Publicado em 12/09/2012 as 12:00am

Brasileiros falam sobre o dia do atentado

Na terça-feira (11), completou 11 anos que aconteceu o maior atentado terrorista da história contra os Estados Unidos. Conhecido como \"September 11\", a tragédia deixou milhares de pessoas mortas e derrubou as duas torres mais importantes do país - o Wor

Luciano Sodré

Na terça-feira (11), completou 11 anos que aconteceu o maior atentado terrorista da história contra os Estados Unidos. Conhecido como "September 11", a tragédia deixou milhares de pessoas mortas e derrubou as duas torres mais importantes do país - o World Trade Center, em New York.

Neste dia, milhares de brasileiros moravam no país e alguns presenciaram o fato. A equipe de reportagem do jornal Brazilian Times conversou com alguns brasileiros que já estavam residindo no país durante o atentado. Eles falaram como reagiram ao evento e quais os impactos para a comunidade imigrante.

Gessica Adriano, natural de Central de Minas (Minas Gerais), reside em Stoneham Massachusetts, mora nos Estados Unidos há 14 anos e trabalha em uma casa de Bagels: "Eu estava na Madison Park High School, Boston (Massachusetts). O professor de matemática foi quem nos avisou o que estava acontecendo, mas até então achávamos que se tratava de um acidente. Fiquei chocada e não entendia direito o que estava acontecendo. Quando saímos da escola havia alguns aviões da força aérea norte-americana sobrevoando a área de Boston. Foi muito assustador! Para mim, depois do 11 de Setembro, o Estados Unidos nunca mais foi o mesmo. Para nós, imigrantes, as coisa ficaram difíceis e surgiram leis para tornar mais rigorosa a nossa permanência neste país. Muitas portas foram fechadas e a polícia começou a nos perseguir mais. Os locais de trabalho começaram a exigir documentos legais. Sem falar da economia, que 11 anos depois ainda não conseguiu se recuperar.

Lenita Porto, natural de Santa Catarina, reside em Boston, está nos Estados Unidos há 11 anos e quatro meses, trabalha como housecleaner: "Eu e minha família estávamos em Lynn (Massachusetts), em uma oficina. Estava tudo estranho, as ruas vazias, pessoas com cara de espanto. Foi então que o mecânico perguntou se tínhamos visto alguma coisa na televisão sobre o atentado em New York. Ficamos perplexos com a notícia. Depois veio o pavor de estar nos EUA, o medo de um novo ataque, uma sensação terrível de medo. Eu vejo que depois do ataque tudo ficou mais difícil para o imigrante. A vida não é mais como era antes, quando não existia tantas perseguições e tantas leis para punir esta comunidade"

Daniela dos Anjos, natural de Ipatinga (Minas Gerais, reside nos EUA há 13 anos, mora em Malden (Massachusetts): "Naquele dia eu estava trabalhando na cidade de Belmont, quando meu patrão ligou e mandou eu assistir ao noticiário da televisão. Quando liguei as duas torres estavam sendo atingida. Eu não acreditava naquilo que estava vendo. Acabei de limpar a casa e fui pra Newton, morrendo de medo de que alguma coisa acontecesse com a gente aqui em Boston também. Meu telefone começou a tocar desesperado. Era a minha família no Brasil, preocupada, em saber se eu estava bem, pois eles não tinham noção de que eu estava longe de New York. Naquela época, não tínhamos tanta comunicação como Facebook, Orkut, entre outros. Era apenas o telefone, bem mais difícil. Ficamos trabalhando um bom tempo com medo de que algo mais acontecesse e ninguém queria ir trabalhar no centro de Boston por causa dos prédios enormes e de importância. Hoje, 11 anos depois, o que eu penso é que quem fez isso não prejudicou somente os norte-americanos, mas também os imigrantes, que tiveram as suas vidas mais dificultadas. A vigilância tornou-se maior, não houve nenhuma lei imigratória e a vida ficou estagnada. Eu, particularmente, não vejo mais graça em morar aqui. Apesar de estar estabilizada, hoje tenho minha própria companhia de limpeza, mas me sinto presa em um lugar que não é meu e por isso estou me preparando pra ir embora. Acho que a situação em que nos encontramos hoje é reflexo do que aconteceu no 11 de setembro de 2001"

Marilene Alves de Paiva, reside em Revere (Massachusetts), está nos Estados Unidos há 11 anos e trabalha como housecleaner: "Eu estava em North Andover, dentro de um carro, indo limpar uma casa quando ouvi pelo rádio. Eu e mais duas amigas ficamos ali paradas, sem ação. Muito triste mesmo. Para nós, o dia acabou naquele exato momento. Não estávamos acreditando. Eu cheguei no país dia 5 de maio do mesmo ano do atentado e até hoje, não entra em minha cabeça como podem existir pessoas tão más como foram aqueles terroristas. Parece que foi ontem que tudo isso aconteceu. O que podemos fazer é orar para as famílias que ficaram e pedir a Deus que proteja a todos nós neste país de qualquer tipo de maldade".

