Publicado em 21/12/2009 as 12:00am

Vítima de violência doméstica recebe asilo nos EUA

Rody Alvarado, vítima de violência doméstica que recebeu asilo político

 

Depois de sofrer terríveis abusos de seu marido por mais de dez anos, Rody Alvarado deixou a Guatemala em 1995 e pediu asilo político nos Estados Unidos.

O asilo foi concedido, finalmente, na semana passada, depois de uma odisséia pessoal e um processo legal que inflamou as paixões de ambos os lados no debate sobre uma reforma das leis de imigração.

O governo diz que Barack Obama prepara as regras que permitiriam ao país atender outras vítimas de violência doméstica, que não têm outra alternativa para sobreviver, a não ser deixar seu país de origem.

Se entrar em vigor, seria a primeira vez que o governo federal reconheceria formalmente que a violência doméstica justifica asilo político. "É uma questão muito complexa. Estamos desenvolvendo padrões para estes casos", disse Matt Chandler, porta-voz do departamento de Segurança Territorial.

Em sua primeira entrevista desde que recebeu a confirmação do pedido, Alvarado disse que estava orgulhosa de ter pavimentado o caminho para que outras mulheres na mesma situação sejam qualificáveis para o asilo.

"Eu nunca perdi a esperança", disse Alvarado, uma mulher de fortes convicções religiosas que deixou seus dois filhos em seu país, quando saiu da Guatemala. "Deus nunca me abandonou".

Atualmente, quase todos os pedidos de asilo se baseiam em perseguição de um governo. Além disso, o requerente deve demonstrar que é perseguido por questões religiosos, de raça ou nacionalidade, por suas opiniões políticas ou por pertencer a grupos sociais determinados.

Alguns setores consideram que o uso da violência doméstica para conceder asilo trai o espírito da política em relação aos refugiados e pode levar a um aumento da imigração.

"Como farão as autoridades que julgam essas aplicações para comprovar as alegações, sabendo que a violência doméstica neste país é um assunto complicado?", perguntou Ira Mehlman, da Federação para a reforma da Lei de Imigração (Federation for American Immigration Reform). "As leis de asilo não têm que se meter com assuntos pessoais."

Ele disse que seu grupo se opõe a mudanças na lei de asilo, promulgada em 1980 e cujo objetivo era proporcionar aos cidadãos do bloco comunista a permanecerem nos Estados Unidos, se aqui estivessem de visita ou no desempenho de alguma função diplomática. Num determinado momento, sabia-se que haveria uns 5.000 pedidos por ano. Só que esse número diminuiria ao terminar a Guerra Fria.

A Advogada de Alvarado, Karen Musalo, diretora do Centro de Estudos para Refugiados da Hastings Law School, na Universidade da Califórnia, acha que poucas vítimas de violência doméstica pedirão asilo.

 

 

No caso de Rody Alvarado, Karen apresentou depoimentos de vários especialistas e outros elementos de prova que, na Guatemala, as mulheres são agredidas em vários níveis e que os tribunais não oferecem nenhuma proteção às vítimas de violência doméstica. "Há provas contundentes de que o abuso de mulheres na Guatemala é considerada normal e plenamente aceita", ela disse.

Alvarado se casou com um ex-soldado quando tinha 16 anos e imediatamente começou o abuso físico, mental e sexual. Seu marido a espancava, até mesmo com uma arma, e chutou-a na coluna para abortar na segunda vez que ficou grávida.

Várias vezes fugiu para outras regiões da Guatemala, mas o marido sempre a procurou e a encontrou, ameaçando matá-la. Numa ocasião, ela perdeu a consciência, depois de ser espancada na frente de seus dois filhos.

 

 

 

Sentia-se tão desesperada e com medo que fugiu para Brownsville, Texas, sem seus filhos. Ela disse que um policial a interceptou na fronteira, mas deixou-a ir, para apresentar-se a um funcionário do serviço de imigração. Do Texas, voou para San Francisco junto com outros guatemaltecos que faziam a mesma viagem.

 

Por casualidade, encontrou uma senhora aguardando a chegada de sua filha no aeroporto. A mulher convidou-a para passar a noite em sua casa e Rody acabou ficando dois anos com essa família.

 

Sua vitória jurídica é agri-doce. Rody não vê os filhos desde que deixou o seu país. Seu filho mais velho tem 22 anos e a filha, 17. Eles falam por telefone algumas vezes. As crianças foram criadas pelos avós paternos e não entendem por que a mãe foi embora.

Fonte: (San Francisco Chronicle, tradução Phydias Barbosa)