Publicado em 26/07/2010 as 12:00am

Brasileiro diz que viu irmão quase morrer durante travessia

Os irmãos Alexandre e Oswaldo, da cidade de Cacoal ? Rondônia, estão nos Estados Unidos há mais de sete anos, dos quais, cinco eles trabalham com uma pequena fazenda na cidade de Northwood, em New Hampshire

Por Luciano Sodré


Os irmãos Alexandre e Oswaldo, da cidade de Cacoal – Rondônia, estão nos Estados Unidos há mais de sete anos, dos quais, cinco eles trabalham com uma pequena fazenda na cidade de Northwood, em New Hampshire. A especialidade do local é comercializar árvores e outros tipos de plantas.

Os dois se reuniram em Concord, capital do estado, para contar como foi a travessia na fronteira mexicana. Tudo começou quando um primo deles resolveu se mudar para os Estados Unidos, também clandestino.

Alexandre lembra que um ano depois que o primo estava neste país, e a vontade aumentou diante das histórias que ele contava sobre a qualidade de vida, a facilidade de comprar um carro, uma televisão e outros itens desejados no Brasil, mas distantes devido ao salário vergonhoso que o governo.

Depois de tudo acertado, os dois embarcaram para São Paulo e de lá seguiram para a Cidade do México. Este traçado é comum para muitos imigrantes que chegaram aos Estados Unidos através da fronteira mexicana.

Eles se uniram a um grupo formado por pessoas de outras nacionalidades e antes de iniciar a travessia, a pé, eles pararam em duas cidades, onde se alimentaram e descansaram. Até aí tudo corria bem e parecia que a travessia seria tranquila, sem muitos problemas.

Alexandre lembra que a caminhada foi iniciada nas proximidades de um trilho de trem que parecia estar abandonado. Caminharam por horas durante a noite. Por isso o perigo ficou maior, pois o caminho era cheio de pedras, morros e buracos. Com a escuridão, era difícil saber onde estava pisando.

Foi então que Oswaldo, sem perceber caiu em um buraco e bateu com a cabeça em uma pedra. O irmão correu para ajudá-lo, pois estava desacordado e não respondia aos chamados. Alexandre ficou desesperado, pensando que seu irmão estava morto. Mas quando percebeu que ele respirava, ficou mais aliviado. Mesmo assim o sofrimento estava apenas começando.

O grupo sentou-se em torno do brasileiro e dormiu por alguns instantes, enquanto esperava o brasileiro se recuperar, mas quando era hora de seguir viagem, o coiote percebeu que Oswaldo estava muito ferido e um deles orientou para que ficasse ali esperando ajuda. Alexandre ficou indignado e disse que não deixaria o irmão para morrer ali.

- Ele vai comigo e ninguém vai impedir – retrucou

- Tudo bem, mas você terá que carregá-lo e não podemos prejudicar os outros por causa dele – respondeu o coiote

Todos se levantaram e seguiram a caminhada. Alexandre pegou o irmão, que também havia machucado uma das pernas, colocou um dos seus braços sobre o ombro e Oswaldo caminhava apoiado no irmão.

Mas conforme o tempo foi passando, a situação de Oswaldo ficava mais críticas e por duas vezes ele desmaiou no caminho. Em um destes desmaios, o grupo não parou para ajudar e continuou caminhando, pois havia policiais de imigração nas imediações.

Alexandre pegou o irmão no colo e seguiu o grupo. Mas com o peso e o cansaço, as pessoas ficavam cada vez mais longe. O medo do brasileiro era a noite chegar novamente e perder o grupo de vista.

Em alguns momentos ele não sabia o que fazer. Pensava em ficar parado no mesmo lugar, com o irmão, esperando que alguém aparecesse e o ajudasse. Mas o pior estava por vir. O grupo estava distante, quando todos começaram correr. Era a polícia de imigração que apareceu de surpresa, mas como Alexandre e o irmão não estavam entre eles, não foi visto pelos agentes. Desesperado e ainda segurando Oswaldo no colo, ele procurou um lugar para se esconder. Foi então que encontrou um arbusto e deitou o irmão e colocou sobre ele alguns galhos para escondê-lo.

O tempo foi passando e parecia tudo estar normal novamente. Mesmo assim Alexandre temia pegar o irmão machucado e ser surpreendido pela policia.