Sandra Mendes, natural de Anápolis (Goiás), reside em Boston (Massachusetts), está nos Estados Unidos há 16 anos: "Eu estava fazendo a primeira limpeza de uma casa Bolton (Massachusetts). Quando chegamos à casa, a dona estava apavorada, pediu que fossemos ver o que estava acontecendo na TV. Quando o segundo avião estava atingindo a segunda torre, eu estava grávida de um mês e coloquei a mão em minha barriga e perguntei: Meu Deus o que será de nós? Não podia acreditar no que estava vendo. Parecia um filme. Quando voltamos para casa, vimos nas ruas muitos policiais, soldados do exército e muito mais. Foi aí que demos conta de que estávamos entrando em uma guerra. A situação piorou mais ainda quando vimos o presidente George Bush anunciar o ataque ao Iraque. Isso me deu um pavor terrível e uma vontade louca de ir embora. Mas não podíamos, pois nenhum avião poderia levantar vôo. Jamais vamos esquecer aquele dia. Imigrantes de vários países sacando dinheiro nos bancos. Isso eu presenciei. Também naquele mesmo ano no Natal, os tips que as patroas davam como de costume reduziram em 80%. Parecia um protesto contra os imigrantes. Depois de um tempo voltaram ao normal, mas aquele ano sentimos uma certa discriminação em vários aspectos, principalmente na área de trabalho. Parece que somos olhados com outros olhos depois de tudo isso. Não sei se todos têm este mesmo raciocínio, mas foi assim que me senti".

Michele de Araújo, natural de São Paulo, reside em Newark (New Jersey), está nos Estados Unidos há 17 anos: "Eu estava trabalhando na Pizzaria Pugliese's, na Malvern Street, em Newark, as emissoras de TV estavam ligadas e naquele momento tudo parou. Não fizemos mais nada a não ser se abraçar e rezar. Estávamos com medo que pudesse chegar até New Jersey, já que New York, Pennsylvania e Washington foram atacados ao mesmo tempo. Existiam pessoas que tinham entes queridos que trabalhavam nas torres e estavam sem comunicação. Passados 11 anos dos atentados, a segurança do país mudou muito, principalmente em relação a nós, imigrantes. Antigamente podíamos viajar sem que alguém olhasse torto para nós, trabalhávamos com mais tranquilidade, tínhamos o verdadeiro livre arbítrio que esse país oferece. Não tínhamos medo de sairmos às ruas e sermos apreendidos sem dever nada".

Gladston Reis, natural de Anápolis (Goiás), reside em Marlborough (Massachusetts), é radialista e está nos Estados Unidos há cerca de 18 anos: "Neste dia, eu estava em minha casa, na cidade de Framingham (Massachusetts). Fiquei sabendo da notícia através da rede de notícias CNN. A princípio fiquei sem entender. Seria alguma cena de filme que estaria sendo produzido? Mais instantes depois, veio para mim a confirmação de que as imagens eram em tempo real. Eram exatamente 9h03 daquela terça-feira. Assisti pela televisão o choque do segundo avião, que atingiu a Torre Norte. Fiquei perplexo. A minha filha, Alana, estava com 6 meses. Olhei para ela e fiquei pensando: estão tentando acabar com a honra do seu país, filha, mais não vão conseguir. Foi o que me veio a mente naquele momento. Nós olhamos para trás e pensamos como seria se nada daquilo tivesse acontecido. Famílias não estariam chorando até hoje a falta de seus queridos, a economia dos Estados Unidos poderia estar melhor, uma vez que o prejuízo financeiro foi muito grande e o país teve que continuar gastando dinheiro na guerra contra o terrorismo. Enfim, a América mudou, o atentado foi um divisor de águas. A águia foi ferida. Mais está se recuperando lentamente vai ficar curada. Estive com a minha família, visitando o local onde as torres gêmeas estavam localizadas, e a única coisa que consegui foi ficar em silêncio por um momento. Foi o silêncio da alma. A viagem às lembranças. Senti tristeza? Sim, mas alegria também, pela certeza de que sempre haverá um recomeço, mesmo que seja em um lugar onde só restaram as cinzas. God Bless America".

Fonte: Brazilian Times