Publicado em 18/08/2010 as 12:00am

Ex-deputado assume que foi coiote de brasileiros em livro

Joel Deckard, de 68 anos, relata como transportava brasileiros da fronteira do Canadá para os EUA. Segundo ele, a maioria dos imigrantes seguiam para estados como Massachusetts e New Hampshire.

 

Um ex-congressista do estado de Indiana, cuja carreira  foi abruptamente encerrada após um acidente de carro no qual no qual estava alcoolizado em 1982, afirmou na última semana que passou 4 meses atuando como ‘coiote’ para brasileiros na fronteira dos EUA com o Canadá. Muitos dos brasileiros foram levados para estados como Massachusetts e New Hampshire.

Mais de 20 anos depois do acidente que o tirou da política e chefiando uma empresa de transportes, Joel Deckard, de 68 anos, foi questionado por um brasileiro com uma proposta: traficar imigrantes na fronteira com o Canadá. A experiência rendeu muitas histórias, que serão reveladas no livro de memórias "The Naked Diaries of an Unlikely Coyote" (Os Diários de um Improvável Coiote), a ser lançado em breve, relatando as 8 viagens de travessia da fronteira, entre os anos  de 2007 e 2008. Ele afirmou que as viagens foram ‘as mais interessantes da sua vida’.

Autoridades canadenses familiarizadas com os locais e os casos descritos no livro, dizem que o depoimento de Deckard é bastante verossímil. “ São histórias comuns, que ocorrem diariamente nos locais descritos’ afirma Kirk Martin, sheriff de um cidade relatada no livro. O ex-político disse ao jornal The Herald-Times de Bloomington, que ele se envolveu no tráfico de imigrantes, quando trabalhava em Jacksonville – FL, gerenciando uma empresa de transportes, conhecendo um brasileiro que atuava como ‘coiote’ e que o chamou para realizar uma das viagens. Deckard disse que a proposta lhe interessou muito pelo risco e aventura. “ Aproximadamente todas essas pessoas vieram com as famílias. Eles estavam apenas tentando ter uma vida melhor para eles e suas famílias. Na minha opinião, eu estava servindo a uma proposta  altamente solidária, para ajudá-los a melhorar de vida. Eles eram boas pessoas, honestas, trabalhadoras e religiosas” diz o autor da obra, que confessa que cobrou dinheiro dos brasileiros para realizar o seu trabalho. “ Foi muito emocionante, sem dúvida alguma. Foi algo que somente algumas pessoas podem falar que já fizeram, poucas tem esse tipo de experiência”  completa.

Ele diz que durante o trajeto dos veículos com os brasileiros, ele nunca perguntava acerca do status migratório dos passageiros, mas ele assume que sabia que se tratava de uma prática ilegal. “ Eu sabia que podia ser preso. Em toda viagem, eu sabia que as coisas poderiam terminar dessa forma. Eu tentei me conscientizar que eu poderia me dar mal nessa história toda” afirma.

Segundo o porta-voz da U.S. Immigration and Customs Enforcement Agency (ICE),  pessoas que são pegas transportando ilegais próximo a fronteira, pode pegar até 10 anos de prisão.  Como o caso aconteceu há alguns anos, o U.S Attorney’s Office, decidirá se Joel será indiciado ou não.

Abaixo, seguem algumas passagens do livro, publicadas no blog  http://sergyovitro.blogspot.com, chamado Conteúdo Livre.

VIAGEM IMPROVISADA
Começamos em 1º de dezembro de 2007. Nunca havia feito nada parecido, então a primeira viagem foi bastante improvisada. Levamos duas semanas estudando mapas da região e decidimos partir de um ponto ao sul da fronteira com o Canadá.
Lá, dávamos instruções aos ilegais sobre o caminho que teriam que fazer a pé. Eles iam pela floresta.
Da primeira vez, foram quatro homens jovens. Levaram quatro horas até nos reencontrar do lado canadense. Isso em temperaturas negativas e sob muita neve.
A partir daí, reformulamos a rota. Para as últimas viagens, descobrimos uma trilha que passava por uma ponte sobre um rio. Só andavam cerca de cem metros até chegar em um local seguro no Canadá.

TRAVESSIA GELADA
Os clientes eram na maioria homens jovens. Só na sexta viagem levei uma família, com pai, mãe, um garoto de 11 anos e um tio. O pai, por algum motivo, se perdeu na trilha. Entrou em pânico e resolveu atravessar o rio nadando, com o garoto nos ombros, no meio do inverno.
O abrigo onde tinham de me esperar não tinha aquecimento. Eles quase morreram congelados.
Se eu fosse detido, seria preciso arrumar outra pessoa para buscar o pessoal. Mas tínhamos formas de fazer isso. Enquanto eu viajava, Adriano ficava com um computado ligado no Google Maps e com dois celulares. Ele ia seguindo nossas posições.
Em geral, os brasileiros não aparentavam muito medo. Eram muito determinados, gente trabalhadora, honesta e religiosa. Todos iam para Toronto. A economia da cidade estava indo bem, e eles já tinham empregos esperando. Nos EUA, a crise estava começando.

PERIGOS
Sempre soube que seria perigoso. Nas duas últimas viagens tive muitas complicações com o pessoal da imigração. Senti que estava muito perto de ser preso e decidi que era hora de parar.
Algum tempo depois, Adriano foi preso perto de Houston e acho que acabou deportado para o Brasil.
Não fiz muito dinheiro. Muitos "coiotes" cobram US$ 12 mil para cruzar a fronteira. Começamos cobrando US$ 1.000 por pessoa, mas isso não cobria os custos. No fim estávamos cobrando US$ 2.000. Os brasileiros ficavam felizes de pagar tão pouco.
Minha família não sabia que as pessoas que eu levava ao Canadá eram ilegais. Só descobriram depois que o trabalho tinha acabado. Não aprovam, mas sempre souberam da minha crença de que é preciso ajudar estranhos com bondade.
Foi o período mais interessante da minha vida. Muita gente discorda, mas para mim era algo muito positivo. Sinto saudades.

Fonte: (Da redação)

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