Publicado em 13/10/2015 as 12:00am

No Brasil, imigrantes negros são tidos como um estorvo necessário

Os poucos estudos antigos e os novos parecem não concordar em como utilizar números ou classificações, nem sobre quais amostras serão dadas como certas.

Como normalmente ocorre, as estatísticas e as categorias que tratam de refugiados e imigrantes no mundo não estão coincidindo. Os poucos estudos antigos e os novos parecem não concordar em como utilizar números ou classificações, nem sobre quais amostras serão dadas como certas.

Uso aqui as categorias com as quais concordo e os dados oferecidos pelas Nações Unidas durante o primeiro recorte de 2015. Contudo, vale explicitar que as cifras são alarmantes.

Segundo esses dados, em dez anos, quase duplicou a quantidade de migrantes e refugiados no mundo. De 37,5 milhões, em 2005, para mais de 60 milhões, em setembro de 2015.

Não deveria nos alarmar o número de migrantes, mas sabemos que muitos desses movimentos não são espontâneos. Muitas pessoas migram não para viverem em paisagens mais agradáveis aos olhos ou pela procura de um clima mais benigno, mas sim, por exemplo, por agressivas politicas governamentais, discriminações, ou pela impossibilidade de obter recursos necessários para o sustento pessoal e familiar.

Atualmente, ainda, mais de 2 milhões de pessoas já solicitaram refúgio e estão aguardando desesperadamente por uma resposta que permita recomeçar suas vidas.

Temos ossos, carnes e neurônios, somos sentimentos e pensamentos. Não somos cifras. Somos a terrível realidade de um mundo em trânsito que está se redistribuindo e nós parecemos ser algumas, só algumas, das vítimas dos poderes. Só que a xenofobia tem cor. Nessa nova repartição das esferas de influência do mundo atual, a população negra continua a ter a pior parte.

 

Entre as já mencionadas milhões de pessoas, quantas classificamos étnica e racialmente como negras? E quantas delas são africanas negras ou afrodescendentes? Essas questões, que para alguns são irrelevantes, são, bem pelo contrário, fundamentais. A xenofobia está transpassada por eixos essenciais, como a "raça" e a cultura. Além de ter outros eixos transversais, como sexo e gênero.

Olhamos pela mídia para a Europa e deste lado do mundo nos apavoramos com o que acontece lá com os refugiados. Vemos o mais recente drama dos sírios, e dói. Nos arrepiamos ao falar do secular êxodo judeu ou, mais perto da contemporaneidade, sobre o holocausto desse povo.

Cadê a nossa dor e a nossa preocupação pelos imigrantes e pelos refugiados africanos negros e afrodescendentes?

Por mais que a Síria seja o país com mais refugiados nos últimos anos –3,8 milhões até o final de 2014, segundo o Acnur (Agência da ONU para Refugiados)–, a Somália é o terceiro com maior número –1,1 milhão, no mesmo período. Porém, da Somália, assolada por guerras por bem mais tempo e com todo o drama humanitário, pouco se fala. Cadê os refugiados somalis?

É essa a dura e real resposta: os refugiados somalis ficam invisíveis. Essas pessoas negras pouco despertam a compaixão e a vontade de acolhimento. Essa é a inacreditável, forte, cruel, mas cotidiana realidade.

Falo disso com alto risco de ser acusada de "extremista" e "vitimista" pelas pessoas que, como já sei, não querem escutar essa realidade. Não ouvir e se negar a olhar são formas confortáveis de evitar se posicionar e fazer algo para mudar a realidade.

As guerras impostas ou estimuladas pelo Ocidente metropolitano na África são realidades que vêm de longo tempo. O enorme e cruel deslocamento forçado da população africana, que foi selvagemente escravizada, afastada para sempre de suas famílias e atiradas a estranhas terras, ainda não tem a mesma força sensibilizadora nos imaginários coletivos.

Semelhante barbárie tem sido vista por alguns, ainda hoje, como "um passo necessário no processo civilizatório e de desenvolvimento econômico na história da humanidade".

Essa não é uma mentalidade do passado. Ela está lamentavelmente atualizada e nos mostra que as dicotomias ainda sustentam os imaginários que, ou são preconceituosos, ou supostamente abertos e liberais. É com base nesses imaginários que se estabelecem, até o presente momento, relações de poder e que se elaboram políticas públicas. Eles são o substrato da elaboração das ações chamadas "humanitárias".

Por isso, é mais relevante dar visibilidade à situação dos refugiados negros, africanos e afrodescendentes. A sensibilidade ou a dor tem cor? Não, mas têm cor as maneiras com que somos forçados a nos posicionar espacialmente e até muitas vezes politicamente.

Situação no Brasil e na Argentina

No continente sul-americano, continua-se pensando em termos de uma falsa e ambicionada brancura. A Argentina e o Brasil, por exemplo, continuam se rejeitando a inserir socialmente a população imigrante e refugiada negra. Em ambos os países, somos tidos como um estorvo quase necessário. É a oportunidade de aparecer na mídia e de se apresentar frente aos órgãos internacionais como receptores de refugiados e como facilitadores de políticas públicas de direitos humanos. Mas é essa a realidade?

Para além desses posicionamentos internacionais cenográficos, há práticas de contínuas violações aos direitos humanos de pessoas que já são vulneráveis em seus países de origem.

Nos dois países citados, as dificuldades em nos estabelecer, legalizar documentos, ter acesso a trabalhos dignos, qualificados e bem remunerados, lutar diariamente contra a xenofobia, o racismo, o etnicismo e o desrespeito e ter acesso a serviços de saúde com respeito à integridade humana são questões que temos de carregar em nossas esquálidas bagagens.

Há a necessidade vital de aumentar nossa visibilidade e também a de não permitir que sejamos criminalizados.

Essas são as razões pelas quais, na Argentina e no Brasil, a população negra, imigrante e refugiada iniciou a difícil caminhada para lutar para que sejam garantidos os direitos humanos que já estão nos conteúdos dos documentos internacionais assinados pelos governos.

A nossa organização e caminhada significam lutar pela formulação de políticas públicas nas quais nós –imigrantes, refugiados e pessoas forçosamente deslocadas– sejamos inclusos.  É esse, no atual momento, nosso propósito.

Fonte: uol.com.br

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