Publicado em 13/08/2010 as 12:00am

Padre realiza visitas a brasileiros presos esperando pela deportação

Sensibilizado com o problema, que afeta milhares de famílias brasileiras em Massachusetts, o Padre Ademir, da paróquia Santo Antônio em Somerville ? MA, está empenhado em levar palavras de conforto a brasileiros que esperam a deportação em penitenciárias

 

Por Marcelo Zicker

Após toda a polêmica envolvendo a notícia de que existiria um ponto de blitz fixo em New Hampshire, na altura da Rota 3 com a cidade de Woodstock, e da recente batida do ICE na cidade de Kingston – MA, que terminou com 4 presos e 6 autuações para a Côrte, a comunidade brasileira se encontra apreensiva com o ostensivo trabalho da Imigração em capturar indocumentados.

Sensibilizado com o problema, que afeta milhares de famílias em Massachusetts, um padre de Somerville está empenhado em atuar para levar palavras de conforto a brasileiros que se encontram presos em penitenciárias do estado. O padre Ademir, da paróquia de Santo Antônio,  iniciou na semana passada, uma série de visitas a brasileiros dentro dos presídios. “ Após ouvir de muitos fiéis da paróquia o desabafo por ter um ente querido preso esperando pela deportação, e perceber que os testemunhos estavam se tornando cada vez mais constantes, resolvi fazer algo para levar esperança para essas pessoas, que aguardam ansiosas por um futuro incerto” revela o padre, que começará visitando os brasileiros uma vez por semana.” Eles estão esperando a deportação, sem saber quando vão ser soltos para reencontrar com os familiares. É um momento de muita agonia, eles precisam de palavras de conforto, de fé, de saber que o melhor estar por vir” revela Padre Ademir.

Entre dramas e relatos de desesperança, o Padre foi surpreendido com o bom tratamento oferecido aos brasileiros na prisão. “ Apesar da demora em realizar o processo de deportação, eles não são mantidos em condições precárias. Ficam num andar diferente de prisioneiros que cumprem pena por crimes graves, e tem direito a conversar com a família e amigos 3 vezes ao dia. A minha conversa com um deles durou 40 minutos e  poderia ter durado mais se quiséssemos” revela.

Segundo Padre Ademir porém, a surpresa com o bom tratamento das pessoas que esperam deportação, não diminui a dor de ter uma família desmantelada por semanas e até meses. “ Conversei com um rapaz que está quase um mês esperando para voltar para o Brasil. A família perde o chão, o norte, abala toda uma estrutura, que é muito preocupante. É preciso que os EUA atue com mais rapidez no procedimento desses processos, estamos falando de famílias inteiras abaladas por um caso como esse. Infelizmente, não vale pagar um advogado para acelerar a situação, então os brasileiros muitas vezes tem que conviver com a boa vontade das autoridades americanas para fazer o trâmite de deportação” salienta o Padre, que se comove ainda mais com o fato de muitas mulheres não poderem visitar os maridos pela indocumentação. “ Eles afirmam que se pode receber visitas, mas esquecem que a maioria das esposas são também indocumentadas e não podem comparecer ao local com segurança. Muitos também sofrem de doenças como pressão alta e depressão, e estão correndo risco de vida lá dentro, a pressão psicológica é muito grande” completa.

A primeira visita ocorreu no Suffolk County Jail, ao sul de Boston, mas o padre pretende estender as visitas para outras penitenciárias e conscientizar mais brasileiros desse drama. “ É preciso explicar para eles que não é o fim do mundo, e que eles não cometeram nenhum crime grave, tudo não passa de um procedimento do ICE para lidar com as deportações. O governo Obama já deportou mais que o governo anterior no mesmo período,  então não é de se espantar tal situação” afirma ele,  fazendo referência à cota mínima de 400.000 deportações para 2010.

Padre tem 18 anos de  serviços prestados à comunidade

 Com praticamente 18 anos dedicados a comunidade brasileira e ao Apostolado Brasileiro, Padre Ademir lembra com carinho das primeiras impressões quando chegou. “ Ainda lembro a primeira reunião do Apostolado Brasileiro aqui em Boston com a presença do Cardeal Law. O primeiro dia era frio e tudo era novidade. E hoje volto com muita alegria para trabalhar nesta comunidade brasileira de Santo Antônio de Pádua, em Somerville. A história da minha vocação, no entanto, começou há muito tempo, na família. Como muitos padres do sul do Brasil, também eu sou descendente de italianos. Meus antepassados vieram de Cremona, norte da Itália. No mesmo barco deixaram a Itália 13 irmãos, e se estabeleceram no Rio Grande do Sul. Na família, hoje a terceira geração, somos 5 irmãos e uma irmã” contou ele, ao site Apostolado Brasileiro. “ Passei um breve período de tempo em Toronto, no Canadá, depois em Johnston, Rhode Island, e em seguida fui trabalhar com os portugueses e brasileiros na Arquidiocese de Washington DC, em setembro de 2003. Passei 10 anos maravilhosos, apesar de servir duas comunidades totalmente diferentes: portugueses e brasileiros. Ali constatei o que é uma cultura: costumes, tradições e jeitos diferentes de fazer as coisas. Além de ser a capital, Washington é uma cidade muito turística e importante. É o centro político, administrativo e militar da América. Há muitos museus nos quais se pode entrar gratuitamente, além das organizações internacionais (Banco Mundial, FMI, OEA), embaixadas e representações diplomáticas do mundo todo. Para quem não conhece, vale a pena ver” continua o relato de sua história. Foi quando ele começou a sua trajetória no lado leste, residindo em New York. “Depois, fui a Mount Vernon, New York. Também ali, a paróquia Nossa Senhora da Vitória era composta essencialmente por poços-caldenses, de Minas Gerais, e uma pequena comunidade americana. A comunidade é bastante dinâmica e a cada dois meses o Consulado Brasileiro prestava serviço aos brasileiros de toda a região. Na cidade, além da prefeitura, havia alguns restaurantes brasileiros” conta.

 


Fonte: (Da redação)