Publicado em 10/04/2008 as 12:00am

Um acreano, carioca de coração, vira americano!

Assim começa a história de uma criança que nasceu em um seringal de Tarauacá, no Acre

Assim começa a história de uma criança que nasceu em um seringal de Tarauacá, no Acre: filho de Zilda Rodrigues de Sena e pai desconhecido foi batizado com o nome de Francisco Rodrigues de Sena, mas como a sua mãe namorou um cara que o registrou como filho, ele passou a assinar o sobrenome "Da Silva".

Quando me dei por gente estava na cidade de Manaus. Minha mãe de origem humilde, era empregada doméstica e analfabeta, porém, era exigente na educação de seu filho. Conclusão: eu tive que estudar de qualquer maneira!

Iniciei minha alfabetização no grupo escolar Nilo Peçanha localizado na rua Joaquim Nabuco que ficava bem próximo da casa em que morava. Ela ia trabalhar pela manhã bem cedo e só voltava a noite. Ela era cozinheira de uma família portuguesa.

Ao meio dia eu saia do grupo e não sabia o que fazer sem minha mãe e sem ninguém em casa. Morávamos numa "cabeça de porco" com vários quartos separados por uma meia parede. Era terrível!

Mesmo sabendo da minha situação, os vizinhos não permitiam que eu almoçasse na casa deles. De vez em quando me davam algo para comer (na maioria das vezes um caldo do arroz bem grosso). Essa era a minha alimentação? Quando estava com muita fome, pedia pão nas padarias vizinhas, mas nem sempre era atendido. Percorria outros lugares procurando pão ou bolacha no chão para comer.

Foi uma infância triste, tanto é que quase não me lembro de nada.

Uma das fases mais importantes foi quando a irmã da minha mãe, tia Jandira, casada com um turco que era comerciante, vendo a minha situação me deu uma lata de 1 quilo de manteiga recheada de comida. Ela fez isso escondida do marido e quando ele descobriu deu umas porradas na minha querida e saudosa tia.

Na parte da tarde eu era um garoto de rua perambulando pelas ruas de Manaus e empinava papagaio para os mais velhos. Assim foi a minha infância, sem pai e sem mãe (presente), sem nunca ganhar um brinquedo.

Fui crescendo e sempre estudando. Minha mãe se preocupava tanto com a minha educação que até professor de inglês particular ela pagou para mim. Quando ela viu que não podia tomar conta do filho, me mandou para casa de uma madrinha no bairro de S. Raimundo. Eram pessoas pobres, mas era uma família unida. A partir daí comecei a estudar em outro grupo escolar e nas horas vagas vendia pastéis e empadas nas ruas para ajudar a minha madrinha.

Todos os domingos minha mãe ia me visitar e sempre levava alguma coisa para ajudar na alimentação. Quando ela ia embora era um sufoco, o meu coração partia! A casa ficava em um lugar privilegiado, onde se via as catraias (pequenas canoas com toldo de lona de 4 lugares). Era um lugar bonito, mas que eu chorava e sofria muito por viver longe da minha mãe.

Quanto ao meu pai, quando eu perguntava por ele, ela sempre arranjava uma desculpa e não soltava nada. Foi assim até a sua morte. Ainda hoje não consegui descobrir quem foi meu pai, nem mesmo o seu nome eu consegui saber. Não é que eu sinta algum trauma, mas gostaria de saber quem foi o meu pai. Por ser lourinho e ter olhos azuis, na época dos filmes de Tarzan (eu era a cópia fiel do Boy) me apelidaram de "Boy", apelido que até hoje sou conhecido na cidade de Manaus.

Já na adolescência, andando sempre "limpinho" (Dona Zilda não abria mão disso), fui me enturmando com os rapazes da Calábria (reduto dos sírios abastados). Eles eram comerciantes da região do mercado municipal aonde os caboclos do interior vinham fazer compras. Com a facilidade que Deus me deu em fazer novas amizades passei a sair com eles mesmo contrariando a minha mãe, pois ela reprovava por eu ser de uma outra condição social. Porém, a turma gostava de mim e quase todas as noites alguém me pegava de carro para sair.

