Publicado em 7/07/2011 as 12:00am

Ativistas e membros da comunidade comentam prisão de Lizandra

A brasileira Lizandra de Moura, 18 anos, foi preso no mês de maio, mas até hoje a sua história é motivo de discussão entre ativistas, imprensa e a comunidade

Por Luciano Sodré 

 

A brasileira Lizandra de Moura, 18 anos, foi preso no mês de maio, mas até hoje a sua história é motivo de discussão entre ativistas, imprensa e a comunidade em geral. Durante uma declaração emocionada, ela relatou que se sentiu como um animal nas mãos do policia que a prendeu porque ela estava dirigindo sem “Driver´s License” (carteira de habilitação), na cidade de Boston, em Massachusetts.

Devido a cidade de Boston ter um acordo com o Immigration and Customs Enforcement - ICE, a brasileira foi presa e entregue nas mãos de agentes da Imigração. Agora, por ter sido presa dirigindo sem carteira, ela enfrenta processo de deportação.

Lizandra chegou aos Estados Unidos ainda criança e depois da prisão foi obrigada a andar com uma tornozeleira eletrônica, que a monitora por onde quer que vá.

A prisão e provável deportação de Lizandra reascendeu as discussões em torno das falhas e insegurança que o programa “Comunidades seguras” traz para as regiões que o adotam. Alguns membros da comunidade brasileiros em Massachusetts foram ouvidos pela reportagem do jornal Brazilian Times e falaram o que pensam.

Beto Moraes, jornalista e diretor do site www.betomoraes.com

“Apesar do estado de Massachusetts ter dito não ao programa, todos sabemos que a cidade de Boston adotou este programa há cerca de 3 anos e desde então muitos imigrantes têm sido alvo de prisões e deportações sem serem criminosos. Em minha opinião, os ativistas que lutaram para impedir que o Governador Deval Patrick assinasse a parceria com o programa, devem fazer uma pressão em torno do prefeito Thomas Menino, no sentido de que ele cancele este programa. Recentemente no livro publicado pelo ativista Álvaro Lima foi demonstrado que os brasileiros e haitianos recolhem, anualmente, mais de 2 milhos de impostos em Massachusetts e este fator deveria contar no tangente ao respeito pelas comunidade, pois apesar de indocumentada ela contribui para o crescimento da região onde vive. Escutei o presidente do país, Barack Obama, falar que lutará para que uma reforma venha ser aprovada e beneficie os jovens imigrantes que querem trabalhar e ajudar os EUA crescer. Ai acontece um caso como este, onde uma brasileira é presa e colocada à mercê da sorte, sem saber se vai ou não ser deportada. Isso nos faz desacreditar no governo federal e colocar em cheque a sua autoridade no país”.

Eduardo Oliveira, jornalista e blogueiro (oglobo.globo.com/blogs/brasilcomz)

“A prisão de Lizandra e o fato de ela ter sido colocada em processo de deportação mostra claramente o que os ativistas vinham pregando ao longo de seus manifestos contra o programa Comunidades seguras. Existem falhas e a resposta do Comissário de Polícia de Boston, Eduard Davis, significa duas coisas - ou que ele está mentindo ou que existe racha na polícia em relação ao programa. O comissário disse que estava desapontado, pois o programa existe apenas para prender criminosos violentos e não pessoas que trabalham e querem ajudar o país. Outro ponto que eu acho importante nesse caso é que o brasileiro está ligado em todos os cantos do país. Onde quer que nós formos, encontraremos brasileiros. Agora uma brasileira é o centro de um novo debate nacional sobre o assunto. O Caso Lizandra prova que o governador Deval Patrick acertou em não assinar a parceria com o programa, alegando que ele traria prejuízos econômicos, promoveria uma onda de racismo e insegurança na comunidade. Agora, se soltarem ela para que ela responda o processo em liberdade, com certeza enfraquecerá o lobby pela aprovação do programa. Mas caso ela venha ser deportada, será como se as autoridades estivessem desafiando os ativistas que se manifestaram contra o Comunidade Segura. O que eu espero é que este incidente aqueça os ânimos dos ativistas e assim como eles pressionaram o governo do estado, façam a mesma coisa com o prefeito de Boston“.

Jorge Costa, Ativista político e membro do CRBE

Está mais do que claro que este programa não traz segurança alguma para as comunidades. Pelo contrário, ele promove insegurança e medo, pois onde ele já está sendo executado, os imigrantes temem denunciar crimes, pois podem passar de testemunhas para réus. Na minha opinião, o Comunidade Segura não tem objetivo algum e está destruindo milhares de famílias por onde ele é implantado. Nós, os ativistas, devemos continuara nossa luta para evitar que este tipo de programa se propague por outras cidades do estado. Me lembro que uma vez questionei um diretor do ICE para que ele me mostrasse um balancete de quantos criminosos violentos foram presos através do programa e ele não teve resposta, pois todos nós sabemos que o Comunidade Segura prende em sua grande maioria pessoas que não representam perigo para a comunidade.

