Publicado em 14/09/2009 as 12:00am

Crise nos EUA leva brasileiro de 'mansão a porão'

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“Em dois anos, acabou tudo. Fui parar no porão do meu cunhado", conta.      Primeiro viu seu bar ir à falência, depois perdeu um de seus dois empregos e não conseguiu permanecer em dia com as prestações de sua casa, quando o valor subiu cerca de 30%, durante a chamada bolha imobiliária.

Mineiro de Itabira, Marlucio chegou aos Estados Unidos há 14 anos. Ele se mudou de Massachusetts para a Geórgia em 2001, com sua mulher e filha.

Pouco após chegar, resolveu comprar uma casa. Ele tinha dois empregos - um em um restaurante, outro em um supermercado - com os quais faturava algo na faixa de US$ 8 mil ou mais, quando fazia uma boa dose de horas extras.


A ex-vida mansa

Ele não teve problemas em dar a entrada de US$ 42 mil em sua casa e nem em pagar as prestações mensais de US$ 1.250 do financiamento de 30 anos, porque, além do bom salário, tinha uma vasta poupança e um bom histórico de crédito.

 “Por 12 anos, mantive um bom crédito. Chegava em qualquer banco americano e levava US$ 40 mil na hora. Meu crédito era ‘top’.” Munido de seu crédito, o brasileiro resolveu enveredar por novos empreendimentos.

Em 2006, Marlucio abriu um bar na região em que morava, que funcionava de segunda-feira a domingo. O local atraía muitos fregueses brasileiros com seus quitutes típicos e música ao vivo. “Abrimos em maio, logo depois teve a Copa do Mundo. Nesse ano, juntei muito dinheiro. No primeiro ano, cheguei a faturar US$ 8 mil numa noite. Até 1h da manhã tinha cliente no bar.”

 

Começo da crise

Mas logo a sorte começou a mudar. “No final de 2007, fiscais da imigração começaram a fazer blitzes nas imediações do bar. Como tinha muito frequentador que era brasileiro sem documentação, perdi a clientela.” Os lucros do bar começaram a cair e, com o aumento da prestação de sua casa, Marlucio começou a “enrolar, um mês atrasava o pagamento do bar, no outro, o aluguel da casa”.

O bar acabou quebrando no final de 2007. “Não aguentei pagar mais. Tive que abrir falência e provar junto ao banco que eu não tinha condições.”

A situação dele se agravou ainda mais quando o restaurante em que trabalhava meio expediente cortou empregados, no início de 2008.

Com a redução de seus rendimentos, ele passou a ter sérias dificuldades em arcar com os gastos de sua residência, que chegavam a US$ 4 mil mensais. “Acabei entregando a chave para o banco. Cheguei lá e avisei: estou me mudando, a chave está lá dentro. Pode ir buscar.”

 

Álcool e drogas

Junto com os transtornos financeiros, Marlucio também conta ter mergulhado em um inferno pessoal. “Na hora em que perdi tudo, caí na bebida e na droga. Não foi pouco, não. Foi de cocaína para cima.”

Ele conta que se não fosse o apoio da igreja e de sua mulher, talvez não tivesse conseguido superar os contratempos. Marlucio resolveu fazer as malas e se mudou provisoriamente para Boston, onde ficou hospedado por alguns meses no porão da casa de seu ex-cunhado, até que conseguisse resolver sua vida.


Finalmente, ele resolveu tentar a sorte em Hartford, no Estado de Connecticut. Com um índice de desemprego na faixa de 7,8%, o estado parecia bem mais promissor que a Geórgia, assolada por um índice de 10,3%. Lá ele arrumou um novo emprego de meio expediente, em um restaurante, após ter passado seis meses procurando. Ele agora acumula um trabalho de tempo integral, como inspetor de qualidade de produtos de um supermercado.

Juntamente com a mulher, que também tem dois empregos, ele aluga uma casa, que com dois quartos, sala e cozinha, é bem mais modesta que a “mansão” da Geórgia.

Fonte: (BBC.com / Tradução - Phydias Barbosa)