Aprendi a me comportar, a comer, a beber e a conviver com aquele mundo totalmente diferente do meu. Quando meus amigos voltavam das férias do Rio, USA ou Europa, nos reuníamos para ouvir as histórias das viagens. Várias vezes pensei: "Manaus está ficando pequeno para mim... Tenho que ir embora. Aqui não tenho futuro algum."

Certa noite, pela madrugada, estava saindo escondido de casa para o aeroporto de Ponta Pelada. Minha mãe despertou e foi aquela cena: ela chorando e eu decidido a ir embora.

Cheguei no aeroporto às 3 da matina. Sabia que saia um avião da aeronáutica para o Rio de Janeiro, mas que só podia viajar militares ou os familiares deles. Mesmo assim fiz a cabeça do piloto e viajei! Na escala em Belém um "sargentão" não deixou eu seguir viagem...

Só de pensar que isso aconteceu em 1952...

Não adiantou os meus argumentos, tive que ficar. Aluguei um quartinho numa pensão barata e fui procurar trabalho. Depois de 2 meses fui admitido na empresa F. Moacir Pereia (distribuidor de produtos farmacêuticos) como propagandista médico.

Depois de um curso intensivo passei a visitar os médicos nos hospitais e consultórios. Tudo bem, estava ganhando meu salário e fazendo boas amizades. Depois de 1 ano tirei férias e voltei a Manaus em um avião de carreira, tirando a maior onda com os colegas.

Era jovem, com 21 anos, e ainda pensava na Cidade Maravilhosa...

Precisando de mais $$$$$$ procurei um novo trabalho. Vi um anúncio da Cia. de cigarros Souza Cruz para chefe de Armazém, e mesmo achando que era muito novo apliquei para o cargo. Para a minha surpresa fui chamado. Não foi fácil pensar que eu teria que ver centenas de milhares de cigarros, estocar pacotes e maços diariamente... Não quis saber deste trabalho e com as minhas economias me mandei para Fortaleza. Não consegui nada.

Peguei um ônibus e me mandei para São Paulo (me disseram que no Rio só tinha malandros). Quando cheguei na capital paulista foi uma loucura... Um menino de Manaus em pleno centro de Sampa! Bem, também não consegui nada... Quando a grana estava quase no final, peguei um ônibus para o Rio e fui morar num quarto na rua Machado de Assis, no Largo do Machado.

Pegava o bonde que me deixava no centro da cidade para procurar emprego e às vezes ia andando para economizar a grana curta. Quando já estava desistindo, lembrei que em Belém do Pará eu era funcionário do Instituto Vital Brazil, laboratório de produtos farmacêuticos, e fui readmitido no ato.

No dia 30 de Março de 58 fui fazer uma entrevista para vendedor do Rei Da Voz, empresa de vendas de produtos eletrônicos da família Medina. (Sempre tive espirito de vendedor, graças à Deus, pois acho uma das profissões mais espetaculares do mundo). Quem me atendeu foi o gerente da loja Sr. Alfredo Correia Lima. Depois de uma prova escrita ele me disse: Se você responder à minha pergunta estará admitido!

Ele ? Ganhei um filhote de elefante e coloquei no meu banheiro. Ele foi crescendo e não conseguia tirar o bicho mais de lá. O que você faria para tirar o elefante do banheiro?

Eu chamei os "meus santos protetores" e mandei: Bem, como não sou de circo, iria procurar um domador e pagava para que ele tirasse o bicho.

À queima-roupa o sr. Alfredo disse: Pode começar a trabalhar amanhã!

Tomei um susto, não só pela minha resposta que o satisfez mas também porque o dia seguinte era primeiro de abril!!! Mesmo assim vibrei de tanta felicidade.

A minha vida mudou. Em 1960 passei de auxiliar a gerência. Em 62 passei de gerente (passando por cima do chefe de vendas) a gerente da Matriz, aonde ficava a diretoria da empresa. Sr. Medina, um homem impressionante pela sua dinâmica e conhecedor profundo de vendas, ensinava a todos a melhor técnica. Ele era um verdadeiro MESTRE.

