Publicado em 2/06/2010 as 12:00am

Como falar para o seu filho que ele é indocumentado

Uma das grandes dificuldades na educação dos filhos entre os imigrantes brasileiros, é situá-los quanto à sua situação migratória

 

Por Marcelo Zicker


Uma das grandes dificuldades na educação dos filhos entre os imigrantes brasileiros, é situá-los quanto à sua situação migratória. Um tema que mexe com a confiança, orgulho, auto-estima, esperança e que incide diretamente nas relações sociais das crianças brasileiras nos EUA. Para falar sobre esse tema polêmico, entrevistamos a psicóloga e mestre em Saúde Mental, Gerlane Lopes Ferreira Cardoso, que salienta para a importância de estar presente desde cedo na criação de seus filhos.



Brazilian Times  - Existe um momento certo de dizer a um filho que ele é ilegal no país em que ele vive ? Quais os principais cuidados que os pais devem ter no momento de conscientizar o filho acerca da sua situação ?

Gerlane - Neste contexto,  os filhos não podem pensar que são americanos, ou que tem os mesmo direitos que eles,  pois é importante  que eles assumam e formem  sua  identidade, dizendo para si mesmos -  “nós” somos imigrantes – além da capacidade de ir crescendo e se adequando à realidade do seu dia-a-dia, incorporando um pensamento mais positivo e otimista. Porém, não existe uma idade certa  para dizer ao filho  que ele vive ilegalmente num país estranho , pois quando a criança brasileira  começa a estudar aqui nos EUA,  ela aprende o idioma com facilidade e fluência, mas logo começa a perceber que os pais falam outro idioma e tem dificuldade de aprender o inglês , o que já gera a reflexão, o questionamento. O momento certo é no cotidiano, com os pais  percebendo seus filhos  em todos os sentidos e tentando o diálogo de forma mais direta, falando com uma linguagem simples  de acordo com a idade, mas sempre de uma forma “positiva”,   preparando seu filho para enfrentar as barreiras “migratórias” de uma forma mais esperançosa.

 

BT  - Um outro panorama comum entre as famílias é o conflito entre os filhos que nasceram no país, e aqueles que vieram ilegalmente e continuam nessa situação. Como os pais devem proceder para evitar que haja uma certa animosidade entre eles causada pelo fato de um ser legal e o outro não ? Como isso pode ser trabalhando na instrução dos filhos ?

Gerlane - Na socialização  complexa dessa bipolaridade ( filhos: um legal e outro ilegal),  dentro de uma mesma família podem haver conflitos  e tensões familiares e sociopsicológicas, raramente bem resolvidas e que terminam muitas vezes  com a rejeição  dos pais.  No geral,  eles irão  à escola interagindo com outros imigrantes e americanos , no entanto  fazem parte de um fluxo diferente  em relação ao seu estado migratório. De repente, o filho ilegal começa a perceber que não tem  o mesmo direito que o irmão legal, que não pode desfrutar das mesmas coisas, que não poderá entrar na faculdade como seu irmão ou ter um emprego melhor. Tudo isso pode gerar uma baixa alto-estima, complexo de inferioridade, uma falta de pespectiva para o futuro, entre outros. Os pais  devem trabalhar de forma otimista e realista com seu filho, por mais que a lei atue de forma a fomentar essa animosidade, a família não deve de maneira nenhuma fazer essa diferenciação entre eles, devendo receber a mesma atenção, carinho, amor e respeito.

BT - Pelo fato da maioria dos imigrantes trabalhar muitas horas por semana existe, em muitos casos, um vácuo de tempo e dedicação aos filhos. Como os imigrantes podem associar a alta carga de trabalho com a educação de suas crianças ?

