Publicado em 6/05/2008 as 12:00am

Tropa de Elite nos EUA

Após o sucesso no Brasil e excelente review realizado pela mídia norte-americana, o diretor de Tropa de Elite, José Padilha, falou em entrevista ao jornal Brazilian Times

 

Tropa de Elite

nos EUA

 

 

Após o sucesso no Brasil e  excelente review realizado pela mídia norte-americana, o diretor de Tropa de Elite, José Padilha, falou em entrevista ao jornal Brazilian Times

 

Por Elizabeth M. Simões

 

Uma fila gigantesca formou-se no salão de recepção da "Harvard Film Archive", em Cambridge-Massachusetts, dezenas de pessoas ficaram do lado de fora, após esgotarem todos os ingressos para o filme Tropa de Elite. O diretor José Padilha, esteve na exibição do filme, na segunda-feira (05), e participou de um debate com os expectadores.

Intrigado com as observações feitas durante a gravação do documentário "Ônibus 174", que conta a história real da morte de um refém durante o sequestro do ônibus da linha 174, na Gávea, Padilha inspirou-se na realização de um longa metragem que abordasse o tema da violência com mais profundidade. "O senso comum diz que a violência nasce da miséria e isso está errado, existem cidades com população mais miserável do que o RJ e no entando o número de assassinatos não é proporcional ao fenômeno que acontece lá. Então o quê faz a violência ser tão alta no Rio? Essa foi a questão básica que deu início à gravação de Tropa de Elite", disse Padilha aos expectadores.

O roteiro do filme, vencedor do prêmio Urso de Ouro no Festival de Berlim, trata-se da história de um capitão das Forças de Operações Policiais Especiais (BOPE), que procura um substituto para o seu cargo. Durante a busca, dois personagens viram peças centrais para retratar as falhas cometidas pelo Governo Estadual e das instituições que estão envolvidas no outro lado da "guerra" contra o tráfico de drogas.

O diretor entrevistou dezenas de policiais militares e concluiu que a explicação para o crescimento da violência no RJ é muito complexa, "O filme mostra sob quais circustâncias esses polícias escolhem tornarem-se corruptos ou repressores violentos. Baixo salários de apenas 500 reais, parceiros subornados, péssimas condições de trabalho, entre outras coisas que terminam dando as coordenadas do jogo."

Os expectadores estavam tão interessados no diretor, que muitas mãos levantaram-se ao mesmo tempo querendo interrogá-lo sobre o processo de criação. Padilha respondeu as incansáveis perguntas e numa delas esclareceu, "Meu filme não é sobre causas morais, eu deixo o julgamento para a audiência. Fiz apenas uma representação das perspectivas vividas pelos policiais que entrevistei, para entender como o indivíduo reage às regras implícitas da sociedade. Se não for possível compreender tudo o que acontece por de trás da violência no RJ, tente ao menos, aprender algo sobre você mesmo." , Padilha referiu-se sobre como as circunstâncias do lugar estimulam  a mudança de comportamento e também relembrou a cena em que "playboys", usuários de droga, contribuíram com o financiamento das drogas.  

Na platéia estava o ex-militar Ricardo dos Santos, que deu a sua opinião, "O filme foi um tapa na cara! Tanto para os policiais quanto para os agentes do tráfico. Mostrou que a realidade não é apontar quem está certo ou errado. Ele tira a roupa da hipocresia e abre espaço para discutir aquilo que está muito além do simples combate entre os dois lados. Todos nós estamos inseridos no problema.", disse Ricardo.

Márcio Siewy, membro do núcleo brasileiro da associação Rockfeller Center disse estar impressionado com o longa metragem, "Nós nos sentimos honrados por termos um diretor brasileiro de tamanha criatividade e conhecimento". A estudante norte-americana Katie Pelns também acrescentou, "Foi impressionante! O filme brincou com as minhas emoções, em momentos eu estava chocada, logo depois, sentia vontade de rir com certas situações banais, mais engraçadas. A trilha sonora das cenas de ação também  foram muito estimulantes.", disse Katie, que até arriscou cantar o refrão da música regravada pela banda Tihuana.   

 

 

O sucesso no Brasil

 

José Padilha inverteu os papéis e também fez a sua crítica à imprensa brasileira. Ele comentou a maneira como os meios de comunicação vêem a produção cinematográfica nacional

 

Falando da repercussão do filme no Brasil, o diretor considerou que a imprensa e muitos críticos de cinema não valorizam a produção brasileira, "Isso é o complexo de vira lata, citado por Nelson Rodrigues. Para alguém fazer sucesso no Brasil, antes precisa ser reconhecido lá fora, só desse jeito eles mudam o discurso. Como por exemplo, no filme Cidade de Deus, em que a princípio foi acusado de incentivar a violência. Mas, depois dos elogios estrangeiros, as opiniões mudaram para aquilo que ele realmente representava", desabafou Padilha.

Embora Tropa de Elite tenha sido o filme mais visto pelos brasileiros em 2007, com cerca de 2,1 milhões de expectadores, segundo o diretor,  "a pirataria atrapalhou a bilheteria nos cinamas", e continuou, "O Ibope divulgou que 15 milhões de brasileiros assistiram às cópias piratas. Acho que Tropa de Elite poderia ter levado mais pessoas ao cinema, se não houvessem as reproduções desses CD's ílegais.", disse Padilha.    

Quando o assunto ainda é a visibilidade dos brasileiros, Padilha falou sobre a fraca participação dos brasileiros imigrantes naquela noite e respondeu, "Quase não vi brasileiros na sala, a maioria eram norte-americanos", antes da entrevista ele já havia confirmado que sabia da chegada da pirataria aos EUA também, "Você já assistiu uma cópia pirata. Não é verdade?", brincou o diretor.

Cercado de perguntas da tietagem norte-americana, Padilha mais uma vez mostrou o seu senso de humor, "Só mais duas perguntas, se não você vai parar no saco", referindo-se ao saco plástico usado pelo BOPE para torturar vítimas. Todos riram.

 

 

 

"Osso duro de roer"

 

Confira a equipe que fez parte da criação do filme Tropa de Elite e saiba quais são os responsáveis pelo sucesso dele

 

 

Direção: José Padilha

Roteiro: José Padilha, Bráulio Mantovani e Rodrigo Pimental

Produção: José Padilha e Marcos Prado

Elenco: Wagner Moura, Caio Junqueira, André Ramiro, Fernanda Machado, Fernanda de Freitas, Milhem Cortaz, Mária Ribeiro, Emerson Gomes, Fábio Lago, Paulo

Viela

Fonte: braziliantimes