Publicado em 18/11/2016 as 8:00am

Jornalista brasileira do NYT é ofendida por conversar ao telefone em espanhol nos EUA

Única repórter brasileira do jornal, Fernanda Santos é correspondente-chefe no Arizona, estado de maioria republicana

A jornalista brasileira Fernanda Santos mora há quatro anos em Phoenix, capital e cidade mais populosa do estado americano do Arizona. O lugar tem fama de conservador e hostil a imigrantes. Mas Fernanda nunca teve problemas. "Não é uma verdade absoluta." Ali, ela trabalha como correspondente-chefe para o jornal The New York Times, um dos mais prestigiados do mundo. Fernanda é a primeira e a única jornalista brasileira na publicação. 

Na quinta-feira (10), no entanto, passou por um episódio, no mínimo, difícil. Quando falava ao telefone em espanhol, foi ofendida. Ela tinha acabado de sair de uma reunião de trabalho quando parou em uma cafeteria. Antes de voltar para seu carro, ela ligou para a babá de sua filha, uma imigrante mexicana e hoje cidadã americana. "Ela fala inglês, como eu falo. Mas quando você é imigrante e mora em um país estrangeiro, o seu idioma adquire uma importância diferente", disse. "Do mesmo jeito que amo conversar em português com a minha filha, eu me identifico muito com espanhol e falo em todas as oportunidades que tenho."

Sentado em uma mesa próxima a ela, havia um homem a observando com um olhar estranho. Ela continuou conversando, mas quando virou novamente ele ainda a olhava. "Parecia muito zangado." Ele se levantou e disparou para a jornalista: "Speak English!" (fale inglês!).

Chocada, Fernanda só conseguiu responder que falava quatro idiomas. "Fuck off" (vai ser f...), disse o americano, antes de ir embora. "Nunca tinha sentido como se eu não fosse bem-vinda. Hoje eu senti", escreveu Fernanda no Twitter. A história recebeu milhares de retuítes. 

"Não é a primeira vez que uma minoria é maltrada. A diferença é que, por ser repórter, tenho uma plataforma. O meu objetivo em escrever [no Twitter] não foi ridicularizar aquela pessoa. Foi apenas ressaltar que é algo que pode acontecer com qualquer um", disse Fernanda. "Em qualquer lugar, há pessoas cuja ignorância não permite que vejam o valor do diferente. No Brasil, eu sou mais uma brasileira. Aqui, sou diferente."

Segundo a jornalista, um nome do calibre de Donald Trump, recém-eleito presidente dos EUA, adotando um discurso contra minorias dá uma espécie de "licença" para que pessoas que antes só pensavam de tal maneira se expressem, de fato, nesse sentido. "Se ele pode falar, por que eu não posso?" Mas ela não generaliza: "Achar que todo mundo que votou no Donald Trump é racista é errado. Acredito que pessoas racistas possam ter votado na Hillary Clinton também. Não é uma questão partidária, é uma questão básica de intolerância".

Ela reforça a importância de imigrantes em toda a parte do mundo não se sentirem intimidados ao falar a própria língua por causa de comportamentos assim. "Uma das coisas mais poderosas que o imigrante tem — o seu poder especial — é sua capacidade de falar outro idioma."

Fonte: Época