Publicado em 18/09/2012 as 12:00am

Preso por fogo trancou parceiro em barraco em chamas, diz polícia

Moradores vizinhos ao barraco do travesti Fidelis Melo de Jesus, 37, conhecido como Eliete, afirmaram em depoimento no 77º DP que o incêndio na favela do Moinho, na região central de São Paulo, na manhã desta segunda-feira (17), foi causado por ele durant

Moradores vizinhos ao barraco do travesti Fidelis Melo de Jesus, 37, conhecido como Eliete, afirmaram em depoimento no 77º DP que o incêndio na favela do Moinho, na região central de São Paulo, na manhã desta segunda-feira (17), foi causado por ele durante uma briga com seu parceiro, Damião de Melo, 38, que morreu carbonizado. Os dois estavam em um relacionamento homoafetivo havia cinco anos.

De acordo com o delegado titular do DP, Marcos Galli Casseb, os dois eram usuários de droga e estavam no meio de uma discussão quando Eliete teria ateado fogo a uma camiseta no barraco e o trancado por fora, deixando o parceiro do lado de dentro. O travesti deixou a favela em uma ambulância do Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência) e foi encontrado no Hospital Barra Funda, sob efeito de drogas.

Um morador da favela, no entanto, afirmou que entrou no barraco em chamas no início do incêndio para tentar apagar o fogo e que a porta não estava trancada. "O barraco estava aberto, eu entrei no barraco do fogo", contou o repositor Marcos Antônio de Moura, 31, que mora na comunidade há dez anos, atualmente com o filho de dois anos.

Fidelis Melo de Jesus se encontra detido no 77º DP e nega que tenha ateado fogo ao local e iniciado o incêndio na favela. A polícia desconhece o motivo da susposta discussão. Damião havia deixado a cadeia, onde cumpria pena por roubo e furto, em junho deste ano. Já Eliete não tinha passagem pela polícia. De acordo com a delegada Aline Gonçalves, ele pode pegar de 12 a 30 anos de prisão se condenado por homicídio qualificado e por incêndio doloso.

Duas moradoras do Moinho contaram que o barraco onde Jesus vivia com Melo era antes ocupado por uma família, que deixou o local há cerca de três meses, quando então os dois homens passaram a morar ali. Moradora da comunidade há mais de cinco anos, Gislaine dos Santos salvou uma televisão e o aparelho de micro-ondas. Ela diz que saiu para levar seus dois filhos, um de quatro e outro de dois anos de idade, à creche e, na volta, o incêndio já tinha queimado parte da favela.

A Defesa Civil estima que ao menos 80 barracos tenham sido destruídos e 300 pessoas estejam desabrigadas. O trânsito foi bloqueado nos dois sentidos do Viaduto Orlando Murgel - ligação entre as avenidas Rio Branco e Rudge -, que passará agora por uma inspeção.

Além disso, a circulação foi interrompida nas linhas 7-Rubi e 8-Diamante da CPTM e, de acordo com a SPTrans, 17 linhas de ônibus tiveram itinerário desviado. Todas as ruas do entorno da comunidade foram bloqueadas, segundo a CET, e vias no sentido da alça da marginal do Tietê para a Ponte da Casa Verde também foram fechadas. O trânsito ficou concentrado na avenida Rudge.

Incêndio em 2011

No dia 22 de dezembro do ano passado, um incêndio de grandes proporções destruiu parte da favela do Moinho. O fogo começou em um prédio abandonado de quatro andares. Segundo o Corpo de Bombeiros, em menos de meia hora, o incêndio devastou um terço da comunidade, onde moravam cerca de 600 pessoas. O local afetado tinha 6.000 m². Duas pessoas morreram, e dezenas de famílias ficaram desabrigadas.

"Não há nexo entre os dois incêndios, a não ser que foram provocados por usuários de droga", afirmou o delegado Casseb. Segundo ele, uma mulher que também é usuária de drogas é procurada por ter sido responsável pela ocorrência de dezembro.

A área onde está a favela do Moinho vem sendo alvo de disputas judiciais entre a prefeitura e os moradores nos últimos anos. Enquanto a administração municipal tenta desapropriar a área e utilizá-la para outros fins, os moradores buscam conquistar o direito de permanecer no local.

Outros casos

No dia 3 de setembro, um incêndio de grandes proporções atingiu a favela morro do Piolho, na zona sul da capital paulista, deixando 285 famílias desabrigadas --o equivalente a cerca de 1.140 pessoas, segundo informações da Defesa Civil.

Quatro dias depois, o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, declarou que o fogo pode ter sido intencional. "Lá existe até a suspeita de que o incêndio possa ter sido provocado, como, aliás, foi identificado em outros casos", disse.

Por sua vez, o Ministério Público de São Paulo investiga se a série de incêndios ocorridos desde janeiro deste ano em favelas da capital paulista tem relação com o interesse do setor privado ou do setor público em construir nas áreas de entorno dessas comunidades. (Com informações da Agência Estado)

Fonte: uol.com.br