Ilton Lisboa, ativista e radialista

“Eu já abordei o assunto em meu programa de rádio e especialistas no assunto afirmaram que as pessoas estão fazendo confusão e usando o programa Comunidade Segura para justificar as prisões realizadas por policiais racistas e anti-imigrantes. Eu acredito que maior parte das prisões de imigrantes que são entregues nas mãos do ICE é motivada por racismo e não porque o polícia está seguindo o programa. O Comunidade segura é usado apenas para prender criminosos violentos. O que nós precisamos entender é que quando um policial faz uma prisão, por lei ele deve fornecer os dados do preso para um sistema que contacta todos os órgãos (FBI, Imigração, etc). Esse tipo de checagem de um preso é ordem federal e deve ser cumprida. Agora se constar que o detido tem uma ordem de deportação ou uma corte não comparecida, é lógico que ele responderá por isso. Depois de constatado que o preso tem algum problema com algum órgão federal, nem o chefe de polícia da cidade onde ele se encontra tem o direito de liberá-lo. O que as pessoas devem tom ar consciência é que existem policiais que não gostam de imigrantes e sabem que se o prenderem, seus dados serão jogados no sistema e com isso pode até resultar em deportação. Não devemos criticar o Comunidade Segura pelos atos de alguns policiais racistas. Outro ponto importante é que não adianta os manifestos contra o programa, pois isso é uma lei federal e quer o Governo assine ou não, ela será implantada até 2013. As pressões so servem para mostrar a força da comunidade, mas quanto ao Comunidade Segura, nada pode-se fazer, pois a esfera federal determinou que ela será implantada. O que os ativistas devem fazer e procurar um meio de fiscalizar as prisões de imigrantes e tentar saber os métodos que elas estão sendo executadas. Vamos denunciar policiais anti-imigrantes e pressionar para que eles façam apenas prisões de criminosos violentos.

Claudia Tamsky, ativista e diretora do Núcleo do Partido dos Trabalhadores nos Estados Unidos

O que aconteceu com a Lizandra é a coisa mais deprimente e mostra que a cidade de Boston caminha no sentido contrário ao do Estado. Este programa promove a insegurança e deixa a comunidade mais vulnerável aos crimes e à impunidade. A prisão desta jovem brasileira é a prova mais forte de que o programa está e será aplicado de forma errada. Algumas pessoas tentam vender a idéia de que o Comunidade Segura é apenas para prender criminosos violentos. Isso é uma mentira e todos os dias tomamos conhecimento de trabalhadores e famílias destruídas nas regiões onde este programa já  é aplicado. Imaginemos que um policial pegue um trabalhador que tenha entrado pelo México, pego pela imigração na fronteira e tenha uma corte não comparecida. A pergunta é: será que este policial liberará o imigrante trabalhador ou o entregará nas mãos da imigração? Temos que repudiar este tipo de programa e mostrar que é uma vergonha para as regiões que o adotam. Não á como aceitar que o estado tenha recusado a participar de um programa considerado anti-imigrante e a sua capital (Boston) continua com a parceria. Devemos nos unir e fazer manifestos, ir diante da prefeitura e mostrar nossa indignação com o prefeito Thomas Menino, que é descendente de imigrante“.

Pastor Walter Mourisso, membro do CRBE

“Desde o início eu fui contra o programa e sempre preguei que ele traria a destruição para os lares dos imigrantes. A prisão desta jovem só reforça as minhas palavras e mostra que está mais do que na hora dos governantes deste país sentarem para discutir, realmente, o futuro da comunidade imigrante nos Estados Unidos. Mas para que isso aconteça, é preciso que os ativistas e a comunidade continue realizando os manifestos e mostrando  a sua força. Sou sabedor que temos uma influência muito grande nas decisões políticas deste país, pois se assim não o fosse, o assunto reforma imigratória já teria entrado no esquecimento. O que precisamos fazer é aproveitar este poder que está em nossas mãos e reivindicar os nossos direitos. Os imigrantes que já estão legais no país devem se unir e mostrar que estão do lado da reforma e contra qualquer programa que venha promover o medo e insegurança nas comunidades. Temos que fazer nosso papel, pois um dia já fomos indocumentados e alguém brigou pelos nosso direitos.

Fonte: (da redação)