Publicado em 18/06/2008 as 12:00am

Brasileirinhos sofrem com ausência dos pais

Ocupados com o trabalho e sem tempo para educar os filhos, os pais perdem o controle sobre o rendimento escolar

Por Elizabeth M. Simões

(ANBT - Agência de Notícias Brazilian Times)

 

Devido ter duas das mais renomadas universidades do mundo, o estado de Massachusetts se tornou o berço da educação mundial. Nas cidades de Cambridge e Boston, uma verdadeira "Torre de Babel" se formam nas ruas. Isso porque alunos oriundos de países europeus, asiáticos, africanos e até mesmo do Brasil, buscam entrar na Harvard e MIT.

Mesmo assim, os filhos de brasileiros que vivem e estudam nas escolas estão apresentando um notas baixas e pouco interesse pelas disciplinas. Um estudo coordenado pela Directions for our Youth, revela que "os imigrantes somem a maior parte dos estudantes que abandono as escolas".

Depois que a direção da escola de ensino fundamental Winter Hill, localizada em Somerville, constatou o fraco desempenho escolar dos alunos imigrantes, foi realizada uma feira de artes e cultura.

Segundo os organizadores, o principal objetivo era motivar a cada a se sentirem mais conectados com a escola. Também foram convidados a família dos alunos para participarem, mas "infelizmente tivemos uma baixa presença dos pais", falou a coordenadora pedagógica Cláudia Galvez.

Nesta escola, cerca de 1/3 dos alunos são filhos de brasileiros e mesmo assim a particioção foi fraca, conforme aponta Cláudia. "Não tivemos nem 20 pais brasileiros", ressalta. Ela explica que esta ausência dos pais na formação escolar afeta de maneira considerável o desenvolvimento do aluno.

A Catarinense Regina Sass, uma das poucas mães presentes na feira, reconheceu a dificuldade de acompanhar e cobrar o desempenho de sua filha Luciana Magagnin, 14 anos. "A média dela varia muito. Às vezes ela alcança a nota máxima, mas na maior parte do tempo é muito oscilante.", disse Regina, que em seguida foi questionada sobre a sua satisfação em relação as notas. "Não estou muito contente, devo confessar! Gostaria de ver a minha filha aprendendo mais", acrescentou.

Ela precisou desmarcar muitos compromissos para comparecer à reunião, mas justificou o esforço. "Fiquei sem ganhar dinheiro, mas tive a oportunidade de dar mais atenção à minha filha. Esse é o melhor investimento da minha vida", concluiu Regina.

Cláudia enfatizou que a feira foi uma tentativa provocar auto-estima dos estudantes. "Tanto os pais quanto os estudantes não se envolvem ou não se sentem parte da escola. A feira foi planejada para mostrar a cultura dos países e enfatizar o senso de pertencimento. A feira foi a maneira que encontramos para tentar resgatar o orgulho mútuo.", disse Cláudia.

 

Distantes da Escola

Os alunos ensaiaram durante três semanas para a apresentação de dança programada para a feira, mas os pais não puderam comparecer. Na análise da psicóloga e especialista em saúde clínica, Sandra Ferreira, a ausência dos pais é frequente porque "muitas vezes eles vivem separados, um aqui e o outro no Brasil ou tem uma carga horária de trabalho extremamente alta. Em geral, isso acontece devido às ousadas metas traçadas com a chegada aos EUA: juntar dinheiro e acumular bens no Brasil. Esse não é o problema, contudo, colocar os seus objetivos financeiros e bens materiais acima da saúde, bem-estar e desenvolvimento de seus próprios filhos e da família não é uma opção saudável", disse Sandra.

A Coordenadora do Programa de Prevenção e Educação da ABCD Health Services Boston Family Planning, Silvia de La Sota, também alertou sobre as consequências da falta de relacionamento com as crianças, "os imigrantes estão num país cuja cultura difere das suas origens e os pais não compreendem as enormes diferenças de comportamento.

Eles desconhecem os riscos da falta de diálogo, por exemplo, estudos apontam que o aumento da natalidade infantil é um dos problemas da desinformação acerca de sua sexualidade e mínima comunicação com os pais.", explicou Silvia.

 

Mais do que uma questão de família

Heloisa Maria Galvão, coordenadora de campo das escolas públicas de Boston defende que a maioria dos pais imigrantes não falam o idioma inglês e precisam de apoio e intermédio da secretaria de educação para aproximarem-se das escolas, "a extinção do Programa Bilíngüe é o fator responsável por causar o declínio da escolarização da comunidade brasileira no estado.", disse Heloisa.

Segundo ela, "a culpa não é dos pais, mas sim do sistema", e explica "Depois da votação estadual ocorrida em 2002, o governo de Massachusetts encerrou o Programa Bilíngüe, cuja habilidade era estreitar a comunicação dos pais com a escola. "Sem acompanhamento adequado as crianças perderam interesse e tornam-se repetentes das séries. Restou:  nadar ou afundar! Essa é a realidade das crianças que ainda encontram motivação, sem poder contar com o suporte do estado."

Heloisa afirma que, "o número de alunos brasileiros matriculados no ensino fundamental caiu drasticamente no Estado. A lei de acessibilidade à educação, conquistada pela comunidade chinesa, na década de 70 e revogada em 2003, mantinha as famílias imigrantes em constante interatividade com a rede pública de ensino", disse Heloisa.

A coordenadora ainda enfatizou, "Eles tem a obrigação de promover o serviço bilíngüe e resgatar os programas de apoio estudantil. Precisamos agir contra a falta de proficiência cultural da qual estamos submetidos atualmente", disse Heloisa.

  

Sem Tempo!

Filho agora eu não posso lhe explicar, o papai esta ocupado (bisado*)!

Quando essa frase é repetida dezenas de vezes num semestre, o estudante da Midlle School poderá apresentar deficiência de aprendizagem, "sem a atenção, compreensão, respeito e o amor dos pais ou responsáveis, elas serão crianças problemáticas intelectual e emocionalmente", diz a psicóloga Sandra Ferreira. 

BUSY*

A expressão estou "Bisado", é um estrangeirismo criado pela comunidade brasileira imigrante. A palavra deriva do idioma inglês "busy", que significa ocupado.

Fonte: (ANBT - Agência de Notícias Brazilian Times)