Publicado em 16/12/2009 as 12:00am

Brasileiro relata perseguição na fronteira

Assim como os milhões de imigrantes que vivem ilegalmente nos Estados Unidos, o brasileiro José Roberto Alvarenga, 34 anos, natural de Martinópolis-São Paulo, também passou por uma aventura perigosa para entrar neste país

 

Por Luciano Sodré

 

Assim como os milhões de imigrantes que vivem ilegalmente nos Estados Unidos, o brasileiro José Roberto Alvarenga, 34 anos, natural de Martinópolis-São Paulo, também passou por uma aventura perigosa para entrar neste país. Ele, que chegou há dois meses, e utilizou a fronteira mexicana, concordou em contar sua história desde que não fosse divulgada a sua foto.

Roberto explica que a sua vinda para os Estados Unidos foi motivada pelos amigos que já estavam morando no país e “não pelo dinheiro”. Segundo ele, as histórias de que tudo é mais fácil e que a qualidade de vida nas terras do Tio Sam é muito superior à vivida no Brasil, foram fatores preponderantes para sua decisão.

Ele explica que tentou o visto por duas vezes sem sucesso e que foi aí que um amigo lhe sugeriu a perigosa aventura. “Mas eu não sabia que era tão perigosa assim”, relembra.

Roberto, um ex-marceneiro, conta que saiu da capital paulista em direção à Guatemala e de lá pegou um ônibus para o México. “Até aí tudo bem, mas no meio do caminho fomos obrigados a descer sob orientações de duas pessoas que nos conduziam”, fala salientando que pensou já estar chegando ao seu destino. “Mas eles nos obrigaram a descer porque falaram que tinha uma forte fiscalização na fronteira com o México, na cidade de Chiapas”, continua.

Todos que estavam no ônibus com e que tinham como destino a travessia para os Estados Unidos desceram e “eu vi quando um dos coiotes deu um dinheiro para o motorista do ônibus”. Acredita-se que seja um pagamento habitual para que eles mantenham segredo sobre o esquema.

O grupo de 12 pessoas (brasileiros e peruanos) desceu do ônibus e seguiu uma caminhada de aproximadamente 13 horas sem parar. “O calor era intenso e havia pouca água. A única coisa que lembro era a pressão dos coiotes para que não diminuíssimos a marcha”, relata.

Roberto conta que depois de muito andar, eles chegaram à uma pequena vila onde pode pouco menos de 20 casas construídas em madeira velha e telha de tábua. “Era um cenário do estilo velho oeste”, continua. “O vento uivava e não se via pessoas pelas ruas. Pode ser que este ligar fosse um ponto já utilizado por eles”, fala ressaltando que não sabia onde estava. “Se os coiotes resolvessem nos abandonar naquele lugar  eu não saberia por onde começar a procurar o caminho de volta”, acrescenta.

Para Roberto, que já estava assustado com a situação, a aventura estava apenas começando, pois ele não sabia o que estava por vir, na fronteira mexicana. Depois de chagar à cidade, o brasileiro lembra que um dos coiotes se afastou do grupo e conversou com alguém utilizando um rádio. “Acredito que ele estava passando informações sobre onde estávamos”, fala. El;ES dormiram em um casebre no pequeno vilarejo e na manhã seguinte uma camionete de cor vermelha chegou ao local levantando poeria.

Neste momento, os dois coiotes acordaram a todos e em pouco tempo já estávamos na traseira do veículo. Por diversas vezes Roberto lembra que a alta velocidade deixava a camionete em duas rodas nas curvas. “Pensei que fôssemos morrer e quanto mais pedíamos para que a velocidade fosse reduzida, éramos reprimidos para que nos calássemos”, conta.

Roberto disse que o veículo só reduziu a velocidade quando avistou outro carro do estilo combi. Todos foram transferidos e a viagem seguiu novamente. O brasileiro lembra era de manhã quando entraram na camionete e quando foram mudados para o outro veículo já estava anoitecendo. “Passamos pelo menos umas 20 horas na viagem entre os dois carros”, explica.

Roberto disse que quando o grupo desceu da combi, ele acreditava estar já no México. Ninguém nos informava nada e eram sempre rudes conosco. Em uma das vezes que perguntamos quanto tempo faltava para terminar a viagem, um dos coiotes quase agrediu uma senhora de aproximadamente 40 anos de idade.

