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Publicado em 14/06/2010 as 12:00am

Brasileira engravida de coiote durante travessia

Entre os crimes mais comuns cometidos contra imigrantes, na travessia, está o estupro. Por muitos anos, as brasileiras atravessaram a fronteira sob a pressão do medo de ser atacada por algum coiote

Por Luciano Sodré

 

Entre os crimes mais comuns cometidos contra imigrantes, na travessia, está o estupro. Por muitos anos, as brasileiras atravessaram a fronteira sob a pressão do medo de ser atacada por algum coiote. A  maioria conseguia uma travessia sem problemas, mas outras não tinham a mesma sorte. Foi o caso da capixaba A.A.M, de 22 anos de idade.

Ela tentou o visto duas vezes, mas não obteve êxito e diante da vontade de se mudar para os Estados Unidos, ela decidiu se arriscar na travessia e encontrou um agenciador mineiro, mas que agia no estado do Espírito Santo, também. A.A.M residia na cidade de Castelo.

As despesas que ele acertou com o agenciador foi de $12 mil. Mas o que ela não sabia é que estava pagando para um destino que mudaria radicalmente a sua vida. Ela lembra que saiu de sua cidade numa manhã de sexta-feira, mes de agosto, ano 2004.

Ariane (nome fictício para facilitar a sua identificação neste história), não esquece de nenhum detalhe, pois foi esse foi um dia que jamais será esquecido. Quando chegou na cidade de Hermosillo, ela foi levada junto com outras pessoas que iriam fazer a travessia para um vilarejo que parecia abandonado. Casas com madeira apodrecida e ruas de terra.

O grupo foi dividido e instalado em duas casas, onde iriam pernoitar. Ariane estava ansiosa, pois um dos coiotes havia dito que mais dois dias estariam dentro dos Estados Unidos. Mas o que Ariane não sabia é que aquela noite seria interminável e duraria uma vida inteira presa no pensamento.

Logo que a madrugada adentrou, ouvia-se apenas o uivar do vento e os galhos agitados das árvores. Todos estavam dormindo até que um dos coiotes se aproximou de Ariane e acordou em silêncio. Quando ela percebeu que ele a estava chamando para sair da casa, olhou assustada para os lados e com olhar amedrontado queria pedir ajuda. Mas ele fazia gesto para que ela ficasse me silêncio e o seguisse.

Ariane temendo o que poderia acontecer hesitou em sair, mas ao ver o coiote lhe mostrando uma arma na cintura, temeu pela sua vida e saiu da casa. Ela foi levada para outra casa e o coiote sempre dizia para ela se acalmar que estava fazendo aquilo porque era preciso. A casa estava muito cheia e chamava a atenção das pessoas. Era preciso retirar os imigrantes, aos poucos, pois a polícia poderia aparecer a qualquer momento. Diante do argumento usado, Ariane confiou e o seguiu.

Os dois entraram em uma casa que estava distante cerca de 500 metros de onde estavam os demais imigrantes. Assim que entraram, a tranquilidade terminou. O coiote jogou a brasileira na direção de uma mesa, que ao se chocar caiu no chão. Ele avançou para cima dela como um animal feroz e sedento por comida. Quando ela pensou em gritar o coiote apontou-lhe um revólver e disse que a mataria se chamasse por socorro.

Diante da pressão, ela não pode fazer e quando o coiote lhe tirou a roupa de baixo - uma calça jeans e a calcinha -, ela tentou se defender, mas ele desferiu um golpe que a deixou um pouco zonza. Ariane não tinha mais forças e só conseguia ver aquele homem de pele morena escura e bigode grande sobre ela. A cada investida do mexicano, ela pensava que iria morrer e so tinha forças para chorar e implorar a Deus para que aquilo terminasse.

Depois de se saciar, o mexicano se levantou e fechou sua calça que estava apenas com o ziper aberto. No chão, a brasileira tentava cobrir a parte de baixo de seu corpo usando as mãos. Assim que ele fechou a calça disse, ainda em tom ameaçador para que ela se vestisse e não contasse a ninguém o que acontecera. Ariane se vestiu, chorando, e foi levada de volta para a casa onde estava dormindo. Ao chegar no local, deitou-se no mesmo lugar de onde havia sido arrancada. Um dos amigos estava acordado e perguntou o que ela estava fazendo. Ela fingiu que não ouvi e virou-se na cama improvisada no chão.

Na manhã seguinte a caminhada se iniciou e Ariane permaneceu os dois dias em silêncio. Um veículo esperava a todos para conduzir até um local chamado Benson. Lá as pessoas foram entregues para outro coiote que os levou até uma casa onde se alimentaram e se banharam.