Confesso que eu mesmo fiquei surpreso com a minha ascensão. Eu tinha um objetivo: mostrar aos meus parentes e amigos de Manaus que eu era um VENCEDOR!!! Em 64 passei a supervisor de lojas, tínhamos 10 filiais, e em 66 passei a diretor secretário. Era a glória ser funcionário do Rei da Voz, era a mesma coisa que ser funcionário do Banco do Brasil.

Depois me casei e tive dois filhos maravilhosos, Ricardo e Carla.



Em 68 fiz um curso de corretor de imóveis e fui para a profissão de autônomo. Como corretor ganhei mais dinheiro, sempre vendendo bem, e sempre com uma predestinação: era convidado para assumir uma gerência. Fui gerente de grandes imobiliárias no Rio de Janeiro, coisa que sempre me honrou.

Divorciado em 73, trabalhava pensando em vir para os USA...

Eu tinha uma vantagem, o Phidyas Barbosa, meu cunhado na época, já vivia em Miami. Ele dizia que me daria muito bem trabalhando na Flórida como vendedor. Eu tinha comprado uma passagem válida por 1 ano para Miami e quando estava quase vencendo decidi viajar nem que fosse para conhecer o aeroporto. Na primeira semana de Miami, o meu cunhado que tinha um "jornalzinho", me convidou para vender anúncios. Isso foi em maio de 92. Comecei a vender e foi um sucesso para a alegria do Phidyas e minha também. Ele me pagava a comissão na hora. Nunca tinha visto tanto dinheiro!

Depois conheci o Carlos Borges, dono da revista Plus Magazine, e passei a vender para ele. Ganhei mais dinheiro ainda! Aprendi tudo de mídia com o Carlos. Depois fui para a BTN e posteriormente conheci o Ary Rogério (sobrinho do Maurício de Sousa). Passamos a fazer um programa de TV, o FLORIDA DIRETO, com o Paulinho Leite e eu como assistente e vendedor exclusivo. Este programa passava no Brasil aos sábados pela CNT sob a supervisão do Manoel Diegues. Era um sucesso! Em 97 já estava com o meu "Green Card" na mão. Também passei pelo jornal Florida Review como vendedor onde fiz grandes amizades.

Tudo era festa! Até que em 96 perdi uma filha no Rio, minha querida Carla...

Aos 33 anos ela foi operada de um tumor na cabeça e não voltou mais. A minha vida se transformou, fiquei partido ao meio.

Já casado com a Maria Rejane, gaúcha de Porto Alegre que chegou aqui em 93, iniciei uma nova vida. A felicidade era total.

Em 97 iniciei minhas atividades na Confiança Mudanças. Fui responsável pelo marketing da empresa por algum tempo, sempre trabalhando como vendedor e relações públicas. Após a inclusão da Brasil Courier (envio de caixas) para o Brasil, até o presente momento sou funcionário da empresa visitando todos os agentes espalhados por todos os USA.

Casado, divorciado em 2004, continuou solteiro até a data de hoje. Rejane minha esposa e amiga teve um fim prematuro. No dia 15 de julho de 2006, aos 48 anos de idade, foi acometida de um câncer terrível que tomou conta de quatro órgãos vitais vindo a falecer americana, jurando bandeira em cadeira de rodas.

Antes de partir, ela me fez prometer que aplicaria para a cidadania americana. No dia 18 de março de 2008 fui chamado pela imigração para a entrevista. Felizmente fui aprovado em 100%.



Já sou cidadão americano!

Quero dividir com a minha família e todos os meus amigos dos USA essa grande vitória na minha vida. Conclusão: um garoto que nasceu no Acre sem nenhuma perspectiva de vida, foi aceito como cidadão americano nos USA!!!
Bandeiras do Acre e dos EUA

Eu continuo trabalhando e cultivando novas amizades e tentando manter as antigas. Para os meus queridos um abraço e para as minhas queridas um beijo.

Fonte: brtvonline.com/blog