Publicado em 23/09/2011 as 12:00am

Crise no CRBE chega ao Itamaraty

Para alguns líderes, o Conselho pode estar com os dias contados

Por Luciano Sodré

Os indícios de que o futuro do Conselho de Representantes dos Brasileiros no Exterior – CRBE não terminaria bem, podia ser previsto antes mesmo de acontecerem as eleições. Candidatos se ofendendo mutuamente, atacando familiares, apontando erros ao invés de ideias. Enfim, para muitos a preocupação não era com os brasileiros que vivem fora do Brasil, e sim com o ego de cada um.

O Conselho, criado no Governo Lula para representar milhões de brasileiros conseguiu reunir pouco menos de 2% do eleitorado brasileiro no exterior – mesmo o voto podendo ser dado em casa, pelo computador – ou na casa de amigos. Um exemplo é o grupo nos Estados Unidos, onde residem mais de 2 milhões de brasileiros e alguns dos eleitos tiveram pouco menos de 400 votos.

Logo após a posse, iniciou-se uma batalha entre titulares e suplentes, onde a houve até a mesquinhez de brigar para não viajar em segunda classe com dinheiro pago pelo governo brasileiro. Brigas pelo modelo como eram confeccionados os cartões de visitas dos titulares e até mesmo reuniões para impedir que os suplentes pudessem contribuir com ideias. Este tem sido o panorama do CRBE até o momento.

Titulares gastaram horas e horas, dias e dias, meses e meses brigando com suplentes e esqueceram do verdadeiro objetivo – cuidar dos brasileiros no exterior. Até o momento não é possível enumerar uma conquista se quer deste conselho e todas as atividades feitas este ano pelo Governo Brasileiro no exterior, já estavam previstas antes do CRBE acontecer ou foram solicitadas por outras entidades no passado.

Nestes dois últimos meses, parece que a crise realmente se instaurou no CRBE, pois depois dos titulares tentarem sem sucesso excluir o jornalista Rui Martins do quadro de suplente, agora o próprio Itamaraty entrou na briga e exige postura mais série e compromissada com a ética por parte dos membros, principalmente os titulares.

Em uma carta enviada ao presidente do Conselho, Carlos Shinoda, o Chefe da Divisão das Comunidades Brasileiras no Exterior, Aloysio M. D. Gomide Filho, critica a posição da titular Ester Sanches Naek ao criticar o CRBE e pelo que tudo indica, depois de tentarem expulsa Rui, agora querem excluí-la.

Apesar de não citar que haverá punições contra ela, o chefe tece como severas as declarações feitas por ela.

Devido às ações “arbitrárias” que vem sendo desenvolvidas pela maioria dos titulares do CRBE, segundo o membro/suplente, Rui Martins, um grupo formado por suplentes, líderes comunitários e religiosos, empresários, parte da mídia comunitária e membros da comunidade estarão se reunindo nos dias 5, 6 e 7 para discutirem sobre os benefícios e prejuízos do CRBE.

O jornalista Rui Martins, ministrará uma palestra sobre a criação do Estado do Emigrante, que trabalhará sem vínculo com o Itamaraty e atuando diretamente com os brasileiros no exterior.

Em sua carta encaminhada, a Conselheira Ester se declara uma descrente em relação aos reais objetivos para o qual o CRBE foi criado e dá indícios de que pretende abandonar o grupo para atuar em outros caminhos mais produtivos e que realmente tragam benefícios para a comunidade.

Para responder às palavras de Ester, o chefe Aloysio afirma que o CRBE foi criado com ampla autonomia e não há espaço para que o Ministério das Relações Exteriores – MRE interfira.

Apesar de Aloysio lamentar as palavras de Ester, para alguns, isso significa que o MRE lavou as mãos para uma possível crise que está se instaurando em um Conselho que em menos de um ano de criação já apresenta muitos problemas e discórdias.

Em uma das críticas à Ester, a carta a acusa de não estar se dedicando ao cumprimento do seu mandato e que ela deve se unir aos demais membros do CRBE para trabalhar junto com o grupo.

Veja o que pensam alguns membros do CRBE na América do Norte

 

O pastor evangélico, Walter Mourisso, que é membro/suplente do Conselho, afirma que enquanto houver jogos de interesses pessoais, o CRBE não funcionará. Para ele, o Itamaraty já deve ter percebido que o grupo não trabalha unido e por isso não opina sobre as discórdias existentes. “O que preciso acontecer é que todos sentem e comunguem os mesmos ideais. Cada um quer defender suas próprias idéias e não aceita sugestões dos outros membros”, fala salientando que isso é que está destruindo o CRBE.