Ariane ficou quase uma hora sob a ducha tentando eliminar de seu corpo o odor que ficara daquele mexicano bêbado. Ela só saiu porque um dos responsáveis gritava do lado de fora para que ela desocupasse o local para que outras pessoas se banhassem. Depois do banho e da comida, eles descansaram por cerca de quatro horas e duas vans surgiram para levar os imigrantes até o destino final. A brasileira foi levada até o estado da Pennsylvania, onde tinha uma irmã.

A brasileira foi entregue em uma cidade chamada de Philadelphia. Sua irmã a esperava em um posto de gasolina na entrada da cidade. Sem dizer uma palavra, quando a viu, abriu a porta do veículo em movimento e correu em sua direção. Sem dizer uma palavra a abracou forte e chorou como se estivesse desabafando.

Ela foi tranquilizada e ao chegar no apartamento da irmã, pediu para tomar um banho. Novamente ela ficou um longo tempo sob a ducha e ao mesmo tempo que se esfregava na intenção de se limpar da sensação de estar sendo agarrada a todo instante, ela tentava apagar da memória tudo que havia acontecido. O que ela não sabia é que quele dia jamais sairia de sua mente, pois ficaria vivo em forma de filho. Isso mesmo ela estava grávida.

Com o passar das semanas, ela começou a sentir tonturas e quando atrasou sua menstruação não teve dúvidas da gravidez. Mas temendo contar que estava gravida e ser forçada a falar sobre a situação com o coiote, ela preferiu ficar em silêncio. Cerca de três meses depois, sua irmã já notava a barriga saliente e ligando isso às tonturas e enjoos, chamou Ariane para conversar.

Durante uma caminhada Ariane foi questionada várias vezes sobre a gravidez, mas sempre negava, até que não suportou mais os questionamentos da irmã e acabou confessando que estava grávida, mas negou a verdadeira história. A brasileira inventou que havia mantido relação com um outro brasileiro que conhecera durante uma festa e que ao contar-lhe que estava gravida, ele se mudou para outro estado.

A irmã perguntou se ela queria tirar o bebê, mas o medo a impedia de decidir e quando resolveu já era tarde demais, pois já havia passado mais de quatro meses. Enquanto sua irmã se deliciava com a gravidez comprando roupinhas e outros presentes para o futuro sobrinho, Ariane sofria sozinha com a idéia de que o filho era fruto de um aborto e o pai um coiote mexicano que ela nem sabia o nome. Todas as noites ela olha para a barriga e pedia a Deus para lhe tirar aquele bebê.

Os sentimentos comum em toda mulher grávida deu lugar para um sofrimento intenso. Ariane, com a proximidade do parto, ficava mais aflita e o choro era mais intenso. Sua irmã não entendia o que estava acontecendo e tentava consolá-la de alguma maneira. Tudo inútil, pois o que a brasileira queria era retirar dela aquele fruto que significava o dia mais triste de sua vida. Durante todo o acompanhamento médico, as pessoas pensavam que a tristeza era provida pelo fato do pai ter fugido.

O tempo passou e chegou a hora de dar a luz. No dia em que foi levada para o hospital, Ariane chorou da saída de casa até deitar no leito. Sentindo as dores e contrações que anunciavam a chegada do bebê, a brasileira segurou firma nas mãos da irmã e chorando, resolveu contar tudo que havia acontecido sob promessa de que ela jamais iria contar a outra pessoa.

A irmã ficou sem saber o que fazer e naquele momento foi como se o chão saísse de seus pés. Depois dos argumentos de Ariane sobre os motivos de não ter contado antes, as duas se abraçaram e choraram muito.

Pronto! É chegada a hora e as enfermeiras e a médica entraram no quarto. A cada minuto, as duas choravam mais até que ouviu o choro do bebê. A irmã de foi a primeira a ver a pequena vida que vinha ao mundo. Em seguida, a médica levou o pequenino até a sua mãe que não sabia se chorava de alegria ou se martirizava mais ainda pela história de sua gravidez.

Os anos se passaram e mesmo diante de toda a história, Ariane conseguiu amar seu filho, mas mantêm até hoje a história de que o pai da criança é um brasileiro que a abandonou quando estava grávida. Mas ela também, às vezes se tranca no quarto e chora horas sem parar, pois sua memória se perde no passado e ela enxerga no menino a imagem do coiote.

Ariane torce para que um dia toda a história tenha um fim. Ela sabe que sempre que olhar para o seu filho terá lembranças daquele dia triste, mas espera que aos poucos a tristeza fique no passado e ela possa curtir muito seu filho. (Este texto faz parte do livro do jornalista Luciano Sodré que será impresso em meados de julho)

Fonte: (Da redação)

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