Publicado em 15/07/2011 as 12:00am

Brasileiros relatam como é ser um músico nos EUA

Entre desafios e adversidades, alguns brasileiros escolheram viver o famoso 'sonho americano' trabalhando com aquilo que mais amam, a música

Por Larissa Gomes

Viver da profissão de músico não é das tarefas mais fáceis, mas há quem consiga. Optando por viver o famoso ‘sonho americano’, e garantir uma melhor qualidade de vida e um leque mais amplo de oportunidades para a carreira, muitos músicos brasileiros optam em se mudar para os EUA, e realizar um investimento pessoal e profissional naquilo que mais amam trabalhar, indo de encontro com as tradicionais profissões dos imigrantes do país, e muitas vezes, enfrentando dificuldades e preconceitos oriundos das próprias comunidades brasileira e americana.

David Ramos, 48 anos, natural de São Paulo e residente em Malden, nos EUA há 5 anos, é um exemplo de brasileiro que consegue fazer da música o seu ‘ganha-pão’. Ele conta que veio tentar a profissão na América por estar cansado da noite paulistana, e que em Boston teve a chance de ter aulas na Berklee School Of Music, renomada escola americana de música, considerada uma das melhores do mundo.

David é formado em composição e regência pela Fundação das Artes e pela Universidade Livre de Música, ambas em São Paulo. Segundo ele, ter formação em música é, sem dúvida, um diferencial para a profissão. “Também é importante ter uma carreira sólida e se dedicar diariamente, sempre praticando e aprendendo” afirma. Atualmente, David trabalha em seu próprio estúdio, em casa, dando aulas de violão, teclado e musicalização infantil, além de fazer shows. "A música é mais do que diversão para mim, pois é com ela que consigo meu sustento. Existem músicos que trabalham na construção, entregam pizza, enfim, tem a música como ‘part-time’. Isso cria um problema no setor, porque eles acabam tirando nosso espaço no mercado de trabalho, devido aos donos de casas de shows não estarem preocupados com qualidade, e sim com o preço" afirma David.

Ele diz que a competição com os músicos que não são profissionais é uma das maiores dificuldades na trajetória e conta, ainda, que os empresários brasileiros do país não valorizam um bom profissional como deveriam.  Por outro lado, ele afirma que os americanos valorizam os bons músicos e execuções de qualidade, e não se importam em pagar mais por isso.

Ainda segundo o músico, os brasileiros residentes em Massachusetts não conhecem muito sobre música brasileira e a preferência de gênero musical tocado nas casas de shows normalmente fica centralizado no estilos Sertanejo e Forró. Por essa razão, segundo ele, não são poucos os músicos que deixam o estado e tentam seguir carreira em Nova York ou na Califórnia, por exemplo. "Os norte-americanos apreciam nossa música, gostam de samba de raiz e MPB, além de gostarem também de ver as passistas sambando e outras características folclóricas e tradicionais da nossa cultura" afirma, pontuando que o público-alvo da sua música fica restringido à um público majoritariamente norte-americano no estado.

David deixa um recado aos iniciantes na música. "Se deixem envolver pela música, mergulhem de cabeça nela e aprendam. Não queiram extrair os privilégios que a profissão oferece, como dinheiro e fama, isso é consequência  e, certamente, vocês serão gratificados por serem bons músicos. Aprendam antes, e depois colham os frutos, nunca o contrário, isso só trará frustração".

Companheira de David Ramos na banda "Samba no Pé", Cláudia Aleixo, 30 anos, natural de São Paulo e residente nos EUA há 10 anos, tem a música correndo nas veias desde os nove anos de idade. Quando ainda criança, admirava o pai tocando acordeon e violão, mas somente há 2 anos, iniciou a carreira musical profissionalmente. "Sempre gostei de arte de um modo geral, e tive muitas oportunidades ao longo da vida, mas nunca pude abraçar a carreira, tive algumas mudanças bruscas que me impediram de trabalhar com a música. Vim morar nos EUA aos 20 anos, casei e tudo ficou mais difícil. Hoje estou estudando, tenho aulas de canto com uma professora da Berklee" afirma ela.

Segunda Cláudia, tudo começou quando ela estava participando de um Karaokê em um restaurante brasileiro e lá conheceu David Ramos.. "Ele era do corpo de jurados e gostou de me ver cantando, me chamou para fazer parte da banda e eu aceitei. Desde então tenho levado a música mais a sério, mas não deixei de lado minha companhia de limpeza, embora hoje eu dê mais atenção à música, que é a minha verdadeira paixão”. Para ela, ainda não é possível fazer da música a principal fonte de renda, mas isso não parece ser um problema, apenas lamenta não ter iniciado a carreira profissional anteriormente.

Música não é sinônimo de dinheiro, pelo menos para Adauto Calheira, 42 anos, natural de Itabuna - BA e residente há 8 anos em Sairfilld (CT). "Toco violão e teclado desde os 18 anos de idade. Aprendi a tocar sozinho, chegava da escola de noite e treinava. Sempre achei bonito ver meu pai tocando acordeon e ele foi a minha inspiração para a música," revela Adauto, que atualmente dá aula de música na igreja em sua cidade e não cobra mensalidade. Segundo ele, os alunos pagam apenas U$ 20,00 pelo material e nada mais.

Ross Jackson, 37 anos, residente há mais de 30 em Arlington (MA) e integrante da banda “Black Dragon Orchestra”, conta que é mais fácil ganhar na loteria do que ficar rico sendo músico nos EUA. Ross despertou para a música ao 13 anos de idade e começou a carreira aos 21. "Em 1999, a histórica casa de shows CBGB, em Nova York, nos chamou para tocar, após termos enviado um CD com músicas da nossa banda, mas não deu muito certo. Levo a música como um hobby, tentando fazer disso, uma profissão," diz ele.

Segundo Ross, as gravadoras não oferecem muitas oportunidades a novos músicos, a menos que elas tenham certeza que será sucesso, e a única maneira de fazer música é sendo "cover", ou seja, cantando sucessos de outras bandas famosas, do contrário, somente com contratos em gravadoras.


Fonte: (da redação)