Publicado em 12/07/2010 as 12:00am

Brasileira apaixona-se por coiote durante travessia

Na vida das pessoas, nem sempre os planos saem como planejamos. Foi assim na vida de Angélica, uma mineira de Conselheiro Pena, que mudou radicalmente tudo que tinha preparado para o seu futuro

 

Por Luciano Sodré

Na vida das pessoas, nem sempre os planos saem como planejamos. Foi assim na vida de Angélica, uma mineira de Conselheiro Pena, que mudou radicalmente tudo que tinha preparado para o seu futuro.

                                                Noiva no Brasil, ela sonhava casar conforme manda o figurino, mas o que impedia era a falta de uma casa. Foi então que ela tomou uma medida radical e decidiu se aventurar nos Estados Unidos. Angélica havia conversado com uma prima que já morava no país, a qual garantiu que em menos de quatro anos ela conseguiria construir sua casinha para casar.

                                                A mineira não pensou duas vezes e foi procurar o agenciador que havia levado sua prima. Angélica só comunicou a família e o noivo sobre o que havia decidido após ter negociado tudo com a pessoa que a levaria. Foi um impacto e o noivo não conseguia aceitar aquela situação.

                                                Mas Angélica, depois de muito argumentar, conseguiu convencer a todos, inclusive seu noivo. Ela queria apenas levantar o dinheiro e construir uma casa e somente assim poderiam casar. Mesmo receosos, todos resolveram incentivar a mineira a seguir com seus planos, já que isso garantiria o seu futuro.

                                                Pois bem, era uma tarde de Sábado quando a aventura começou. Só que Angélica não sabia o que estava por vir. Sua vida e seus planos mudariam radicalmente. De Conselheiro Pena ela saiu e foi até São Paulo, de onde decolau rumo ao México.

                                                Ao chegar na Cidade do México, capital do país, a aventura começou. Um homem que se identificou como Jorge, a recebeu no aeroporto e conduziu a mineira e mais cinco brasileiros até um local chamado Miguel Hidalgo. O grupo ficou em um hotel por cerca de seis horas. Eles se alimentaram e foram aconselhados a descansarem, pois uma longa viagem os aguardava.

                                                Um outro coiote surgiu e com ar apressado e respiração ofegante chegou acordando a todos pois a viagem estava por começar. Uma van de cor branca esperava o grupo no estacionamento do hotel. De lá seguiram para Hermosillo, onde outro coiote estava esperando.

                                                Em Hermosillo, o grupo foi hospedado em um hotel de madeira com quatros pequenos. Angélica, a esta atura, já não estava mais tímida, pois havia feito amizade com uma outra mineira. As duas confabulavam seus sonhos e planos para o futuro. Uma comida picante foi servida para todos. Alguns comeram e outros não conseguiram, mas este tipo de alimentação é bastante comum entre os mexicanos. Quanto mais pimenta, mais saboroso.

                                                De Hermosillo o grupo se juntou à oito mexicanos e seguiram para Cananéia. Angélica ainda lembra-se da cidade cortada por um trilho de trem e um sol escaldante. A medida que chegavam mais perto da fronteira ela ficava mais apreensiva. Em Cananéia eles foram levados para um vilarejo chamado San Pedro, onde foram entregues nas mãos dos coiotes que levariam o grupo pelo deserto para cruzar a fronteira.

                                                Foi aí que a vida de Angélica começou a mudar. Entre os coiotes existia um mexicano chamado Fernando, o qual se mostrava protetor do grupo e impedia que os seus colegas humilhassem ou abusassem das pessoas. A cada investida de algum dos coiotes, Fernando interferia e defendia as pessoas.

                                                Ele também se mostrava apaixonado pela cultura brasileira e bastante curioso para aprender. Isso foi aproximando-o de Angélica e os dois foram construindo uma amizade em tempo recorde. De um lado estava Fernando querendo aprender mais sobre o Brasil e do outro uma mineirinha em busca de proteção e segurança. Foi o mesmo que unir o útil ao agradável.

                                                Após uma noite no vilarejo de San Jose, o grupo foi colocado em uma camionete com a carroceria de madeira e seguiram para o meio do nada. Deste momento em diante Angélica não temia mais nada, pois tinha um protetor. Fernando, além de motivá-la com palavras de apoio, não lhe deixava faltar nada. A caminhada iniciou e os dois andavam lado a lado.

                                                Angélica, aos poucos foi se apegando a Fernando e vice-versa. Os dois perceberam que tinham muito em comum - até mesmo os gostos musicais. Ambos adoravam músicas dos anos 80, de preferência de cantores e bandas dos Estados Unidos.

                                                Mas esta aproximação poderia ser muito perigosa, pois um outro tipo de atração estava surgindo dos dois lados. Angélica estava cada vez mais encantada com a atitude de Fernando e o medo e tensão da travessia estava dando lugar para o nascimento do amor.

