Publicado em 9/08/2012 as 12:00am

policiais reclamam de condição 'desumana' de trabalho na Rocinha

O governo do Rio de Janeiro está improvisando na área da Segurança Pública para instalar Unidades de Polícia Pacificadora (UPP) em comunidades onde não houve preparo antecipado, como acontece na Rocinha, onde o policiamento é feito, segundo admitiu a próp

O governo do Rio de Janeiro está improvisando na área da Segurança Pública para instalar Unidades de Polícia Pacificadora (UPP) em comunidades onde não houve preparo antecipado, como acontece na Rocinha, onde o policiamento é feito, segundo admitiu a própria Polícia Militar, por estagiários e não soldados. Por serem tratados ainda como em fase de treinamento, os recém-formados recebem como recrutas, menos do que é pago aos soldados, mesmo exercendo as mesmas funções de policial.

Um desses policial, que não quis se identificar, confessou que tem dificuldades até para chegar ao 23º BPM, no Leblon, corporação a qual estão lotados. "A gente precisa de dinheiro para trabalhar. Para eles (oficiais), não importa se eu tenho aluguel, se eu preciso pagar a fralda dos meus filhos", queixa-se. Além da falta de pagamento, o policial enumera outras situações pelas quais passam cotidianamente que, segundo entende, afetam a "dignidade" da tropa.

Com ou sem instalações, os policiais dão jornada de 12 horas em pé. A medida, segundo a PM, visa a protegê-los contra possíveis ataques. Se estiverem em viaturas, ficam ao lado delas. Mas muitos chegam à Rocinha em ônibus da corporação e fazem o serviço a pé. "Se sentarmos, por dez minutos que sejam, e algum superior nos ver, podemos ser presos", revela o policial, cuja identidade foi preservada para evitar represálias. Segundo ele, durante as 12 horas de jornada, uma única refeição é distribuída. Ao contrário do que ocorre na unidade do Complexo do Alemão, por exemplo, onde os PMs ainda têm o banheiro das estações do teleférico que acabam usando, na Rocinha não há algo parecido.

Segundo o PM, é preciso avisar antes de sair da viatura para ir a um banheiro, do contrário é possível sofrer autuação por abandono de posto. "Não temos banheiro. Ficamos a mercê da boa vontade dos comerciantes para utilizar os sanitários deles. Pedimos pelo rádio para ser liberados, e se um colega tiver um problema intestinal e não tiver tempo de avisar, como faz?"

O policial ainda critica a falta de informações dentro da corporação. Segundo ele, recentemente um superior avisou que seria aberto um processo de expulsão sumária da Polícia Militar para o soldado que faltasse a um dia de trabalho. "Na maioria das vezes somos coagidos. O superior informou que se tiver falta no próximo serviço, vamos responder junto a um Conselho, em um processo de expulsão sumária da corporação, porque um companheiro, numa eventualidade, não teve dinheiro para ir ao trabalho", conta.

Equipamento

Em relação ao equipamento, o policial deu informações similares às publicadas pelo Jornal do Brasil, na segunda-feira, com base em depoimento de outro PM. O armamento da UPP da Rocinha, segundo diz, é composto majoritariamente por pistolas com mais de oito anos de uso. A quantidade de fuzis é ínfima, o que deixa vulneráveis os policiais no caso de ataques violentos.

"Entrou um armamento novo que também já está dando problema . Há pouquíssimos fuzis, não chega a um por viatura. Isso não existe. Se sofrermos uma investida de marginais com fuzis, vamos ter que procurar abrigo. Não há como revidar", disse.

A Secretaria de Segurança Pública do Estado explicou que o objetivo da pacificação das comunidades não é acabar com o tráfico de drogas, mas erradicar a ostentação de traficantes com armas e seu domínio territorial na região. O policial que relata os problemas da unidade confirma, porém, que o tráfico de drogas continua naturalmente na favela, embora os marginais não disponham de armamento tão poderoso como no passado. "De vez em quando vemos alguém portando uma pistola PT45 dentro da comunidade. Não tem ostentação, mas há gente armada. O problema é a exposição", relata. "Acredito que mesmo o nosso fuzil não vá funcionar, é muito antigo. Posso até dar dois tiros, mas ele vai acabar travando."

O soldado conta ainda que os coletes usados pelos PMs na Rocinha foram doados por uma empresa, cujo nome não revelou. De armas não letais, eles dispõem apenas de spray de pimenta. Seu uso, contudo, é controlado. No caso de um tumulto, de uma agitação da multidão, a única reação cabível, segundo ele, é a "covardia".

