Quando desembarquei nos Estados Unidos aos 53 anos, eu tinha um plano simples: ficar quatro anos.
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Coluna Lucy South Carolina: EDILAINE VASQUES conta um pouco da sua trajetória
Quando desembarquei nos Estados Unidos aos 53 anos, eu tinha um plano simples: ficar quatro anos.
Mas a vida tem o costume de escrever histórias melhores do que aquelas que planejamos.
Os quatro anos viraram oito, dobrei!
E hoje, ao me despedir dos EUA, olho para trás com o coração cheio de gratidão, orgulho e a certeza de que vivi uma das maiores aventuras da minha vida.
Nesse período, conheci mais de 23 estados americanos.
Lugares lindos, culturas diferentes, paisagens inesquecíveis.
Mas foi na Carolina do Sul que encontrei meu lar provisório. E digo provisório porque, mesmo respeitando essa terra que me acolheu, eu sempre soube que um dia voltaria para casa.
Foram oito anos intensos. Oito anos de aprendizados, desafios, superações, conquistas, lágrimas, risadas, descobertas mas sobretudo muito trabalho.
Aqui eu fui muitas mulheres em uma só.
Experimentei ser house cleaner por dois dias e foram suficientes para descobrir que eu não aguentaria, tiro o chapéu pra quem consegue.
Fui cozinheira de restaurante, fui Nanny, fui motorista particular, fui Uber e Lyft pelas ruas americanas.
Viajei por vários estados. Fiz entregas pelo DoorDash e Uber eats.
Tive SPA dos pés e abracei cada oportunidade que a vida ia trazendo diante de mim.
Porque quando decidimos recomeçar, nenhum trabalho diminui nossa dignidade.
Pelo contrário. Cada experiência nos fortalece e nos ensina.
Mas foi através da Dí ASSESSORIA que vivi uma das experiências mais LINDAS da minha trajetória.
Tive a honra de ajudar mais de 200 famílias a realizarem seus sonhos e projetos de vida.
Cada chamada de vídeo era muito mais do que uma orientação e planejamento.
Era um encontro de sonhos.
Ali eu mostrava a realidade como ela é, sem ilusões, sem promessas mágicas e sem fantasias.
Existia muita responsabilidade e respeito, um compromisso extremamente genuíno com as famílias.
Falávamos sobre oportunidades, trabalho, dificuldades, desafios, escolas, adaptação expectativas e muito mais.
Cada família tinha uma história e um perfil muito particular.
Cada pessoa carregava um sonho.
Casais, famílias com filhos, pessoas sozinhas, jovens começando a vida ,profissionais , estudantes , muitos recomeçando do zero.
Os 50+, que passaram a acreditar e sonhar quando viram que era possível sim.
Quanto orgulho eu tenho de toda essa gente…
E acompanhar essas jornadas foi um dos maiores presentes que recebi.
Muitas pessoas chegaram com medo, inseguranças, dificuldades financeiras e dúvidas sobre o futuro. E tive o privilégio de assistir à transformação de tantas delas.
Ver alguém prosperar depois de tanto esforço é uma das sensações mais bonitas que existem.
Mas a América também me ensinou lições profundas.
Vi pessoas florescerem.
Vi outras se perderem.
Vi o dólar realizar sonhos, mas também vi o dólar mudar comportamentos e fazer da vida de muitos um pesadelo.
Vi pessoas deixarem a empatia para trás.
Vi o TER tentando ocupar o lugar do SER.
Vi amizades acabarem por orgulho e ganância.
Vi mulheres competindo quando poderiam caminhar juntas.
Vi homens abandonarem famílias em busca de ilusões.
Vi casamentos chegarem ao fim, quando a independência financeira trouxe à tona verdades que já existiam.
E foi observando tudo isso que compreendi uma das maiores lições da minha vida: prosperidade e caráter não são a mesma coisa. Ganhar dinheiro é uma conquista.
Permanecer humano depois disso, é uma escolha.
E eu escolho guardar o melhor dessa história.
Escolho lembrar das famílias que venceram, das amizades verdadeiras, das pessoas que cresceram sem perder a essência e daquelas que prosperaram sem esquecer de onde vieram.
Hoje parto levando muito mais do que trouxe.
Levo aprendizado.
Levo experiências.
Levo maturidade.
Levo histórias.
Levo lembranças que ninguém poderá tirar de mim.
Aprendi que sou muito mais forte do que imaginava.
Descobri capacidades que nem eu sabia que possuía. Enfrentei desafios que jamais pensei enfrentar. Caí, levantei, recomecei e segui em frente.
Tudo o que me fez crescer eu levo comigo.
O que não acrescentou, coisas e pessoas deixo para trás, levado pelo vento.
Volto para o Brasil realizada.
Porque tudo aquilo que quis fazer na vida, eu fiz ou tive coragem de tentar.
E isso faz toda a diferença.
Também volto feliz por ter aberto caminhos para minhas filhas.
Talvez essa seja uma das maiores conquistas da minha vida.
Elas chegaram depois, sabendo onde pisar, conhecendo oportunidades, riscos e caminhos. E sabendo o que não fazer.
Minha caminhada ajudou a tornar a delas mais segura. E isso não tem preço. Parto com a sensação tranquila de dever cumprido. Levo poucos amigos, mas levo amigos raros. Daqueles que a vida nos presenteia uma única vez. Daqueles que nem o tempo e nem a distância conseguem apagar.
