Publicado em 23/01/2013 as 12:00am

Um brasileiro na noite do Oscar

Mineiro Daniel Dreifuss é produtor do filme chileno 'No', um dos cinco indicados para o prêmio de melhor produção estrangeira

Mineiro Daniel Dreifuss é produtor do filme chileno 'No', um dos cinco indicados para o prêmio de melhor produção estrangeira

da redação

Mineiro nascido em Belo Horizonte, Daniel Dreifuss, 34 anos, chegou aos Estados Unidos em setembro de 2003 com o sonho de transformar sua paixão por cinema em realização profissional. Passados dez anos, o jovem caminhou passos largos no propósito de conquistar a América: Dreifuss é coprodutor do longa-metragem ‘No’, de Pablo Larraín, um dos cinco indicados ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 2013.

Primeiro filme chileno indicado ao Oscar, No, produção estrelada pelo galã mexicano Gael García Bernal, disputa a estatueta com concorrentes de peso, como o até então tido como favorito Amor, produção francesa dirigida pelo austríaco Michael Haneke. Nada, contudo, que desanime o produtor brasileiro. "Muitos outros grandes filmes não ganharam. A Fita Branca também era o favorito em 2010. O Fabuloso Destino de Amélie Poulain também não ganhou em 2002, tampouco O Labirinto do Fauno em 2007 . Intocáveis (filme francês mais visto da história) sequer entrou na disputa deste ano. Amor é um grande filme, mas é difícil, e, para muitos, deprimente. A Academia pode também dividir os votos entre a indicação pra melhor filme e melhor filme estrangeiro. Então tudo pode acontecer", arrisca Dreifuss.

Filho do sociólogo René Dreifuss (1945-2003), uruguaio-brasileiro autor de ‘1964 – A Conquista do Estado’, lançado em 1981, Daniel cresceu e estudou na capital mineira. Após breve passagem pelo Rio, foi para os Estados Unidos, onde trabalhou com Steve Solot (presidente da Rio Film Commission) na MPA – América Latina (Motion Pictures Association), fez dois cursos de especialização na UCLA (University of California, Los Angeles) e mestrado em produção no AFI (American Film Institute). Logo começaria a trabalhar como produtor independente. Foi num pitching – uma reunião de ideias sobre filmes –, nos EUA, do qual participaram quase 30 produtores da Espanha e América Latina, que ele conheceu o produtor Juan de Diós Larraín, irmão do diretor de ‘No’, Pablo Larraín. Juntos, levantaram recursos para o aclamado projeto de ‘No’, já em cartaz nos cinemas brasileiros e que disputa o Oscar 2013.

Dreifuss fala da vida em Hollywood, da sensação de estar na disputa ao maior prêmio do cinema mundial e dos alicerces de ‘No’, que retrata a saga do publicitário René Saavedra, criador da campanha do "Não" ao governo do chileno Augusto Pinochet, por ocasião do plebiscito convocado pelo próprio ditador, no momento em que sofria fortes pressões internacionais. Pinochet apostava no "Sim".

O que o motivou a abraçar o projeto de No?

Quando, em 2010, o Juan de Diós me falou sobre o projeto, senti imediatamente que era uma narrativa que eu tinha que contar. Era muito próxima da minha vida pessoal. Cresci no Brasil e me identifiquei com No pela historia comum de ditaduras dos países sul- americanos e também pelo trabalho do meu pai, René Dreifuss. Acima de tudo, No é muito atual. Sabia que se conseguíssemos realizar o projeto como pensávamos teríamos uma chance de ser mais que um filme ‘de chilenos para chilenos', mas uma uma história universal, pois a busca pela liberdade é universal.

Como foi a campanha para uma vaga no Oscar?

A campanha do Oscar para filme estrangeiro não começa em novembro, como a dos filmes de língua inglesa. Os "filmes de Oscar" são quase todos lançados entre novembro e dezembro, e estes, sim, precisam de muita campanha pra se destacar. Para filme estrangeiro a corrida começa lá atrás, em Sundance e Berlim, no começo do ano; em Cannes, em maio, e segue pelo ano nos grandes festivais do mundo. Não dá pra ser indicado pelo seu país e chegar em dezembro, na época das indicações, sem ter tido presença e destaque nos grandes festivais do mundo. Eu não acho que tenha dinheiro nem campanha que compense. Esse ano foi muito competitivo para a categoria. Todos os grandes vencedores de festivais importantes estavam na disputa: Cannes, Berlim, Veneza... Ai sim, a campanha é necessária pra que as poucas pessoas que votam para filme estrangeiro vejam os filmes. Mas os 12 ou 15 que formariam a shortlist de nove, todo mundo sabia. Só mudava a ordem nas listas de previsão.

Por que a escolha de Gael García Bernal para o projeto?

Gael já estava no projeto quando eu cheguei. Mérito dos irmãos Larraín. Ele é um grande ator, e é engajado politicamente. É um selo de qualidade em filme estrangeiro. Ressalto também que Gael é muito doce e humano e que é um prazer trabalhar com alguém que admiramos profissionalmente e descobrir que do ponto de vista pessoal há muito mais pra admirar.

Onde você estava no momento do anúncio da indicação ao Oscar? Como a equipe do filme recebeu a notícia?

Em Los Angeles as indicações saem às 5h30 da manhã. Todo mundo vê em casa. Estava um frio de 5 graus do lado de fora. Eu estava sentado no sofa embaixo de um cobertor, com minha mãe sentada no sofá ao lado. No Chile já era de manhã. É a primeira indicação na história do Chile. Os irmãos Larraín foram heróis nacionais por um dia. No Brasil houve muitas resenhas do filme, mas não sei se os jornalistas se deram conta de que o produtor gringo do No é na verdade brasileiro.

Sentiu alguma dificuldade em entrar nesse mercado por ser brasileiro?

Nunca. O mercado é difícil, por que a indústria é muito difícil. Ser estrangeiro dificulta na questão de visto, permissão de trabalho. Mas ser brasileiro nunca foi questionado, nem levantado como questão. Ao contrário, há uma curiosidade de perspectiva, ponto de vista e de uma nova voz.

O que indicaria para alguém que também tem o sonho de fazer uma carreira no exterior, em cinema, nos EUA?

Esteja seguro de que você quer contar histórias. Saiba que tipo de filme você quer fazer. E imprescindível autoconhecimento. Muita paciência e perseverança. Quem entra na indústria porque quer fama, flashes e glamour descobre rápido que, para cada semana de badalação, há anos de trabalho, rejeição, relações profissionais difíceis, projetos que vêm e vão e incerteza. No final, como está dito em No, vale a pena lutar pela sua alegria e felicidade. Para o time do No, a alegria já chegou. 

Fonte: Brazilian Times