"Se houver uma grande confusão, teremos de dar uma de covardes (apenas assistir ao fato). Se atirarmos para o alto, responderemos por incitação. Respondemos pelo tiro dado a esmo."

Ele também reclama que os rádios não funcionam, tal como denunciou o outro policial na semana passada. Segundo o policial, é comum o equipamento estar quebrado. Ele acrescenta: "Há viaturas paradas na Rocinha que não funcionam. Para socorrer alguém temos de pedir apoio. Faltam condições de trabalho, pessoal e financeira", resume.

Jornada e alimentação

Na Rocinha, o regime é de 12 horas trabalhadas por 24 horas de folga. Segundo o policial denunciante, o contingente de um plantão só é liberado com a chegada da rendição, o que costuma ultrapassar a jornada de 12 horas, sem nenhuma compensação. "A gente acorda às 4h da manhã para chegar ao batalhão na hora, e só consegue sair da zona sul lá pelas 9h da noite. É subumano ficar 12 horas em pé."

Outra reclamação é a comida. De acordo com ele, os soldados recebem apenas uma refeição por dia. A quantidade é econômica: arroz, feijão, carne e farofa. Além da escassez de alimento, os policiais precisam se revezar para comer. "Recebemos uma quentinha e não temos onde comer, nem na viatura. Temos de esperar o colega almoçar para comer. Gastamos muita energia e aquele pingo de comida não é suficiente para alimentar quem está de prontidão. Se não tirarmos do bolso, ficamos só nessa refeição."

O soldado também critica o curso ministrado no Centro de Formação e Aperfeiçoamento de Praças (CFAP), preparação "jogada" nos alunos da 5ª Companhia Bravo. A matéria de sobrevivência urbana, fundamental aos recém-ingressados para aprenderam a se portar em comunidade, teve apenas uma aula. "Quem gosta de combate treina por conta própria. Jogaram a gente lá dentro sem saber nada da geografia e da tática militar necessárias", denuncia.

Em relação à falta de estrutura, há situações complexas, segundo o policial: "Podemos parar uma moto que esteja irregular, mas não há quem reboque o veículo. Até temos liberdade de ação, mas faltam condições para dar continuidade ao trabalho", diz.

Porte de arma

Apesar de ter o porte de arma, o policial ainda não conseguiu a liberação do documento necessário para retirar o armamento de uma loja legal. Para agravar a situação, diz, todo policial precisa portar a carteira de militar. Em caso contrário, pode ser preso. "É muito fácil alguém nos pegar do serviço ou até sequestrar. Temos de ficar nos escondendo, essa é a realidade. A carteira de policial tem de ficar escondida."

Esse quadro de penúria e improviso o leva a concluir que há má aplicação dos recursos, prejudicando o serviço: "Estamos subutilizados. Somos como fantoches, para ser filmados pela Globo dizendo: 'olha, a UPP funciona, tem muito policial na rua'", critica. "Fiz concurso para melhorar de vida, não para ficar com o nome sujo. Vai ter gente ficando maluca, e para fazer uma besteira, como agredir alguém, não custa muito. A gente quer é trabalhar."

Resposta da Polícia Militar

Segundo a assessoria da Polícia Militar, o uso de estagiários na Rocinha é uma estratégia para incluir os novos policiais no trabalho de rua. "Os alunos da Turma VII - 2011 foram para a Rocinha fazer Estágio Prático-Operacional e ainda recebem como recrutas, pois estão sendo incluídos no sistema", explica. "Eles receberão todos os atrasados referentes aos meses que receberam como recrutas", prometeu a PM por meio de nota.

Mas, os próprios formandos, sem se identificarem, alegam que há companhias formadas depois da Turma VII cujos membros recebem normalmente os vencimentos de soldados prontos da PM.

Sobre a reclamação em relação à comida, a PM rebate: "O major Édson Santos, que comanda o policiamento na Rocinha, informou que almoça todos os dias a mesma comida destinada à tropa. O oficial informa que jamais encontrou comida estragada."

Sobre a exigência de os soldados serem obrigados a permanecer em pé 12 horas de serviço, a assessoria explica como medida para protegê-los. "O policiamento em viatura é sempre em deslocamento. A norma estabelece que, uma vez parada, os policiais devem ficar fora da viatura e não sentados dentro, já que é uma atitude que gera risco para eles."

Por fim, a assessoria da corporação garante que as pistolas e coletes à prova de bala novos foram destinados aos policiais que foram designados para a ocupação da Rocinha, no início da operação. No entanto, não revelou quando o material foi adquirido.

Fonte: terra.com.br