Publicado em 1/10/2001 as 12:00am

Brasileiro luta para conseguir um coração em MA

O Boston Globo publicou ontem, em seu caderno principal, a história desse valente brasileiro que aguarda um transplante de coração no Massachusetts General Hospital

 

Um valente brasileiro aguarda um transplante de coração no Massachusetts General Hospital.

 

Quando a repórter do jornal Boston Globe, destacada para cobrir a matéria, chegou a seu quarto, Marcelo Alves quase não podia respirar. Seus pés estavam inchados e pontilhados com marcas roxas.

 

Marcelo, de 34 anos e pai de dois filhos, sofre de cardiomiopatia, um enfraquecimento do coração, que está aos poucos minando o resto de seu corpo. Sua família tem tentado arrecadar dinheiro para pagar por um transplante, temendo que ele possa morrer. Mas ele ainda enfrenta um obstáculo adicional na corrida para ser salvo: o de ser um imigrante ilegal. Esse fato tem colocado seu caso em confusão e o tempo vai passando.

 

Em 2008, o médico de Marcelo no Beth Israel Deaconess Medical Center considerou seu transplante "impossível", porque ele mora aqui ilegalmente, de acordo com seu prontuário médico.

 

Status imigratório não deve impedir imigrantes ilegais de receberem órgãos

 

No Massachusetts General Hospital, ele afirmou à repórter do jornal Boston Globe que o seu status de imigração tem prejudicado suas chances de conseguir um novo coração.

 

Mas as autoridades dizem que é legal para os imigrantes indocumentados receberem doações de órgãos. Existe um fundo de saúde do estado, destinado aos pobres, que poderia ajudar a cobrir o procedimento e os custos dos remédios, se Marcelo atendesse aos requisitos de elegibilidade.

 

Ele comentou que não sabia que poderia obter legalmente um transplante até o verão passado, quando soube do fundo e ainda não está na lista de espera para o transplante. Sua família teme que ele possa morrer antes que as questões burocráticas sejam resolvidas.

 

"A doença do Marcelo não é seu coração, ele é doente por ser ilegal", disse sua mulher numa entrevista, "Caso contrário, ele não estaria aqui, esperando a morte". Ela pediu para não ser identificada, porque também está no país ilegalmente e a identidade de seu marido já foi divulgada na Internet.

 

Em meio a debates nacionais acalorados sobre a imigração ilegal e o alto custo dos cuidados de saúde, talvez seja razoável assumir que os imigrantes ilegais - que não podem obter carteiras de motorista na maioria dos estados, incluindo Massachusetts - sejam inelegíveis para receber um coração, especialmente quando mais de 2.700 cidadãos americanos estão na lista de espera.

 

"Mas as políticas federais não barram os imigrantes ilegais de receberem órgãos, embora os hospitais que fazem transplantes possam definir suas próprias regras", disse Joel Newman, porta-voz da United Network for Organ Sharing, da Virgínia, uma organização que gerencia alocações de órgãos em âmbito nacional.

 

"Além disso", Newman disse, "os imigrantes ilegais podem doar órgãos para a rede, pois nós aceitamos órgãos de doadores não-residentes, isso quer dizer que poderia ser uma hipocrisia em aceitar apenas cidadãos como candidatos", disse ele. Mais de 90% de receptores de órgãos são cidadãos americanos.

 

Marcelo Alves descartou voltar ao Brasil para tentar um transplante, porque temia que os cuidados médicos seriam péssimos e seus parentes não poderiam cuidar dele. "Este aqui é um país de primeiro mundo", disse ele. "O Brasil é um país do Terceiro Mundo".

 

Marcelo disse que as suas contas médicas têm sido pagas pelo Mass Health, um programa estadual que presta assistência médica de emergência a estrangeiros de baixa renda, incluindo estudantes e imigrantes ilegais.

