Publicado em 24/02/2010 as 12:00am

Jovem indocumentado caminha 1700 km para receber diploma

No dia do Ano Novo, quatro jovens estudantes, ativistas que protestam pela reforma abrangente da imigração e dos direitos dos imigrantes indocumentados, começaram uma marcha, saindo de Miami em direção a Washington

No dia do Ano Novo, quatro jovens estudantes, ativistas que protestam pela reforma abrangente da imigração e dos direitos dos imigrantes indocumentados, começaram uma marcha, saindo de Miami em direção a Washington.

Juan Rodriguez (20 anos), Carlos Roa (22 anos), Gaby Pacheco (24 anos), e Felipe Matos (23 anos), o brasileiro do grupo, estão quase no meio da caminhada de 1.500 milhas, que ganhou o apelido de "The Trail of Dreams" e que está programada para terminar nos degraus do Capitólio, em Washington, no dia primeiro de maio.

O fato é que três dos jovens manifestantes não têm o estatuto de residentes legais nos EUA e enfrentam o risco real de prisão, detenção e deportação. Um dos três é exatamente Felipe Matos, que veio do Brasil quando tinha 14 anos de idade à procura de obter seu diploma de high school e da faculdade numa escola americana, mas perdeu o status de estudante quando o seu visto de turista venceu. 

Ele freqüentou o Miami Dade College e atuou como presidente da Associação dos Estudantes, tendo sido nomeado, em 2008, para o time acadêmico da escola, representando-a na competição “USA Today” All-USA.

Recentemente, aproveitando uma brecha na caminhada, Felipe foi entrevistado pela dupla de advogados de New York, Spar & Berstein, que comanda uma das mais conceituadas firmas de immigration lawyers daquela cidade.

A dupla chegou a publicar, com exclusividade, a entrevista com Felipe em seu blog, http://sblawlink.com, do qual o BT apresenta os melhores momentos:

 

Spar & Bernstein: Vocês quatro se conheciam antes dessa caminhada?

Felipe: Nós fazemos parte de um grupo de estudantes que trabalham para o Students Working for Equal Rights (SWER).  Nós trabalhamos com essa organização há vários anos e os líderes do SWER nos ajudaram com a logística da caminhada.

 

S & B: Quem teve a idéia para a caminhada? E qual foi sua primeira reação à idéia?

Felipe: O SWER já havia chegado ao consenso de que precisávamos fazer algo bem diferente, depois de tantos anos trabalhando para uma mudança e não conseguir nada. Em outubro do ano passado, tivemos uma ação no Broward Transitional Center, um centro de detenção no sul da Flórida. Tivemos a presença de cerca de 100 alunos, foi quando percebemos que já era o suficiente para começar nossa luta diária. Já estávamos desesperados por um sistema onde nem sequer conseguimos respirar. Nós não poderíamos continuar a viver no medo.  Logo após este episódio, Juan Rodriguez voltou de Nova York, de uma conferência onde havia discussões sobre uma caminhada semelhante, o Underground Railroad, também feita para Washington DC, com um organizador da Fundação Passie.

 

Quando ele voltou, e ele nos contou sobre a idéia, pensamos então em realizar a "Trilha dos Sonhos". Esta caminhada nasceu a partir da nossa necessidade de dizer ao mundo que somos seres humanos.

 

S & B: O que levou você a fazer tal afirmação ousada sobre a reforma da imigração?

Felipe: Nós precisamos uma reforma justa e humana. Estávamos cansados de promessas vazias, ainda cheias de histórias horríveis de racismo e da intolerância. Nós ajudamos a eleger Obama e temos trabalhado arduamente desde 2008, porque acreditávamos na sua promessa de mudanças. Entretanto, depois de eleito, ainda encontramos mais desespero. Nós, como comunidade, temos necessidade de responsabilizá-lo com suas promessas.

 

S & B: Vocês não tem medo de serem presos, detidos ou deportados?

Felipe: Nós não estamos com medo, mas entendemos os riscos que estamos correndo muito bem. No entanto, o presente momento é insuportável. Na Flórida não temos in-state tuition (menor custo na educação) e não podemos obter carteira de motorista nem emprego. Nosso futuro também ficou incerto devido ao aumento das deportações na Administração Obama.

 

S & B: Qual foi a parte mais difícil da caminhada até agora?

Felipe: Sentimos a dor das famílias que foram separadas por problemas de deportação e ouvimos os jovens que não podem realizar as suas potencialidades e sonhos.

 

S & B: Qual foi a reação de pessoas que viram ao longo do caminho? Terá sido tudo positivo? Ou será que houve alguns comentários negativos?

Felipe: Noventa e cinco por cento das pessoas foram favoráveis. Havia trabalhadores desempregados por várias semanas que conseguiram coletar mais de US $ 80 para a nossa caminhada. No entanto, temos encontrado resistência. Algumas pessoas disseram-nos para voltar para o México, embora nenhum de nós seja de origem mexicana.

 

S & B: Se você pudesse mudar as leis de imigração, o que mudaria?

Felipe: Nós temos quatro idéias básicas para uma reforma justa e humana:

 

1. Caminho para a Cidadania: Nós queremos que os imigrantes tornem-se parte dessa sociedade e que possam ajudar a eleger aqueles que representam a nossa comunidade. Por muito tempo a nossa identidade na América se baseou num número de nove dígitos, o número do social security, e já está na hora de nos tornarmos pessoas completas.

 

2. Direitos dos Trabalhadores: O sistema atual usa as pessoas e se desfaz de nós através da deportação, independentemente da nossa contribuição para a sociedade.

 

3. Fim da Separação das Famílias: Muitas das nossas famílias foram separadas no meio da noite. Isso precisa parar!

 

4. Acesso à Educação: Os nossos jovens talentos e os sonhos estão sendo desperdiçados por causa do nosso sistema falho de imigração. Temos de criar oportunidades de crescimento pessoal para que nossos jovens possam ser educados e ajudar a reconstruir a nossa economia.

 

E finalmente, gostaria de afirmar que nossa caminhada não seria possível sem a ajuda e apoio do nosso povo e dos aliados. Se alguém quiser nos seguir, mandem o texto com a palavra “trail” para 30644 ou visite nosso website em www.trail2010.org.

 

Fonte: (tradução: Phydias Barbosa)