                                                Quando o sentimento começou acontecer já estava no segundo dia de travessia, mas os dois já estavam mantendo contato há três dias. Angélica percebeu que estava sentindo algo diferente por Fernando e procurou evitar este sentimento. Ela se afastou do coiote, mas não havia como se distanciar muito, pois ela precisava dele para chegar aos Estados Unidos.

                                                Quase três dias de caminha e ao anoitecer, Angélica não se segurou e deixou Fernando saber de seu sentimento. Ela ficou surpresa ao saber da reciprocidade. Diante de um sentimento que queimava seu corpo, a mineira esqueceu que estava em uma perigosa travessia e pensava apenas em conter o que crescia dentro dela a cada passo. Mas as tentativas foram inúteis e ela acabou cedendo aos encantos de Fernando. No fim da quarta noite aconteceu uma troca de olhares entre eles e rolou o primeiro beijo. Todos caminhavam na frente e o casal andava um pouco mais atrás, conversando e admirando as estrelas. Neste momento Angélica percebeu que estava perdidamente apaixonada por Fernando.

                                                Depois do primeiro beijo, ele aconselhou Angélica a esquecer o que havia acontecido, pois ambos pertencia a mundos diferentes. Já estavam perto de Tucson, cidade onde outro coiote aguardava para dar prosseguimento na viagem, mas Angélica não conseguiu esquecer e ficou o resto da caminhada pensando no beijo e o que fazer com aquele sentimento.

                                                Por um lado ela não aceitava o que estava acontecendo, pois tinha um relacionamento no Brasil e que até então pensava que amava muito a seu noivo. Mas do outro lado, uma força interior gritava para que ele se entregasse aos braços de Fernando.

                                                Na manhã seguinte, o grupo parou sob uma árvore e protegidos do sol matinal, se alimentaram e beberam água. Novamente Angélica e Fernando trocaram olhares e ao sinal de um mexer da sobrancelha o casal se afastou para conversar. Fernando disse:

                                                - Hoje nos veremos pela última vez. Tenha certeza de que o que surgiu entre nós é algo vindo de Deus e que é um sentimento puro. Não queria me separar de você, mas a vida escolhe o nosso destino.

                                                Neste momento uma lágrima rolou dos olhos de ambos e um abraço apaixonado fortificava ainda mais aquele sentimento. Novamente o grupo se levantou se seguiu caminho até encontrarem um van. Lá o casal se despediu ao choro. O veículo levou a todos até uma casa em Tucson, onde todos tomaram banho e se alimentaram. Angélica, após o banho foi se deitar e com a cabeça sobre o travesseiro ficou pensando em Fernando e em toda a caminhada. Aquele mexicano carinhoso e atencioso não saiam de sua cabeça. Mas ela precisa descansar pois no dia seguinte a viagem até New Jersey continuaria. O que a mineira não esperava era o que o futuro reservava para ela.

                                                Ao acordar, todos já estavam prontos para embarcar cada um para seu destino. Angélica foi até o banheiro, escovou os dentes e se arrumou. Quando ela chegou na sala foi surpreendida pela presença de Fernando a esperando. Neste momento, ela ficou trêmula e soltou um sorriso nervoso. Sem saber o que fazer ela correu e o abraçou:

                                                - Passei a noite inteira pensando em você. Disse ele.

                                                - Eu também. Não sei o que está acontecendo comigo, mas quero ficar com você para sempre. respondeu ela.

                                                O outro coiote apareceu e gritou para que ela se apressasse, pois a viagem estava prestes a começar. Sem querer ir, ela soltou da mão de Fernando e entrou na Van que a aguardava. O veículo saiu lentamente e pelo vidro traseiro Angélica via Fernando se distanciar cada vez mais.

                                                Sabendo que havia perdido um grande amor, Fernando deu um último adeus com a mão direita, virou de costas para a Van e segui em direção a seu carro. Quando estava abrindo a porta do veículo ouviu um grito

                                                - Fernando! Fernando! Eu te amo. Aceita ficar comigo. Era Angélica que havia feito o carro onde ela estava parar para descer.

                                                Sem pestanejar Fernando deixou a chave do carro cair ao chão e correu em direção à Angélica que vinha em sua direção. Os dois se abraçaram e em um beijo “caliente” selaram aquele amor. Angélica decidiu deixar tudo o que havia planejado para e se entregar aquele sentimento. Não temia o que poderia acontecer no futuro, apenas queria viver aquilo.

                                                Os dois, após o longo beijo, decidiram retornar ao México, onde Fernando morava. Atualmente estão casados e têm dois filhos. Angélica não se arrepende de nada que fez e diz estar muito feliz.

(Este texto faz parte do livro do jornalista Luciano Sodré que será impresso em meados de julho)

Fonte: (Da redação)