Gerlane -  Eu não diria um vácuo, mas sim um abismo!  Neste mundo globalizado, onde os valores da família tem perdido importância cada vez mais, os pais não investem o tempo necessário na qualidade dos seus filhos, e a maioria nem mesmo está preocupada em dedicar tempo para isso. Infelizmente, não fazem o menor esforço, muitas vezes eles tem atitudes egoístas, estão mais preocupados com o “TER” - um carro novo, uma TV plasma 50”, uma casa ou fazenda no Brasil,   do que com o “SER” -  filhos felizes porque se sentem amados pelos pais, emocionamente equilibrados,  preparados para enfrentar as dificuldades da vida sem que tenham que recorrer a bebidas e drogas. Tempo para os filhos  nesta sociedade consumista em que vivemos e estamos inseridos, é uma coisa rara. Estas crianças tem temores, inquietações, angústia por se sentirem abandonadas pelos pais, dúvidas, ansiedades, pequenas/grandes crises existenciais, e que são originadas por situações que, pela pouca idade, não compreendem ou que os pais não explicam.  Para elas,  fica difícil de entender porque passam oito ou mais horas longe dos pais, ou porque um dia o pai senta na frente da TV e brinca com ela alguns minutos e no dia seguinte fala – ‘Sai daí menino(a)...’ . A situação dos jovens não é muito diferente, pois chegam da escola e ali passam horas no seu quarto na internet, no vídeo-game ou escrevendo mensagens pelo celular, e gerando,  como consequência, o isolamento social, isto é,  cada um em seu mundo.  Não existe caminho para associar a alta carga de trabalho com o tempo de dedicação aos filhos, enquanto não tivermos pais preocupados, e os valores materiais estiverem em primeiro lugar,   ao invés dos valores familiares. Os pais precisam diminuir sua carga horária e dedicar mais tempo com sua família.  E isso deve acontecer enquanto as crianças ainda estão pequenas, pois se não, eles não vão querer a sua companhia quando tiverem jovens e adultos, justamente pelo fato de nunca terem tido essa intimidade em casa. Meu conselho mais objetivo é : Se você não tiver tempo de cuidar de seus filhos, mude de emprego.

 

BT  - Como educar os filhos para lidarem com potenciais momentos de discriminação racial e étnica? Como eles devem agir em uma situação como essa ?

Gerlane - Todos nós, imigrantes,  por um momento ou outro teremos que enfrentar discriminação racial ou étnica. Primeiramente,  temos de nos conscientizar de que somos imigrantes numa terra alheia, temos direitos como qualquer outra pessoa, mas não somos daqui e nunca seremos de fato `americanos`, porque mesmo os que nasceram aqui com pais imigrantes,  são também discriminados.  Se participarmos nesta jornada com os filhos, vivendo suas frustrações, discriminações, medos, batalhas, e também vitórias, conquistas, podemos dar a eles forças para sustentar estas barreiras, vivendo a realidade e não a fantasia, aceitando a idéia de que somos imigrantes numa terra alheia.

Se tiverem tempo necessário,  como família saberão como agir, mas se não, irão se sentir ameaçados, sentirão ódio, revolta, diminuição da auto-estima, sensação de enclausuramento. A  distância e a saudade da família,  a pressão quanto a incerteza de uma data certa para retornar, a sobrecarga de responsabilidade  e  outros fatores,  fazem parte dos desafios emocionais dos imigrantes,  que podem gerar  estresse, nervosismo, insônias e irritabilidade, e até mesmo a depressão. Alguns sinais mais comuns de depressão são: perder interesse em atividades rotineiras, deixar de se preocupar com sua própria aparência, perder peso ( ou ganhar peso), sentir cansado e fraco o tempo todo, sentir-se inútil, sentir tristeza durante a maior parte do dia, sentir dificuldade em tomar decisões, ter pensamentos frequentes  de morte ou suicídio.

A melhor coisa é procurar ajuda familiar, e dependendo da gravidade da discriminação, ajuda legal com advogados. Desde cedo, devemos viver como a família unida, e ajudar uns aos outros, assim teremos raízes para sustentar as tempestades da vida. 


Ms. Gerlane Lopes Ferreira Cardoso é graduada  em Licenciatura  em Psicologia pela Centro Universitário de João Pessoa Unipe, Psicologia Clínica pelo Centro Universitário de João Pessoa Unipe, mestrado em Clínica e Saúde Mental pela Universitat Oberta de Catalunya/ Instituto de Neurociencias y Salud Mental de Barcelona. Membro da The American Psychological Association. Membro do Científico do 11º Congresso Virtual de Psiquiatria  (Interpsiquis 2010). Colaboradora do Jornal Brazilian Times USA na página Psiquiatria em Foco, Colaboradora da Revista Bate Papo. Conselheira do Programa Novo Tempo na Radio 650 A.M. Framingham, Massachusetts, USA.

 

Fonte: (ABTN - Agência de Notícias Brazilian Times)