E tenho a felicidade de saber que deixarei saudade.
Quando olho para trás, percebo que nenhuma faculdade, pós-graduação ou especialização poderia me ensinar o que esses oito anos ensinaram.
A América foi a maior escola da minha vida.
E em cada manhã dessa jornada, Deus esteve comigo.
Minha fé nunca precisou entender tudo para continuar acreditando.
Eu simplesmente confiei. Confiei nos dias bons. Confiei nos dias difíceis. Confiei quando tudo fazia sentido.
E confiei quando nada parecia fazer sentido.
Hoje me despeço da comunidade imigrante com carinho e gratidão.
Sei que contribui com muitas pessoas, sempre ajudei no que eu pude.
Muitas pessoas me procuravam e eu fazia o possível pra ajudar sempre.
Desejo felicidade para quem fica.
Desejo coragem e determinação para quem ainda vai chegar.
E deixo uma mensagem para quem acredita que já passou da hora de realizar um sonho.
Eu atravessei fronteiras aos 53 anos.
Recomecei quando muita gente acreditava que era tarde pra mim, menos eu.
Construí uma nova história quando parecia que minha história já estava escrita.
Por isso, digo com toda convicção: nunca deixem de buscar suas realizações.
Tudo parece impossível até que alguém faça primeiro.
Depois que alguém consegue, o impossível vira apenas uma possibilidade esperando pela sua vez.
Mas agora chegou a hora de voltar para casa.
Volto para a minha querida cidade.
A cidade onde estão minhas raízes.
A cidade onde estão minhas lembranças.
A cidade para a qual meu coração sempre soube que voltaria.
Volto também encerrando um importante ciclo da minha vida profissional.
Depois de décadas de trabalho, dedicação e luta, conquistei minha aposentadoria.
E recebo essa nova fase não como um ponto final, recebo como uma conquista.
Como uma liberdade, a liberdade de escolher.
Escolher onde estar.
Com quem estar.
E, principalmente, como viver.
Volto aposentada.
Preparada para desacelerar.
Mas jamais para parar.
Porque descobri que existe uma enorme diferença entre se aposentar da profissão e se aposentar da vida.
Continuarei trabalhando.
Mas agora apenas com aquilo que me dá prazer.
Com projetos que façam sentido.
Com pessoas que me inspirem.
Com atividades que tragam alegria ao meu coração.
Sem a pressão que tantas vezes acompanhou minha caminhada.
Sem correria desnecessária.
Sem a obrigação de provar nada para ninguém.
Quero ter tempo para um café com bolo com minhas amigas.
Tempo para conversas demoradas.
Tempo para abraços mais longos.
Tempo para acompanhar mais de perto quem eu amo, minha filha do Brasil, meu marido parceiro que lutou bravamente e incansavelmente neste país.
Que nunca parou, que todos os dias durante quase 8 anos começava seu trabalho às 4 da madrugada.
Nada teria acontecido da forma que aconteceu, sua presença ao meu lado foi meu
Porto Seguro.
Quero viver meu lar.
Meu ninho.
Meu refúgio.
Meu pedacinho de céu.
Cada cantinho da minha casa foi preparado com carinho.
E agora chegou a hora de aproveitar tudo aquilo que construímos.
Quero cuidar mais de mim.
Da minha saúde.
Do meu corpo.
Da minha mente.
Da minha paz.
Quero caminhar sem pressa.
Viajar quando tiver vontade.
Descansar quando sentir necessidade.
Celebrar as pequenas alegrias que tantas vezes passam despercebidas na correria da vida.
Pela primeira vez em muitos anos, meu foco principal sou eu.
Não por egoísmo, mas por entendimento e respeito a mim.
Porque aprendi que cuidar de mim, também é uma forma de agradecer por tudo o que vivi permitido por Deus.
Deus está em mim .
Essa nova fase não é sobre parar é sobre escolher.
Escolher onde colocar meu tempo, minha energia, meu amor, minha presença.
E posso dizer, com toda sinceridade, que eu estou muito feliz.
Feliz por tudo o que vivi.
Feliz por tudo o que construí.
Feliz pelas pessoas que fizeram parte dessa caminhada.
Feliz pelas minhas filhas.
Feliz pelos amigos que ganhei.
Feliz pelas histórias que colecionei.
Feliz porque recomeçei aos 53 anos.
E feliz porque agora volto com 62 anos, com a certeza de que valeu a pena.
Estou deixando a América com o coração cheio de gratidão.
E chegando ao Brasil com o coração cheio de alegria.
Porque a vida me ensinou que o verdadeiro sucesso não está apenas no dinheiro que conquistamos ou nos lugares que conhecemos.
O verdadeiro sucesso está em olhar para trás e sentir orgulho da própria história.
E eu sinto.
Não estou aposentando da vida.
Estou aposentando da obrigação.
E isso faz toda a diferença.
Obrigada a cada pessoa que cruzou meu caminho nesses 8 anos.
Agora é hora de voltar para casa.
“Viver, com alegria, leveza, gratidão e amor, talvez a fase mais bonita da minha vida.”
Obrigada, América.
Adeus Estados Unidos
Tô chegando meu Brasil
Com carinho,
Dí Vasquez




