Publicado em 20/03/2013 as 12:00am

Brasileiros falam sobre o fracasso do CRBE

Consulado quer controlar escolha dos membros e assim a comunidade não poderá votar

Consulado quer controlar escolha dos membros e assim a comunidade não poderá votar

Luciano Sodré

Neste ano, os Consulados brasileiros espalhados pelo mundo iniciaram algumas reuniões para conversar com ex-membros do Conselho de Representantes de Brasileiros no Exterior (CRBE) e com alguns membros da comunidade. O motivo é ouvir opiniões sobre a formação do próximo conselho, mas conforme as perguntas apresentadas, o setor consular pretende escolher quem serão os novos conselheiros e deixar a comunidade de lado nesta votação.

Em todas as reuniões ficou visível que a intenção do Consulado é dar poder ao Conselho de Cidadãos para definir quem deverá assumir os cargos de Conselheiros do CRBE. O primeiro ponto é que isso criará um atrito com o estatuto original que prevê quatro titulares e quatro suplentes.

O motivo é claro: Se ficar definido que o Conselho de Cidadãos é quem definirá os representantes, como será esta escolha se não existe apenas um consulado nos Estados Unidos e tampouco um Conselho de Cidadãos. Isso poderá implicar em atritos, pois cada um defenderá a sua região.

O presidente da Central do Trabalhador Imigrante Brasileiro dos Estados Unidos (CTIB/US), Márcio Porto, em entrevista à redação do jornal Brazilian Times, decidiu apresentar um projeto baseado nesta conversa. "Realmente poucos estão percebendo este problema e isso poderá atrapalhar o andamento da escolha dos novos representantes", afirma.

Ele realizará uma reunião com a entidade para elaborar o projeto e irá propor que de cada região, onde há Conselho de Cidadãos, saia pelo menos dois indicados para concorrer ao cargo no CRBE, o qual seria votado pelo povo. "Desta forma, todos participarão. As entidades indicarão os nomes, o Conselho de Cidadãos escolherá dois e a população definirá os seus representantes", comenta.

O pastor Walter Mourisso, que foi suplente no primeiro grupo de Conselheiros do CRBE, defende que não cabe apenas às entidades escolherem os nomes que irão para a votação do Conselho de Cidadãos. "Existem muitos brasileiros que ajudam a comunidade, sem precisar estar em uma organização e eles tem qualificações para disputar os cargos", disse.

Mourisso afirma que os representantes deveriam ser escolhidos pela comunidade e não por um grupo de pessoas. "Eu acredito que deixar o povo escolher desde o início do processo seria o maior sinal de democracia, pois da forma como está, as pessoas foram deixadas de lado", continua.

O pastor explica que o CRBE foi criado para servir como representante da comunidade e cabe à esta escolher os seus membros. "Tirar do povo o poder de votar seria como criar um grupo em Brasília para escolher os vereadores das cidades brasileiras", fala acrescentando que existem regiões nos Estados Unidos que não tem o Conselho de Cidadãos e tampouco um consulado. "Logo eles seriam prejudicados, pois os escolhidos ficariam entre os nomes mais próximos e ligados ao órgão", finaliza.

Já a ex-conselheira Ester Sanches afirma que o CRBE não deu certo e não dará. Para ela, é necessária a criação de um órgão independente e que tenha contato direto com o Governo Brasileiro, sem intermediários (Itamaraty).

Mesmo contrária à continuidade do CRBE, ela defende a existência do Conselho de Cidadãos. Mas os seus membros devem ser escolhidos pela comunidade e não pelos embaixadores e cônsules. "Do jeito que está, é muito cômodo para os diplomatas que colocam no grupo quem eles acham que não brigará com o órgão por algum benefício para a comunidade ou apresentará reclamações em relação ao atendimento consular", disse.

Ester foi uma das Conselheiras mais atuante durante a sua gestão, viajou para vários países, entre eles Inglaterra, França, Áustria, Argentina, Hungria, Canadá e quase todas as regiões dos Estados Unidos. "Eu não ouvi falar e sim presenciei que o CRBE não dará certo enquanto ficar sob o controle do Itamaraty", fala ressaltando que em todas as comunidades a reclamação era a mesma - "o Itamaraty não respeita os conselheiros e não faz nada para ajudar a comunidade".

A criação do CRBE, no análise de Ester, foi para impedir o progresso da Proposta de Emenda Constitucional (PEC) do senador Cristovam Buarque, que daria o direito dos brasileiros no exterior, de escolherem um deputado para os representar. "O Itamaraty brincou com as pessoas fazendo as acreditar que a criação do Conselho traria algo de bom para todos", continua.

Ainda indignada, ester denuncia que o Itamaraty jamais respeitou os membros do CRBE e que todo este tempo sempre teve como objetivo manter o controle dos brasileiros que vivem no exterior. "Isso foi uma brincadeira de mau gosto feito com a nossa comunidade", acrescenta.

Ester fala ainda que deixar a escolha dos conselheiros (CRBE e Conselho de Cidadãos) nas mãos do Consulado é o maior erro. Para ela, os Cônsules não conhecem a realidade de suas comunidades. "Apesar de todos vivermos no mesmo estado, o Cônsul e a comunidade possuem vidas diferentes",fala salientando que o Cônsul não mantém um contato direto com as pessoas, não frequenta os mesmos lugares que os brasileiros e não vai nos mesmos eventos.

Outro ponto levantado por Ester é que a comunidade brasileira no exterior tem uma população superior a de muitos estados brasileiros e participa da economia brasileira significativamente, com o envio de cerca de US$7 bilhões por ano. Logo deveria ter um espaço maior, segundo ela.

O empresário Pablo Maia, que sempre defendeu a escolha dos membros do Conselho de Cidadão por voto direto, enviou um e-mail para o Consulado-Geraldo do Brasil em Boston no qual ele apresentou a sua indignação com a maneira como vem sendo tratada a comunidade brasileira e ressaltou que enquanto os "representantes do povo ficarem sob o controle do órgão nada de bom será realizado".

No e-mail, Pablo ressaltou que tudo que começa errado termina errado, e assim foi com o CRBE que, segundo ele, foi criado em uma base cheia de erros. O empresário cita dois pontos que contribuíram para o fracasso do conselho:

Divisão territorial: é inaceitável que uma pessoa que nunca esteve presente diretamente com as comunidades brasileiras espalhadas pelo mundo achasse que um determinado número de pessoas conseguiria cuidar de todos. Não há como quatro pessoas atenderem a demanda de todos os brasileiros que vivem nos Estados Unidos. "O que diremos de México, Canadá e Caribe?", indaga.

Maneira de votar: outro ponto errado, que segundo o empresário, deveria ter sido diferente foi o sistema de votação. Apresentar um número de documento, entre eles o CPF, já deixaria a pessoa apta a votar. Vale salientar que se fizer uma pesquisa na internet, pode-se encontrar vários números que poderiam ter sido utilizados para forjar esta eleição.

Pablo ressalta que os possíveis representantes da comunidade não estão preparados para representá-la. Ele cita o estrelismo e egocentrismo como um dos pontos principais para a derrocada do CRBE. "Depois que os membros foram empossados o que mais assistimos foram brigas entre eles por um passaporte diplomático, passagens de aviões de primeira classe entre outras regalias que de nada beneficiaram os brasileiros", continua.

Fonte: Brazilian Times