Publicado em 30/08/2012 as 12:00am

caseiro nega responsabilidade e culpa garoto por morte em Bertioga

O caseiro Erivaldo Francisco de Moura negou, em depoimento nesta quinta-feira, no Fórum de Bertioga, no litoral de São Paulo, que tenha transportado até a beira da praia a moto aquática que atropelou e causou a morte de Grazielly Lames, 3 anos, em feverei

O caseiro Erivaldo Francisco de Moura negou, em depoimento nesta quinta-feira, no Fórum de Bertioga, no litoral de São Paulo, que tenha transportado até a beira da praia a moto aquática que atropelou e causou a morte de Grazielly Lames, 3 anos, em fevereiro deste ano, na praia de Guaratuba.

À Justiça, Moura disse que foi o adolescente de 13 anos, apontado por testemunhas como o piloto, quem pegou o veículo sem autorização e o levou até a praia para passear com um amigo, o que acabou causando a tragédia.

Erivaldo trabalha há cinco anos como caseiro da residência em Bertioga do empresário José Augusto Cardoso Filho, proprietário da moto aquática e padrinho do adolescente apontado como responsável pelo acidente. O depoimento dele, porém, contraria a versão do garoto e do amigo dele, que disseram anteriormente que contaram com a ajuda do caseiro para levar a moto aquática até a praia e acionar o veículo - o que Erivaldo nega.

A audiência de hoje já faz parte do julgamento do caso, que conta com três réus. O caseiro chegou a ser denunciado pelo Ministério Público de São Paulo como corresponsável, mas a Justiça não o incluiu como réu e, por isso, ele foi ouvido como testemunha de defesa pelo juiz Rodrigo de Moura Jacob. Respondem por homicídio culposo (sem intenção): o empresário José Cardoso; Thiago Veloso Lins, dono da marina onde ficava guardado o veículo, e o mecânico Ailton Bispo de Oliveira, que realizou um serviço de manutenção na moto aquática na véspera da tragédia. Eles também respondem por lesão corporal culposa, pois uma outra pessoa também foi atingida pela moto aquática na ocasião.

O depoimento do caseiro durou mais de duas horas e foi marcado pelo clima tenso entre a acusação e a defesa dos réus, que apontam contradições no depoimento. Logo no início, o promotor Roberto Márcio Ragonezi Francisco chegou a pedir ao juiz que registrasse no processo que o caseiro recebia "ordens diretas do suspeito", em referência a Cardoso, e tinha "interesse na causa", e que, por isso, não poderia ser considerado uma testemunha de confiança.

Já o advogado da família de Grazielly, José Beraldo, pediu para que ele fosse preso por falso testemunho. O juiz Rodrigo de Moura Jacob negou o pedido, mas advertiu a testemunha em mais de um momento lembrando que poderia responder na Justiça caso mentisse.

"Eu queria que tivesse um detector de mentira. Aí iam ver quem está mentindo", respondeu o caseiro, ao ser questionado sobre as divergências entre as versões.

Responsabilidade e ameaças

À Justiça, o caseiro contou que a moto aquática ficava guardada em uma garagem, com a chave e combustível, e que era "muito fácil" de ser acionada por qualquer um, mesmo pesando cerca de 300 kg. Ele disse ainda que o garoto era "muito bagunceiro", mas negou que ele tivesse autorização para usar o veículo. "Nunca vi", afirmou.

Ele negou, contudo, que tenha qualquer participação no caso, e disse que quando chegou à beira da praia o menino e o amigo já haviam colocado a moto aquática dentro do mar.

"Quando eu cheguei lá, ele (o adolescente) já tinha colocado o jet ski (moto aquática) no mar. Ele enfiou o quadriciclo (que transportava a moto aquática) dentro da água, o escapamento já estava borbulhando, e ele me xingando: 'rapaz, por que você demorou?' E eu disse: 'não era nem pra você ter pegado isso'", contou.

Questionado sobre por que não impediu que o adolescente utilizasse o veículo, mesmo sem autorização, o caseiro responsabilizou a mãe do garoto. "Se a mãe dele viu ele passando (com a moto aquática) e não proibiu, quem sou eu pra falar alguma coisa?", afirmou.

Moura disse ainda ter sido ameaçado por dois homens, um deles armados, logo após Grazielly ter sido atingida pela moto aquática. Ele negou que o adolescente e a família tenha fugido de helicóptero, conforme chegou a ser afirmado na ocasião, embora isso nunca tenha sido comprovado.

"Eles me ameaçaram de morte", disse. "Não deu tempo de fazer nada", completou, ao ser questionado sobre a omissão de socorro por parte da família.

Após o depoimento, a defesa dispensou o testemunho da mulher dele, Mariléia Ferrão Oleastre, que também trabalhava na casa.

Tragédia

Grazielly foi atropelada por uma moto aquática na praia de Guaratuba, em Bertioga, enquanto brincava na areia ao lado da família, que mora no município de Artur Nogueira, em São Paulo, mas passava o Carnaval no litoral. Segundo testemunhas, o adolescente acionou a moto aquática, que atingiu a criança em alta velocidade. A menina chegou a ser socorrida pelo helicóptero Águia da Polícia Militar, mas não resistiu aos ferimentos.

A pena para homicídio culposo varia de um a três anos de detenção, e para lesão corporal culposa, de dois meses a um ano de prisão. O aumento de pena previsto no Código Penal é de um terço, conforme pedido na denúncia.

A expectativa é que o julgamento só acabe em 2013, já que os três réus só serão ouvidos após a oitiva de todas as testemunhas, o que deve levar, no mínimo, mais quatro meses.

Fonte: terra.com.br