Publicado em 2/10/2011 as 12:00am

PSD não passa de um "PMDB repaginado", avaliam cientistas políticos

"PMDB com topete", "PMDB do B", "PMDB repaginado". Assim cientistas políticos entrevistados pelo UOL Notícias definem o caráter do PSD (Partido Social Democrático), sigla que obteve seu registro na Justiça Eleitoral na semana passada. Dias antes da legali

“PMDB com topete”, “PMDB do B”, “PMDB repaginado”. Assim cientistas políticos entrevistados pelo UOL Notícias definem o caráter do PSD (Partido Social Democrático), sigla que obteve seu registro na Justiça Eleitoral na semana passada. Dias antes da legalização do partido, seu principal quadro político e idealizador, Gilberto Kassab --prefeito de São Paulo--, chegou a declarar que a legenda não era “de direita, nem de esquerda, nem de centro”.

“O peemedebismo não é de esquerda, nem de centro, nem de direita. O Kassab tem razão. O PSD é o PMDB com topete: não é uma cara nova, é uma expressão do peemedebismo, que nada mais é do que aderir ao governo, seja qual for e onde for, para conseguir conquistar um pedaço do Estado”, avalia o cientista político Marcos Nobre, professor na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas).

Fernando Abrúcio, doutor em ciência política pela USP (Universidade de São Paulo) e professor na FGV-SP (Facudade Getúlio Vargas), dá outro apelido à nova sigla: “PMDB do B”. “O PMDB do B não traz nada de novo, repete o mesmo, com mais maestria. Não nasce como um partido com projeto, com um ponto de vista programático, nem tem base social. Talvez até o PMDB tenha mais gente com ideias”, diz.

O prefeito da maior cidade do país afirmou ainda que o partido não comporia a base governista, mas também não cerraria as fileiras de oposição ao governo federal. A ausência de posicionamento ideológico e a feição adesista do novo partido viraram alvo de críticas e deboche.

Apesar disso, na avaliação do também cientista político Cláudio Couto, professor da FGV, o fisiologismo do PSD não deve emperrar o desempenho eleitoral da sigla. “Essa percepção chega a uma parcela muito específica da população. A maior parte do eleitorado vota independentemente de tudo isso”, afirma.

O que explica o PSD?

O PSD foi criado em março deste ano, capitaneado por Kassab, pelo vice-governador de São Paulo, Afif Domingos, pela senadora Kátia Abreu (TO), entre outros políticos descontentes com suas siglas. Migraram para o partido dissidentes de DEM, PSDB, PMDB, PR, PTB e legendas menores.

Em seis meses, o PSD recolheu as 500 mil assinaturas necessárias e, a despeito da polêmica em torna da veracidade das rubricas, legalizou o partido na Justiça Eleitoral. A sigla nasceu poderosa, com a quarta maior bancada da Câmara (cerca de 50 deputados federais), além de senadores, governadores e lideranças regionais.

O líder do governo na Câmara, deputado Cândido Vaccarezza (PT-SP), classificou a criação do PSD como o fato político do ano. Para os analistas políticos, a proporção que o PSD tomou surpreendeu até mesmo os fundadores do partido. “É um fenômeno. É o fato político da década. Pegou até eles mesmos de surpresa”, diz Nobre.

O que explica o sucesso? “Os fundadores queriam ser uma dissidência do DEM para resolver problemas regionais, somente. O DEM, ao se renovar, pulou uma geração. Os antigos caciques transferiram o poder para a geração dos novíssimos –ACM Neto, Rodrigo Maia. A turma que nasceu lá por 1960, e não era filho de cacique nenhum, se sentiu deslocada. O Kassab olhou para o quadro brasileiro e percebeu que seu caso não era isolado. Havia uma demanda reprimida”, afirma o professor da Unicamp.

Para Marcos Nobre, o PSD foi ajudado ainda por ter o “monopólio da infidelidade partidária”, já que, por ser um partido novo, os políticos puderam deixar suas siglas antigas sem perderem seus cargos.

Abrúcio aponta que por trás do sucesso do PSD há uma crise nas direções partidárias. “Os dirigentes estão na berlinda. Há um descontentamento geral das culturas partidárias. Por outro lado, isso tudo mostra como muita gente que estava na oposição não aguentava mais ser oposição”, avalia.

Nobre aponta uma outra particularidade do PSD, que é apoiado pela UGT (União Geral dos Trabalhadores), central sindical que, até então, era apartidária, apesar de gravitar em torno do PSDB. “É o primeiro partido de direita no Brasil que terá um dispositivo sindical. A UGT é ligada aos comerciários, que vão gerir os fundos do partido. Serão os tesoureiros do PSD.”

Partido sem conteúdo

Após conseguirem o registro no TSE (Tribunal Superior Eleitoral), os pessedistas lançaram, em manifesto, que a principal bandeira do partido é a defesa de uma Assembleia Nacional Constituinte para 2014, com o objetivo de revisar a Constituição. “É uma tentativa de conferir conteúdo a um partido sem conteúdo. Não vejo com seriedade. É uma tentativa de mostrar que eles têm algum tipo de proposta”, afirma Cláudio Couto.

Na avaliação dos analistas, a criação do PSD obrigará o PMDB a se renovar, já que a sigla agora ganha um “concorrente a altura”; o DEM tende a se enfraquecer, diminuir sua representatividade e a buscar uma identidade; como a oposição como um todo ficará mais fraca, o PSDB também deve perder força, num primeiro momento.

O PSB ganha um aliado em potencial, com o qual poderá fazer alianças estratégicas; já o PT, inicialmente, será beneficiado com o enfraquecimento da oposição, mas terá que renovar seus quadros para não ver sua hegemonia ameaçada pelo novo peemedebismo materializado no PSD.

2018, ano-chave

Para Marcos Nobre, as eleições de 2018, quando haverá a troca definitiva da atual geração de caciques políticos (Lula, Temer, Serra, entre outros), dirá se o peemedebismo do PSD logrará. “Essa base aposta na reeleição de Dilma em 2014. Em 2018, haverá a troca geracional. Até lá, os partidos vão ter que se renovar.”

Abrúcio afirma que é cedo para dizer que o PSD terá força daqui a sete anos. “Não vejo como o PSD fazer para em 2018 ser uma oposição ao PT no plano das ideias. Teria que surgir uma liderança, alguma novidade. Se o PT conseguir fazer a transição de gerações, o PSD será coadjuvante”, diz.

Peemedebismo, máquina predatória

Diante do logro do PSD, Nobre acredita que a pergunta que se tem que fazer é: “por que a sociedade atura o peemedebismo? Esse tipo de pensamento não traz nenhum discurso a favor ou contra alguma coisa, é tudo genérico, vago, uma defesa do amor e do desenvolvimento. Ao mesmo tempo, o peemedebismo é uma máquina predatória do Estado brasileiro”, afirma.

“Por outro lado, existe a insatisfação. A população não está satisfeita. Mas o peemedebismo sobrevive porque não há um movimento de massas para alterar essa situação e derrotá-lo”, diz. “Mas a vantagem da história é que ela surpreende. Quando não se espera nada, surge alguma coisa. Chile, Espanha, Grécia, os países árabes, embora cada um com uma situação diferente, são exemplos”, afirma Nobre.

Fonte: UOL.COM.BR