Publicado em 27/05/2011 as 12:00am

Imigrantes que vivem nos EUA com a cabeça no Brasil

Vivendo nos Estados Unidos mas com a cabeça no Brasil, boa parte dos brasileiros vivem divididos entre estes dois mundos, prejudicando a sua integração no país, e fazendo crescer a frustração por não estar lá

Por Murilo Silva


Segundo a ONU (Organização das Nações Unidas), em torno de 3% da população mundial vive em países diferentes daquele que nasceu, ou seja, são imigrantes, e cerca de 700 milhões de pessoas em todo o mundo tem vontade de imigrar permanentemente para outro país. E os EUA é o país mais desejado por candidatos a imigrar em todo o mundo. Os motivos para a imigração são variados, porém, o fator econômico é o que mais pesa na decisão espontânea de imigrar. Estatísticas não oficiais dão conta de que mais de dois milhões de brasileiros vivem hoje o sonho americano, trabalhando uma carga horária muitas vezes além do limite suportável, na busca de conseguir dinheiro para voltar ao Brasil, e não para fincar raízes nos Estados Unidos.

 

Brasileiros acreditam na felicidade futura

 

O perfil do imigrante brasileiro parece ser diferente dos de outras nações do mundo. Imigrantes de países como China e Índia, ou de regiões como o Oriente Médio, América Central e mesmo de outros países da América do Sul, imigram para os EUA de forma mais definitiva do que o Brasileiro, sem pensar tanto em voltar definitivamente para o país de origem. Talvez isto ocorra porque, segundo outra pesquisa (Fundação Getúlio Vargas), o brasileiro é o povo mais confiante do mundo em sua felicidade futura, mesmo que o agora não esteja trazendo a felicidade esperada. Ou seja, somos confiantes em que vamos ser muito felizes no futuro, e a felicidade, para o brasileiro que está aqui nos EUA, parece ser o fato de voltar viver as coisas do Brasil. Outros países, como os citados anteriormente, não tem o conjunto de recursos naturais do Brasil, ou até mesmo a liberdade e a alegria do brasileiro. Esta somatória de fatores faz com que o brasileiro tenha, aparentemente mais do que os outros povos, esta grande saudade e vontade de voltar ao Brasil. É claro que a questão da falta de documentos também é fator decisivo na tomada de decisão de voltar, mas que também afeta as outras comunidades.

 

“Quando você vai voltar ao Brasil?”

 

Este quadro, faz com que a maior parte dos brasileiros que vivem nos EUA fiquem divididos entre aqui e lá. Trabalham aqui, mas o pensamento está no Brasil, moram em outro país mas só convivem com brasileiros, ligam a televisão na rede elétrica americana mas sintonizam os canais brasileiros, comem os sabores do Brasil respirando o ar estrangeiro. Enfim, estão aqui, mas a cabeça está lá.

Quem nunca escutou a pergunta: “Quando você vai voltar para o Brasil?”. Ela sintetiza o sentimento da maior parte dos brasileiros, e talvez explique o por quê do não envolvimento maior de nossa comunidade no cotidiano americano ou mesmo na luta pela legalização. Isto cria uma distanciação cultural e dificulta a integração, fechando um ciclo vicioso onde a vontade de ir embora gera a falta de integração e vice-versa.

Não é difícil encontrar brasileiros que vivem na América há mais de 10 anos e ainda não falam inglês, ou que continuam consumindo somente em lojas brasileiras. Gente que veio para ficar dois ou três anos e já estão por aqui há mais de uma década. E o que é ainda pior, pessoas que tiveram a chance de se documentar e não o fizeram porque iam voltar ao Brasil, mas ainda continuam por aqui. E ainda existem os casos daqueles que estão sempre “indo no fim do ano”. Casos que todos vemos no dia-a-dia, que fazem parte de nossa realidade, mas que de nenhuma forma denigre a nossa imagem, mas ressalta o fato de sermos brasileiros.

 

Conseguindo o perdão do Juiz

 

Uma história engraçada aconteceu com Fábio Passos, há onze anos vivendo no país. Praticamente desde que chegou aos EUA ele trabalhou em dois empregos, nos dois se relacionando somente com brasileiros e sem tempo para estudar inglês. Depois de dez anos, já documentado e trabalhando em um caminhão, foi parado por uma infração de trânsito, e alegou para o policial que não falava inglês, resultado: além da multa pela infração ainda levou outra por desacato de autoridade. Na corte, o juiz perguntou para ele como era possível que uma pessoa vivesse por dez anos nos EUA e não falasse inglês. Com o auxílio da tradução de seu filho, ele explicou que tinha família e precisava de trabalhar muito para que seus filhos pudessem estudar e que não sobrou tempo para estudar inglês. Admirado, o Juiz tirou todas as multas. Segundo Fábio, nem todos os brasileiros tiveram a sorte de ter empregos em que pudessem aprender inglês ou tempo para estudar o idioma. Ele acabou de aplicar para a cidadania americana, mas sempre pensou e pensa em voltar para o Brasil, ele não consegue ver os EUA como o país em que ele quer passar o restante de seus dias.

 

“Quero ver cachorro passeando solto na rua”

 

Gostar ou não de viver nos Estados Unidos não é fundamental para tirar os pensamentos do Brasil. O casal Edicélia e Edmilson Godoy é um exemplo disso. Ele gosta de viver aqui, ela não. Porém, os dois quevem voltar e vivem com os pensamentos no Brasil. Edmilson alega que seus investimentos estão lá, mas que a vida aqui é muito melhor, que o acesso a novas tecnologias aqui é mais fácil, que o Brasil ainda está muito atrasado em algumas áreas. Já Edicélia alega que quer sentar em uma mesa na beira da calçada e comer uma pamonha quentinha feita na hora, ver crianças brincando alegres na rua e cachorro passeando solto. Coisas simples, mas que para ela fazem toda a diferença em viver bem. Com uma filha americana e um filho brasileiro, os dois querem que a família volte a viver no Brasil. Os dois tem planos para voltar no próximo ano e pretendem ir de uma forma não convencional. O casal tem um motorhome ou RV (Recreational Vehicle), do tamanho de um ônibus, com todos os confortos de uma casa, e pretende ir rodando de volta ao Brasil, uma aventura já sonhada há algum tempo.

 

Viver a realidade

 

Diante do impasse, o melhor mesmo parece ser a aceitação da condição de imigrante, e não abrir mão de viver bem também no presente, que é o agora nos Estados Unidos. Para aqueles que querem um dia voltar, é melhor planejar a volta ao Brasil de forma realista como parte de um plano do futuro, não confundindo com o tempo presente. Assim, ao colocar cada coisa em seu devido tempo e lugar, evitamos nos desgastar psicologicamente e sofrer sem necessidade.

Fonte: (da redação)