Publicado em 26/08/2011 as 12:00am

Estudantes trocam faculdade pelo subemprego

Sem os documentos necessários para poder continuar os estudos, os filhos de imigrantes que terminam o ensino médio (high school em inglês) rapidamente abandonam o sonho da escola pela dura vida do sub-emprego.

Por Eurico Ferreira 

Sem os documentos necessários para poder continuar os estudos, os filhos de imigrantes que terminam o ensino médio (high school em inglês) rapidamente abandonam o sonho da escola pela dura vida do sub-emprego.

Sthenio Maciel, de 21 anos, é um exemplo dessa realidade. Natural de Conselheiro Pena, em Minas Gerais, Sthenio e a irmã, Joyce, chegaram aos Estados Unidos há 11 anos para se juntar aos pais que já moravam aqui. Aluno dedicado,  Sthenio formou-se na High School em 2008, com planos de continuar os estudos e fazer Ciência da Computação. Passados três anos, Sthenio trocou os laboratórios e os cálculos científicos pela enxada e a pá de pedreiro. “Trabalho com demolição, na construção civil”, revela, “mas ainda sonho em fazer faculdade.” A irmã de Sthenio, Joyce, voltou no mês passado para o Brasil, a fim de cursar Comércio Exterior em alguma faculdade brasileira.

A legislação americana não impede os estudantes indocumentados de fazer uma faculdade. Porém, a falta dos papéis torna praticamente impossível ao imigrante seguir adiante na carreira. “É preciso muito, muito dinheiro para cursar uma faculdade sem o financiamento do governo”, explica Karina, que só aceitou ser entrevistada na condição de que seu sobrenome não fosse publicado.

Aos 18 anos e cursando o último ano de High School, Karina pretende estudar Direito, mas sabe que será difícil por causa da falta de documentos. Sem nunca ter trabalhado, ela faz planos de juntar dinheiro trabalhando em alguma loja brasileira.  “Ainda não decidi, mas começo a pensar em ir para a Europa continuar os meus estudos”, diz.

Roger do Santos, que cursa o terceiro ano de High School, sonha em fazer Música na Berklee, a conceituada faculdade de Boston. Talentoso no teclado, que exercita regularmente nos eventos de sua igreja, Roger não tem condições de se dedicar unicamente aos estudos, por isso divide seu tempo entre a música e as pizzas do Papa Gino’s, onde trabalha diariamente. Com o dinheiro que ganha na pizzaria, paga uma escola particular a fim de aperfeiçoar suas aptidões artísticas. “Não quero parar de estudar”, confessa, “se não der na Berklee, pode ser outra faculdade, mas quero continuar estudando.”

A única chance que esses estudantes têm para que possam continuar na escola é a aprovação, pelo Congresso americano, do “Dream Act”. A proposta, que tramita no Congresso desde 2001,  garante aos estudantes indocumentados a residência permanente (“green card”) e o acesso aos financiamentos públicos. Em dezembro do ano passado, a proposta chegou a ser aprovada na Câmara, mas caiu no Senado por apenas cinco votos. Em maio deste ano, a proposta foi reapresentada pelo senador democrata Harry Reid (Nevada).

“A proposta vai ser aprovada”, acredita Renata Teodoro, integrante do Student Immigrant Movement (SIM), entidade de Massachusetts que luta em prol dos interesses dos estudantes indocumentados. Segundo ela, a aproximação das eleições presidenciais de 2012 e a pressão dos grupos latinos obrigará o presidente Barack Obama a ceder em benefício dos estudantes. “Ele não vai ter alternativa, porque vai sofrer pressão de todos os lados”, conclui.

Fonte: (da redação)