Outro medo era se perder do grupo. Então ele se levantou, e saiu para ver o que estava acontecendo. Andou, andou, andou e nada. Não viu ninguém. Pronto! O desespero aumentou.

Preocupado em encontrar o resto do grupo, ele foi se distanciando do irmão e quando percebeu havia perdido a direção de onde estava. Alexandre ficou mais desesperado ainda e para qualquer lugar que escolhia seguir, parecia um caminho sem fim. Ele já não sabia mais o que fazer e ficou gritando por ajuda.

Os gritos chamaram a atenção de uma patrulha que estava próximo ao local. Em poucos minutos Alexandre foi abordado pelos policiais e preso.

- Meu irmão está lá, meu irmão está lá – gritava ele, mas parecia que ninguém ouvia

Quando ele foi colocado no interior da viatura, um policial veio até ele e perguntou:

- Onde está seu irmão?

- Não sei. Ele caiu e bateu a cabeça. Ajude-me achá-lo.

Os policiais iniciaram um patrulhamento nas imediações até que um deles gritou:

- Achei! Achei! Aqui está.

Oswaldo estava muito mal e o policial disse que foi graças a Deus que eles foram encontrados, pois o brasileiro não suportaria mais um dia sem tratamento médico.

Os dois foram levados para uma cidade que ele não sabe o nome, pois estava algemado na parte de traz do veículo.

Alexandre foi conduzido até uma prisão e Oswaldo a um hospital. Três dias se passaram e nenhum contato era feito entre os dois, até que Alexandre recebeu a visita de uma pessoa falando em espanhol dizendo que ele seria liberado e teria um tempo para permanecer no país e depois disso seria considerado um fugitivo.

- E meu irmão, como está? - perguntou

- Seu irmão está bem.

Assim que você sair poderá ir ao hospital vê-lo, mas vocês devem deixar este país o mais rápido possível.

Alexandre recebeu uma notificação de tempo de permanência e uma pessoa se dizendo amigo dele foi buscá-lo. Ele foi levado até o hospital onde o irmão estava internado. Durante o caminho, eles encontraram outra pessoa, a qual se identificou como um dos agenciadores.

- Nós vamos pegar seu irmão e vou levá-los a um local mais seguro – disse o estranho

- Mas eles me deram um prazo para sair do país – respondeu Alexandre

- Não tem problemas.

Existem milhares de pessoas com esta mesma ordem e continuam vivendo nos Estados Unidos

– afirmou o agenciador Alexandre não sabia o que fazer, pois não conhecia nada e a língua era estranha. A única coisa que queria era ver se o irmão estava bem. Mas antes mesmo deles chegarem ao hospital, o agenciador recebeu um telefonema de que Oswaldo não estava mais no hospital.

- Nós tivemos que tirá-lo de lá, pois foi o momento em que os policiais se descuidaram – dizia a voz

Foi então que mudaram de direção e seguiram para a casa combinada.

Chegando lá, Alexandre viu Oswaldo em uma cama, mas já bem melhor. Emocionado ele chorou e abraçou o irmão e lembrou-se de tudo que passou durante a travessia.

- Descanse, pois amanhã levaremos você até o seu parente em Massachusetts – disse o agenciador

Os dois dormiram e no dia seguinte entraram em uma Van e começaram a viagem. Oswaldo, ainda convalescido foi no último banco, deitado e se recuperando. Alexandre conversava com o motorista para saber como eles o encontraram.

- O seu parente ligou para alguém lá no Brasil e esta pessoa acionou os parceiros dele no México e neste país, até que descobriram onde você e seu irmão estava – respondeu acrescentando:

- Depois disso foi armado um esquema para que vocês fossem solto, afinal dos dois valem muitos dólares. Chegando a Massachusetts, os dois foram levados para a cidade de Lowell, onde estava o primo. Depois de dois anos fazendo pequenos trabalhos, surgiu a oportunidade de ir para Northwood, em New Hampshire trabalhar em uma fazenda. Eles receberiam $1,500.00 por mês, mas não pagariam aluguel, pois iriam moram na sede da fazenda. Era o mais certo, pois eles não conseguiam emprego fixo. E foi o que aconteceu.

Fonte: (Da redação)