Publicado em 1/08/2011 as 12:00am

Brasileiro faz 110 anos com um século residindo nos EUA

Filho de um brasileiro com uma norte-americana, Bernando La Palla deixou o Brasil em 1905, aos 4 anos, para imigrar para os EUA. No próximo dia 17, ele completa 110 anos

Por Marcelo Zicker


No ano passado, o Brazilian Times noticiou a existência de um brasileiro que reside há mais de um século nos EUA. Natural de Vitória, no Espírito Santo, Bernando La Palla, completa no próximo dia 17 de Agosto, 110 anos de idade, e impressiona pela saúde e disposição, que inclusive virou assunto de um livro sobre bons hábitos de vida. Contatado essa semana, ele falou diretamente de onde reside, em Mesa – Arizona, em conversa em que explicou a sua relação com o Brasil, as dificuldades ao chegar aos EUA, e sobre a possibilidade de divulgar o seu livro e história no país em que nasceu.

Filho de um brasileiro com uma norte-americana, ele deixou o Brasil ainda criança para morar em New York, junto com sua família. Com uma saúde surpreendente, e lúcido em sua argumentação durante a entrevista, ele é um exemplo de preocupação com a qualidade de vida, já tendo escrito dois livros sobre os cuidados que devemos ter com os nossos hábitos diários, e também ministrando palestras sobre o assunto.

Vivendo há mais de 100 anos nos EUA, ele demonstra grande satisfação ao falar do Brasil e suas poucas lembranças da infância, embora tenha esquecido por completo como falar português. “Já pedi para uma amiga brasileira selecionar algumas fitas cassete para eu ir escutando e aprendendo novamente” revela o capixaba, que teve 3 filhos, sendo que o mais velho morreu há 3 anos de  causas naturais devido à avançada idade.  Para manter uma boa saúde ele garante que se alimenta apenas de frutas, vegetais, sucos e sopas à base de cevada, fala ressaltando que não come carne vermelha. Associada à alimentação,  a caminhada diária também auxilia na manutenção de seu sistema imunológico.

Ao falar das lembranças do Brasil, ele admite que apenas se lembra de sua cidade natal, Vitória, vagamente. “Eu vim para os EUA em 1905, quando estava com apenas 4 anos de idade. Infelizmente,  não tenho muitas lembranças, com exceção de uma que ainda é bem forte em minha mente. Quando eu ainda era uma criança,  voltamos de férias ao Brasil, e meu pai me levou para conhecer a casa em que morávamos antes de imigrar, em Vitória – ES. Fizemos uma viagem de trem muito bonita, do Rio de Janeiro até a capital do Espírito Santo, que era movimentado pela queima de café e não de carvão.  Foi um trajeto com imagens inesquecíveis do Brasil, que ainda não saem da minha memória. Vitória era uma cidade muito pequena e quase uma aldeia” afirma ele, que sempre relata a amigos que ‘Copacabana, no Rio de Janeiro, é a praia mais bonita que já conheceu em sua vida’.

Ao chegar no país numa época com leis de imigração pouco estabelecidas, a legalização de Bernando e de seu família se deu facilmente, pouco tempo após desembarcar. “ Nem mesmo passaporte existia” afirma ele. “ Meu pai veio estudar medicina, e minha família tinha uma boa condição financeira. Naquele tempo não existia essa perseguição implacável que existe hoje com a ilegalidade, mas sim uma barreira forte da língua e o embate de costumes. Bastava estar aqui e começar a trabalhar e constituir uma base familiar para fazer parte dessa nação. Meu pai sempre foi muito rígido com o aprendizado do inglês, e desde então, nunca tive oportunidade suficiente para praticar o português” confidencia.

 

Visitar o Brasil após mais de 100 anos, seria a realização de um sonho” afirma Bernando

 

Após vivenciar duas guerras mundiais, o Macarthismo, Depressão de 30, revoluções tecnológicas e industriais, passando por épocas de muita repressão racial, étnica e social, Bernando afirma nunca ter sido vítima de preconceito racial ou étnico. Foram épocas complicadas, mas eu nunca vivenciei nenhum problema de discriminação porque cheguei muito criança, e fui criado como um americano desde então. A história foi muito dura em vários lugares dos EUA, onde a predominância de um sentimento sectário era mais forte, mas felizmente nunca fui vítima de divisão racial, mesmo sendo negro. Estudei em Paris para ser Podiatrista ( profissional que cuida dos pés)  e tive uma carreira de muito sucesso na profissão, então sempre fui muito respeitado. Além disso, nunca me coloquei na situação de imigrante e negro, sempre me vi com igualdade frente às pessoas que me rodeavam. Acho que é assim que os brasileiros devem se enxergar perante essa sociedade. Estamos numa nação conhecida por trabalhar em cima dos valores da democracia, é assim que devemos enxergar os EUA, mesmo que isso não se faça presente em muitos momentos” disse Bernando, que chega a citar as recentes leis de combate aos imigrantes apresentadas em diversos estados ao longo do país. “ Quem estudou a história dos EUA, sabe que esse país se construiu através dos imigrantes e o Arizona foi um dos últimos territórios a serem oficialmente elevados à categoria de estado. Eu vivenciei toda a influência dos imigrantes aqui, e não concordo com essa atitude discriminatória e que pode fomentar muito preconceito no estado. Apesar de não concordar com uma anistia geral, que na minha opinião vai de encontro com o meu conceito de democracia e respeito às leis, eu não concordo que um estado que tem raízes muito fortes com os imigrantes e que quase não pertenceu à este país na época, sendo o último a ser agregado como estado,  faça essa perseguição desleal e desumana contra pessoas que estão aqui para ajudar a manter a força dos EUA como nação” afirma ele, citando o estado em que vive, e que protagoniza recentes demonstrações anti-imigrantes no meio político local.

Sobre a possibilidade de divulgar o livro ‘Age Less, Live More’, sobre o segredo da longevidade, no Brasil, ele avalia dizendo que seria realização de um sonho. “Eu demorei um ano pra escrever o livro, e me sinto muito orgulhoso com o resultado. Espero que um dia eu possa levar a minha ‘receita’ para os conterrâneos brasileiros” afirma ele, que conta com uma amiga brasileira, Mara Bedner, que auxilia Bernando a divulgar os seus projetos e livros. Para quem deseja saber mais sobre o livro de Bernando e sobre a sua história, pode visitar o seu blog http://agelesslivemorestore.com.  Ele também está no livro dos recordes, como o blogueiro mais velho do mundo.

Fonte: (da redação)