O ativista Jorge Costa, que também é membro/suplente do CRBE, resume o panorama do CRBE como apenas uma frase: “ainda não houve a união que deveria acontecer”. Para ele, os suplentes também deveriam participar do Conselho, pois desta forma existiriam mais cabeças para pensar e muitas ideias para discutir. “Não achei certo que os 16 titulares deixassem de lado os 16 suplentes, pois já que o cargo não é remunerado, pois que não 32 conselheiros ao invés de 16. Nós temos uma comunidade enorme morando no exterior e eu acredito que 32 pessoas cuidando destes milhões de brasileiros já considero pouco, imagina só 16”. Infelizmente estas brigas, picuinhas e jogo de interesses pessoais fizeram com que o CRBE caísse no descrédito da comunidade. “Existem titulares compromissados com os seus reais objetivos, mas existem outros que só queriam o cargo para promover a própria imagem”.

O pastor Silair Almeida, membro/titular do CRBE, disse que acredita muito no Conselho e que tudo o que a conselheira Ester criticou em sua carta, foi por terra com as respostas, em forma de carta aberta à comunidade, divulgada pelo Itamaraty. Eles responderam ponto por ponto, mostrando que Ester está errada. “Será que o que ela disse é verdade ou é fruto de um desabafo pessoal?”, indaga. Para o conselheiro, Ester não deveria ter escrito uma matéria tão contundente e utilizar palavras tão fortes para atacar o Itamaraty. Silair afirma que ela foi infeliz no uso de seus argumentos e que deveria ter pensando antes de escrever. Quanto ao CRBE, ele salienta que muitos trabalhos estão acontecendo em razão do grupo estar buscando junto ao governo brasileiro um apoio maior às comunidades no exterior. “Tivemos várias reuniões e todas nos trouxeram resultados bastante produtivos”. Silair destaca que, ao todo, existem 100 projetos com o Itamaraty, dos quais alguns já estão em execução e outros aguardando o momento certo. Ele cita o atendimento consular em Boston, que melhorou consideravelmente depois que os Conselheiros da América do Norte apresentaram a solicitação de melhorias no órgão. “Caso algum conselheiro não esteja agindo de maneira correta, cabe ao eleitor decidir e escolher quem ele acha o mais certo”. o pastor vai mais além em seus argumentos e diz que “talvez não os eleitos não sejam os que mais trabalham pela comunidade, mas foram os escolhidos pelo povo em um processo democrático e reconhecido pelo Governo do Brasil”.  Finalizando, ele fala que não é justo que tanto trabalho feito e tanta dedicação sejam apedrejadas desta forma.

Em relação a Secretaria de Estado do Emigrante, que algumas pessoas estão querendo criar, Silair acha que é justo as diferentes ideias e as pessoas se reunirem para discutir opiniões e novos rumos, mas salienta que “o CRBE foi criado como um instrumento de aproximação entre o Governo Brasileiro e as comunidades no exterior” e que a nova secretaria iria dificultar o trabalho e não ajudar.

O conselheiro Fausto da Rocha, também defende a ponto de vista de Silair, quanto ao fato de que o CRBE está caminhando para um futuro melhor  e salienta que o grupo ainda está no seu primeiro ano de formação e “há muito que aprender no sentindo de lidar com as burocracias e trâmites brasileiros”. Ele salienta que quem vive nos Estados Unidos está acostumado com assuntos resolvidos rápidos e “no Brasil as coisas anda de forma morosa”. Para o conselheiro, dizer que o CRBE não está fazendo o seu trabalho é o mesmo que não estar vendo o que está acontecendo em volta, “pois muitas atividades aconteceram e estão acontecendo em razão da interferência do Conselho”.  Fausto ressalta trabalhos como FGTS aos brasileiros no exterior, aproximação da Caixa Econômica e SEBRAE com as comunidades, o acordo previdenciário em fase de conclusão, entre outros. Quanto aos membros do CRBE, Fausto salienta que é preciso que haja mais reuniões, pois o grupo é formado por pessoas diferentes. “Como não há reuniões constantemente, alguns optaram por fazer suas reivindicações sozinhos e acabam perdendo a paciência diante da lentidão do governo em responder. Outro ponto que dificulta um trabalho em grupo é a carência de recursos, pois fica complicado um Conselheiro realizar constantes viagens pelos continentes em busca de conhecer a realidade de cada comunidade e junto com elas elaborar uma pauta reivindicatória. “Ainda falta experiência para alguns dos membros do CRBE”. Quanto a secretaria do emigrante, ele defende a ideia de que seria transferir um problema para outro lugar, pois se a critica é que o CRBE não estão fazendo nada, “o que aconteceria se as reivindicações fossem feitas por um grupo que não é reconhecido pelo Governo?” , indaga.

Fonte: (da redação)