 

"Embora esse programa não cubra os transplantes, um outro fundo estadual, o Health Safety Net, pode reembolsar o hospital pelo menos em parte, do custo da cirurgia, bem como para a compra de medicamentos para sustentar o transplante", disse Jennifer Kritz, porta-voz do Escritório Executivo de Saúde e Serviços Humanos. Para se qualificar, Mr. Alves teria de cumprir os requisitos de renda, provar que vive em Massachusetts, e que não tem seguro suficiente.

 

 

Grupos que favorecem os controles mais rigorosos sobre a imigração se opõem à prestação de cuidados de saúde,  caros para os imigrantes ilegais, dizendo que isso está tirando os recursos que poderiam ser usados para prolongar a vida dos cidadãos americanos e imigrantes legais.

 

"A noção de que poderíamos usar esses escassos dólares dos seguro, que são necessários aqui no estado, para ajudar um imigrante ilegal é simplesmente ultrajante'', disse Steve Kropper, vice-diretor do Massachusetts Citizens for Immigration Reform. "Isso já está indo além do razoável. Não posso acreditar que alguém pudesse sequer considerar dinheiro público ou doações para uma causa como essa".

 

Mas a família de Marcelo Alves e simpatizantes da causa imigratória dizem que não podem imaginar deixar um pai morrer assim dessa maneira. Sua filha escreveu num trabalho da escola que chora e reza diariamente para seu pai melhorar.

 

 

Marcelo, que vive num subúrbio de Boston, disse que seu status de imigração tem sido um tema constante desde que a sua saúde começou a deteriorar.

 

Ele foi diagnosticado em 2002, dois anos depois que chegou a Massachusetts e trabalhava lavando pratos em um restaurante. Após se sentir fatigado e percebendo os inchaços nas pernas, ficou sabendo que tinha miocardiopatia.

 

Tratado com medicamentos, principalmente no Beth Israel Hospital, sua saúde piorou nos últimos anos, de acordo com a esposa e os prontuários médicos fornecidos pela família. Ele sofreu um acidente vascular cerebral, teve marcapasso instalado duas vezes, sofreu uma queda que causou sangramento no cérebro e ainda ficou em coma por duas semanas.

 

No verão passado, sua família estava desesperada. Marcelo considerou retornar ao Brasil, apenas para poupar sua família do alto custo do envio do corpo para o enterro. Porém, o Beth Israel o referiu ao Latino Health Insurance Program, uma organização sem fins lucrativos da Universidade de Boston, que ajuda imigrantes a obter o seguro de saúde, disse sua diretora, Milagros Abreu.

 

Milagros achou, com base em conversas com os hospitais, que Alves teria que ter um seguro privado para cobrir o transplante, o que desencadeou o esforço de angariação de fundos na comunidade brasileira.

 

Ele e sua esposa reuniram-se com um médico do Centro Médico Tufts no outono passado sobre um possível transplante. O casal disse que o médico também os desencorajou, citando o seu status de imigração e a falta de seguro.

 

"Queremos o melhor para este paciente, mas não fomos capazes de determinar se ele era ou não um candidato adequado para o transplante, já que não voltou para completar a sua avaliação" disse o hospital Tufts em um comunicado.

 

 

 

Marcelo Alves foi admitido no Massachusetts General Hospital, onde os médicos estão avaliando se preenche os critérios médicos para um transplante, o que inclui ter alguém para cuidar dele após a operação.

 

"Se conseguirmos encontrar uma maneira de fazê-lo, vamos fazê-lo independentemente do seu estatuto de imigração", disse Joren Madsen, diretor do centro de transplante do hospital.

 

E na quarta-feira passada, ele teve uma melhora considerável. O inchaço em seu abdômen tinha diminuido, falava frases completas e recebeu uma nova esperança para o transplante. Sua mulher disse que não culpa os hospitais pela confusão, mas espera que seu marido possa logo receber um novo coração.

Fonte: (Tradução - Phydias Barbosa)