Documentos internos do Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas dos Estados Unidos (ICE) revelam que autoridades da própria agência alertaram repetidamente para as condições de superlotação e os riscos à saúde de imigrantes mantidos em um centro de detenção temporário localizado no edifício 26 Federal Plaza, em Manhattan, Nova York.
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ICE enfrentou superlotação extrema em centro de detenção de Nova York enquanto ampliava prisões de imigrantes, revelam documentos
Documentos internos do Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas dos Estados Unidos (ICE) revelam que autoridades da própria agência alertaram repetidamente para as condições de superlotação e os riscos à saúde de imigrantes mantidos em um centro de detenção temporário localizado no edifício 26 Federal Plaza, em Manhattan, Nova York.
Segundo e-mails, mensagens de texto e depoimentos apresentados à Justiça Federal, os alertas foram feitos durante semanas, enquanto o número de prisões de imigrantes aumentava em razão da intensificação da política migratória do governo do presidente Donald Trump.
De acordo com os documentos, agentes do ICE estavam prendendo pessoas em um ritmo muito superior à capacidade de transferi-las para centros de detenção de longo prazo. Como consequência, dezenas de imigrantes permaneceram por vários dias em salas improvisadas que normalmente deveriam ser utilizadas por, no máximo, 12 horas.
Os relatos descrevem um cenário considerado crítico. As salas não possuíam camas, chuveiros ou equipe médica permanente. O forte odor provocado pela falta de higiene era constante, e muitos detidos eram obrigados a dormir sentados por não haver espaço suficiente para se deitarem.
A situação teria afetado inclusive pessoas com problemas graves de saúde. Documentos internos apontam que imigrantes diagnosticados com tuberculose, insuficiência renal e cisto no ovário permaneceram detidos sem receber atendimento médico adequado devido à falta de profissionais de saúde disponíveis.
Uma das ex-detidas, Nuvia Martinez, afirmou em depoimento judicial que se sentiu “apenas mais um corpo colocado dentro de uma sala, quase como se tivesse sido esquecida”.
As informações vieram à tona durante um processo judicial movido contra o Departamento de Segurança Interna (DHS). Os documentos foram divulgados pela Justiça Federal em maio e incluem comunicações internas do governo, mensagens entre servidores e depoimentos de pessoas que passaram pelo local.
Os registros mostram ainda que o problema não se restringiu a Nova York. Dados analisados pelo Deportation Data Project, iniciativa vinculada à Universidade da Califórnia em Berkeley e à UCLA, indicam que centros temporários de detenção também operaram acima da capacidade em cidades como Chicago, Minneapolis, Los Angeles e Mesa (Arizona), durante operações de fiscalização realizadas pelo ICE.
Logo após assumir seu segundo mandato, Donald Trump assinou uma ordem executiva para acelerar as deportações e determinou o aumento das prisões de imigrantes em situação irregular. A meta inicial estabelecida pela administração era realizar entre 1.200 e 1.500 prisões por dia, número que posteriormente teria sido elevado para cerca de 3.000 detenções diárias, pressionando ainda mais a estrutura da agência.
Em agosto do ano passado, um juiz federal determinou que o centro de detenção do 26 Federal Plaza não poderia manter mais de 22 pessoas, somando as quatro salas de retenção existentes no prédio. Na decisão, o magistrado afirmou haver um “grave risco de danos irreparáveis” caso a superlotação continuasse.
Apesar da ordem judicial, registros oficiais apontam que o ICE continuou operando próximo ou acima da capacidade em diversos centros temporários utilizados durante grandes operações migratórias.
Questionado sobre as denúncias, o Departamento de Segurança Interna recusou-se a comentar os detalhes do caso, alegando que o processo judicial ainda está em andamento.
Em manifestações apresentadas à Justiça, advogados do governo afirmam que o uso prolongado das salas temporárias decorre da falta de vagas nos centros permanentes de detenção. Segundo a administração, a maioria dos imigrantes permanece nesses locais apenas por alguns dias e recebe entre duas e três refeições diárias, além de cobertores para pernoite.
Especialistas, porém, contestam essa justificativa. Dora Schriro, primeira diretora do Escritório de Política e Planejamento de Detenção do ICE e responsável por revisar os padrões de detenção durante o governo Obama, afirmou que manter pessoas por dias em ambientes sem camas, chuveiros e estrutura médica representa um risco significativo à saúde e à segurança dos detidos.
Os documentos também revelam que, em maio de 2025, agentes do ICE passaram a prender imigrantes logo após eles deixarem audiências no tribunal de imigração localizado dois andares acima das salas de retenção do 26 Federal Plaza. Com os centros de detenção da região lotados e poucas opções de transporte para outras unidades do país, o edifício tornou-se um dos principais pontos de retenção temporária durante a intensificação das operações migratórias.
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