Seguindo sua história, o brasileiro lembra que depois de viajar com a Combi, chegaram a uma casa estilo sobrado, numa pequena cidade. Lá eles tomaram banho, receberam alimentação e descansaram até a manhã seguinte. “Eu não consegui dormir, pois ficava pensando o que eu tinha feito com a minha vida. Se eu morresse ali, seria enterrado como indigente, pois ninguém me conhecia e estávamos no meio do nada”, se emociona.

Na manhã seguinte, o grupo foi levado até uma casa que funcionava como estação rodoviária e posto de gasolina. “Ainda me lembro, tinha uma bomba na frente, um sol escaldante e a casa era construída em madeira com janelas com grades”, fala. Eles aguardaram por cerca de cinco horas até que surgiu um ônibus. Entraram e seguiram viagem.

Depois de algumas horas na estrada, eles chegaram à uma cidade e neste momento o brasileiro disse que se sentiu aliviado. Mal sabia ele que o perigo estava apenas começando. “Descemos do ônibus e fomos levados até uma casa onde uma van nos esperava. De lá seguimos para a fronteira mexicana. Foram mais menos um dia e meio de viagem até a cidade a um lugar chamado de San Pedro”, fala.

Todos desceram e foram conduzidos até uma pequena casa de dois cômodos e um banheiro.  I grupo pernoitou no local e no dia seguinte uma camionete de carroceria em madeira chegou para levar a todos até o início da travessia da fronteira norte-americana. Roberto lembra que o grupo desceu do veículo e iniciou uma caminhada próxima à uma estrada de ferro. Segundo ele, isso começou no entardecer e seguiram caminhando até o amanhecer. “Minhas pernas estavam exaustas e minha boca sempre seca”, fala salientando que cada pessoa levava consigo uma garrafa de dois litros com água.

Eles dormiram sob alguns arbustos e quando o sol estava para sumir, iniciaram, novamente,  a caminhada. Roberto lembra que foi mais um dia de angústia e por diversas vezes pensou em sair correndo em busca de ajuda. “Na minha cabeça eu iria morrer e ninguém saberia”, explica.

No segundo dia de caminhada, eles já estavam próximos de chegar à fronteira. Roberto lembra atravessaram uma cerca feita por fios e chegaram à um local cheio de cactos. “Só mais tarde descobri que havíamos passados pelo deserto de Sonora e que já estávamos praticamente nos Estados Unidos”, salienta.

Novamente o grupo descansou sob algumas árvores parte da noite e segui viagem sob a promessa de que será a última caminhada e que no amanhecer a travessia acabaria. Ledo engano, pois nesta noite encontraram pelo caminho um grupo de norte-americanos fiscalizando o local. “Não eram policiais, mas estavam armados, pois atiraram contra nós”, fala explicando que neste instante aos gritos de “stop, stop, criminal”, cada um buscou um esconderijo para não ser alvejado pelos tiros.

Roberto disse que como estava escuro, não sabia o caminho que estava tomando, mas se enfiou em meio a alguns cactos e teve o corpo todo machucado pelos espinhos. “Fui obrigado a suportar a dor em silêncio, para que não descobrissem onde eu estava”, fala ressaltando que ouvi mais disparos e que não sabe se algum do grupo foi capturado.

O brasileiro ficou no lugar onde se escondeu até o amanhecer e, sozinho, não sabia que rumo tomar. Desesperado ele temia pela vida, pois sabia que se pedisse ajuda poderia estar diante dos algozes que tentaram matá-lo na noite anterior. Desorientado, ele seguiu o rumo achou conveniente. Andou por horas até que ouviu barulhos de passos. Buscou se esconder temendo se tratar dos mesmos que atiraram contra ele antes. Para sorte, os passos viam de outro grupo que atravessava a fronteira. “Foi um alívio, pois havia 4 brasileiros no grupo e me ajudaram”, fala.

Depois de duas horas caminhando eles chegaram a um local onde uma Van aguardava para levá-los até a cidade de Tucson no Arizona. “De lá vim para Everett, onde tenho dois amigos de infância”, fala concluindo que não aconselha ninguém a tentar esta travessia. “Só não morri por milagre de Deus”, fala finalizando que ainda teve que pagar $16 mil por esta “viagem”.

Fonte: (ABTN - Agência Brazilian Times de Notícias)