Publicado em 25/05/2011 as 12:00am

Direto do Afeganistão, soldado brasileiro relata experiência no país

Há 8 meses no Afeganistão, o goiano Antônio Júnior Alves Caiado, 28 anos, fala da experiência de tentar reconquistar a ordem no país e das principais dificuldades impostas pelo pós-guerra

  Por Marcelo Zicker

Ser invadido não é novidade para o Afeganistão. Desde Alexandre - o Grande, o povo ‘Mugal’ da parte sul da Ásia, os czares russos, o império britânico, e mais recentemente, os EUA, o povo afegão sempre conviveu com o conflito de ter um país culturalmente e religiosamente divergente adentrando os seus limites, impondo mudanças políticas e sociais. Completando 10 anos desde que iniciaram a caça ao terrorista recém-capturado e morto, Osama Bin Laden, os EUA ainda não conseguiram extinguir a influência política do regime talibã no país, e no ano passado, enviaram mais 100.000 soldados aos campos de concentração, além dos 30.000 já situados no local, para tentar solucionar o ambiente de caos instalado pelo pós-guerra.

Uma carreira promissora e envolta de benefícios e respeitabilidade, a carreira militar no exército americano também foi um caminho abraçado por centenas de imigrantes brasileiros, que enxergaram na oportunidade, uma maneira de atingir o procurado ‘Sonho Americano’, entre benefícios como a possibilidade de cidadania rápida, graduação universitária e seguro de saúde pagos pelo governo, entre outros itens que todo residente no país almeja, um dia, alcançar. 

 

Em série de reportagens veiculadas em 2009, o BT retratou a trajetória de alguns dos destaques tupiniquins dentro da Guarda Nacional Norte-Americana e acendeu a luz sobre as vantagens de se vestir a farda do país. Nessa semana, o jornal foi procurado pelo soldado Antônio Júnior Alves Caiado, 28 anos, que há 8 meses está no Afeganistão atuando na área de logística e segurança do campo de concentração. Ele falou à nossa equipe de reportagem da experiência de tentar reconquistar a ordem no país e das principais dificuldades impostas pelo pós-guerra.

Natural de Goiânia, Antônio desembarcou há 6 anos em Boston - MA, com o intuito de completar um curso de inglês, e viajar para a Austrália, em seguida. “Eu tinha uma carreira estabilizada no setor administrativo do Tribunal Regional Federal, mas tinha a intenção de morar alguns anos na Austrália. Ao chegar nos EUA,  eu gostei muito da experiência e resolvi ficar de vez” afirma ele, que atrelado aos estudos, também atuava numa empresa de entrega de produtos congelados, em Taunton – MA. Quando conseguiu o Green Card, o goiano foi persuadido por amigos a aplicar para o exército. “Eu sempre fui fascinado com a carreira militar, tentei várias vezes no Brasil, mas nunca fui chamado” afirma ele, que depois de um dia após o contrato assinado com o U.S Army, aplicou para a cidadania. “Foi um processo bem rápido. Nem precisei ir muito longe, após um dia como militar, meu processo já estava em andamento” relata ele. 

 

Ambiente de caos e negligência do governo afegão

Na função de Chemical, Biological, Radiological, Nuclear and High Yield Explosive (CBRNE) Specialist, ele atua dentro do campo de concentração, na logística de entrada e saída de mantimentos e equipamentos aos soldados, verificando riscos e periculosidade das entregas.  “ Também faço patrulha nas ruas, e tenho contato direto com os nativos. É triste ver como o país está devastado e caótico, não tanto pela invasão, mas sim pela administração do governo afegão. Falta estrutura de abastecimento de água potável, de tecnologia, de oportunidade para uma qualidade de vida mínima. Já vi crianças brigando por uma garrafa de água, por um pedaço de pão. Embora triste, nos dá incentivo para querer trabalhar para mudar esse país” testemunha ele, em entrevista realizada por telefone. Sobre quando os EUA planejam a retirada das tropas, ele é enfático. “ Não temos acesso a essas informações e temos uma grande preocupação de que o governo talibã volte a dominar o país. Segundo pesquisas com os próprios afegãos, 95% deles acredita que o talibã voltará ao poder caso as tropas de coalizão deixem o país” revela ele, salientando que várias partes do Afeganistão ainda são dominadas pelo regime em questão.

“ Nunca senti medo de nada, muito menos da morte. Além disso, somos muito preparados para desempenhar nossas funções”

Medo da morte

O número de baixas das tropas da coalizão bateu recorde em 2010. Foram mortos 711 soldados, dos quais aproximadamente um terço eram norte-americano. Esse número pode ser ainda maior em 2011, em função da morte de Osama Bin Laden, antigo aliado do governo talibã.  Mesmo com o ambiente de animosidade, Caiado afirma não ter medo de morrer durante os combates e ataques terroristas. “ Nunca fui uma pessoa de sentir medo de nada. Além disso, somos muito preparados para desempenhar nossas funções, estamos atentos a qualquer problema e conflito armado” afirma. A morte de Bin Laden, segundo ele, representa um aliado do terrorismo a menos para ser combatido, e dá mais confiança no trabalho militar no país.

Segundo ele, a ‘brasilidade’ é sempre difícil de manter num ambiente de conflito, e poucas vezes se reuniu com os outros soldados para confraternizar. “Joguei uma ‘bolinha’ um dia ou outro, mas não há tanta união entre os brasileiros no exército. Sempre que posso, falo com a família no Brasil e vejo as notícias do Brasil, mas trabalhamos muito, às vezes não dá tempo” afirma ele, que mantém uma carga horária de trabalho de 12 horas por dia.

Quanto ao futuro, ele planeja voltar aos EUA ainda esse ano para iniciar sua faculdade na Framingham State College, e continuar as atividades militares na Guarda Nacional. “ Ainda tenho muitos sonhos a serem conquistados. Mas espero sair daqui sabendo que contribui para melhorar a vida do povo afegão. É bom que as pessoas saibam que os soldados estão aqui para contornar essa situação” salienta o goiano.


Fonte: (da redação)