridades estaduais também destacam que apenas o mínimo de informações necessárias será compartilhado e que não haverá acesso irrestrito aos registros.
Durante a tramitação da proposta, parlamentares democratas negociaram uma série de salvaguardas para reduzir os riscos de uso indevido dos dados. Entre as medidas aprovadas estão a obrigatoriedade de auditorias independentes, a publicação anual de relatórios sobre consultas realizadas ao sistema, a criação de mecanismos permanentes de fiscalização pelo DMV e a possibilidade de o procurador-geral da Califórnia adotar medidas judiciais contra estados ou instituições que descumprirem as regras de proteção das informações.
Mesmo assim, organizações como a Coalition for Humane Immigrant Rights (CHIRLA) e outros grupos de defesa dos imigrantes afirmam que as garantias ainda não eliminam os riscos. Segundo essas entidades, ordens judiciais, intimações federais ou mudanças na legislação poderão abrir caminho para que informações armazenadas no sistema sejam utilizadas em investigações migratórias, ampliando a vulnerabilidade de comunidades que já vivem sob receio de operações de fiscalização.
A discussão ocorre em um momento de crescente endurecimento das políticas migratórias nos Estados Unidos e reforça o clima de insegurança entre famílias imigrantes. Embora não exista, até o momento, qualquer confirmação de que o Immigration and Customs Enforcement (ICE) tenha acesso direto ao novo sistema, especialistas recomendam que motoristas acompanhem atentamente as orientações do DMV e das autoridades estaduais à medida que a implementação da plataforma nacional avançar.
Para milhares de brasileiros que vivem na Califórnia e utilizam carteiras emitidas pela AB 60, o tema desperta preocupação e deverá continuar no centro das discussões sobre privacidade, proteção de dados e direitos dos imigrantes nos próximos meses. A expectativa é que a implantação do sistema seja acompanhada de perto por organizações civis, legisladores e autoridades estaduais, que prometem fiscalizar o cumprimento das salvaguardas previstas na nova legislação.
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