Publicado em 11/03/2013 as 12:00am

Basileiro conta como é sobreviver na fronteira entre a Coreia do Norte e do Sul

Há algumas semanas a Coreia do Norte voltou a assustar o mundo com testes nucleares e anunciou o fim do armistício com a Coreia do Sul, que já durava aproximadamente 60 anos. Essas atitudes novamente provocaram a já conturbada relação internacional com pa

Há algumas semanas a Coreia do Norte voltou a assustar o mundo com testes nucleares e anunciou o fim do armistício com a Coreia do Sul, que já durava aproximadamente 60 anos. Essas atitudes novamente provocaram a já conturbada relação internacional com países como Estados Unidos e também o bloco europeu.

Para quem não está na região, pode ser difícil ter uma real noção do que representa estes testes feitos pelo país asiático, mas o "capixaba" (entre aspas porque ele nasceu nos EUA, embora tenha crescido e morado em Vila Velha) Marcelo Bini, de 30 anos, explica em detalhes como é viver neste clima de tensão. Marcelo é médico combatente no exército norte-americano (US Army) há cinco anos, e atua na base militar dos EUA, em Yongsan, na Coreia do Sul, que fica a pouco mais de 40 quilômetros de distância da fronteira com a outra Coreia. Na conversa com a reportagem do portal Gazeta Online, ele detalhou como é viver em uma área de conflitos.

"Só para que tenham uma ideia, eu durmo com uma máscara de gás e um colete à prova de balas ao meu lado. Como militar, posso dizer que estou preparado para entrar em ação a qualquer momento. Estamos sempre prontos para o combate, mas essa sempre será a última circunstância. Sobre a Coreia do Norte, vejo como um absurdo o que o governo faz com a própria população. Os norte-coreanos vivem com recursos limitadíssimos e veem o país investir quase 90% das receitas em testes nucleares. Enquanto isso muitas pessoas passam por necessidades e sofrem com a falta de perspectivas", salientou Marcelo.

"Toda vez que os norte-coreanos fazem um teste, melhoram significativamente as capacidades nucleares. A prova disso foi o recente lançamento de um foguete de longo alcance. Isso já é motivo de preocupação, apesar de que ainda estão longe de conseguir compactar uma ogiva nuclear no artefato. Neste último lançamento, estava no hospital e no momento em que lançaram o foguete a energia da base acabou. Ficamos assim por cerca de 45 minutos, até a força ser restabelecida. As informações que chegam aí no Brasil muitas vezes são distorcidas ou equivocadas. A Coreia tem uma postura hostil", ponderou o militar.

"Não nasci no ES, mas sou capixaba"

Filhos de pais brasileiros, Marcelo nasceu nos Estados Unidos, quando o pai dele, Eustáquio Bini, morador do bairro Interlagos, em Vila Velha, foi à Terra do Tio San para estudar. A família retornou ao Brasil no final da década de 90, e até hoje reside no município canela verde, exceto Marcelo.

"Sempre morei em Vila Velha. Era coordenador pedagógico em uma escola particular de línguas e gostava muito da minha profissão, mas decidi mudar. Por ter o inglês fluente e também a dupla nacionalidade, rumei para os Estados Unidos e lá decidi me alistar, com o intuito de poder mudar a vida das pessoas.

No exército, Marcelo entrou para a escola de médicos combatentes e teve que superar uma contusão grave que teve em treinamento para prosseguir na carreira militar. "Muitos confundem o trabalho militar apenas com guerra, mas desempenhamos papel muito importante em ações humanitárias e também em situações de desastres naturais", explicou.

Treinamento

Após uma operação para solucionar problema da contusão no joelho, o capixaba passou por alguns treinamentos e especializações, e foi deslocado para a base de Yongsan. "Somos aproximadamente 28 mil militares na Coreia do Sul, e na minha brigada, que conta com 16 mil combatentes, sou o único brasileiro. Temos a capacidade de deslocar 30 mil soldados em seus postos, em um espaço de tempo de apenas uma hora. E em apenas 48 horas podemos mudar este contingente para qualquer lugar do planeta", contou.

Nos primeiros meses de treinamento no exército, Marcelo, assim como todos os outros alistados, passou por rigorosos testes físicos e psicológicos. Dos que iniciam, apenas 11% consegue ser aprovado. Em seguida vieram os testes com armas. "Fui treinado no Uso de fuzil M-4 e M-16, metralhadora M-240, lançadores de granada e pistola M-9. Na parte médica, somos treinados para fornecer o tratamento em condições de conflito. Então muitas vezes é preciso improvisar para salvar a vida do paciente, mesmo que isso coloque a minha em risco", explicou.

O "capixaba" faz questão de deixar claro que um possível embate armado seria extremamente prejudicial. "Como dito, estamos preparados para o confronto, mas acredito na diplomacia. Tenho certeza que o governo americano, juntamente com a ONU e o apoio de outros países, vão tentar de todas as formas evitar um conflito. Quando se trata de guerra, não há vencedores, e sim vítimas".

Espírito Santo no coração

Nessas horas de conflito os laços com o Espírito Santo o faz refletir. "Sou casado com uma capixaba, Aglaiany, que é de Vila Velha, meus pais moram aí e ficam preocupados comigo. Sempre converso com eles para matar a saudade e também para acalmá-los. Já ela mora nos Estados Unidos, mas fica igualmente preocupada comigo.

"Mesmo com a distância que nos separa, acredito que fiz a escolha certa e tenho muito orgulho em representar meu Estado e também o Brasil no exército americano. Por isso que é importante que vocês valorizem essa terra maravilhosa. O Espírito Santo é uma maravilha de lugar. Daqui não dá para exemplificar como sinto falta da família, do povo, dos amigos, e, como não poderia deixar de falar da nossa culinária, que não se encontra em canto nenhum do mundo", contou.

A ligação de Marcelo com o Estado é tanta que, para amenizar e diminuir a distância, ele criou um blog direcionado aos brasileiros, onde narra as experiências militares, o convívio com outra cultura e também como é ser um brasileiro dentro do exército mais forte e bem preparado do planeta. .

Fonte: Brazilian Times