Publicado em 1/05/2013 as 12:00am

Imigrantes temem onda de xenofobia em Boston

A revelação de que o atentado que matou três pessoas na Maratona de Boston teria sido obra de dois jovens origem chechena que residiam legalmente nos EUA acendeu um sinal vermelho nas associações de imigrantes do país em geral e do estado de Massachusett

“As informações ainda estão desencontradas, mas é certo que as pessoas estão prestando mais atenção nos imigrantes”, disse Natalicia Tracy,

diretora-executiva do Centro de Imigrantes Brasileiros em Massachusetts, lembrando que, além da mudança de

tratamento que se vê nas ruas, as consequências de dois jovens de origem estrangeira terem sido acusados pelo ataque já chegaram à política, nas discussões sobre a reforma imigratória. “O atentado não

pode ser desculpa para conter a reforma”. Na sexta-feira, ela participou de uma reunião extraordinária com

representantes de outros centros de imigrantes no estado para discutir a consequências da tragédia

nas comunidades latinoamericanas. Estavam presentes cerca de 40 pessoas, de associações de países como México, Honduras, República Dominicana e El Salvador, além do Brasil. A Aliança Nacional para Comunidades Latino-Americanas e Caribenhas e grupos progressistas também compareceram. Segundo relatório de 2012 do Mayor’s Office of New Bostonians, 35,4% dos imigrantes de Massachusetts são da América Latina e do Caribe, e 28,6%

da Ásia. O Brasil é o segundo país com mais imigrantes no estado (68.197), atrás apenas da China (80.737). Segundo Natalicia, porém, contando os que estão em situação ilegal, Massachusetts tem 200 mil brasileiros.

 

MANIFESTAÇÃO

NO 1º DE MAIO

 

Todos os que compareceram à reunião tinham casos de incidentes que vêm ocorrendo em Boston e na região na última semana para contar. “Falaram de uma muçulmana que estava empurrando um carrinho de bebê e foi agredida

fisicamente por um americano. De jovens estudantes latinos que estudavam com Dzhokhar Tsarnaev na universidade de Massachusetts em Dartmouth e estariam detidos, em processo de deportação. De famílias

estressadas”, diz Natalicia, contando que ela mesma sentiu na pele os efeitos da tragédia. — Na quinta-feira,

fui parada pela polícia no trânsito e o oficial foi logopedindo o número do meu Seguro Social e perguntando

se eu era imigrante. E ainda me multou por estar sem carteira sem nem ter me pedido para mostrá-la. Só vi

a multa quando cheguei em casa, mas vou fazer uma reclamação formal. O comportamento mudou por

aqui. A polícia está checando bolsas. Batendo em casas. Os imigrantes ilegais nunca estiveram tão preocupados.

Nem depois do 11 de Setembro: afinal, agora o foco é aqui em Boston. Ao fim do encontro, ficou decidido que

serão feitos workshops nas comunidades latinas do estado para informar e oferecer ajuda, inclusive psicológica. Dois grupos de advogados de direitos civis foram mobilizados para trabalhar nos casos de incidentes reportados

“haverá uma campanha para  incentivar reclamações formais. O ponto alto da ação, porém, será no 1º de

maio, Dia do Trabalhador, para quando foi programada uma série de eventos em diversas comunidades, culminando numa caminhada que sairá de dois lugares — East Boston e Everett, ambos de grande população imigrante —

cujos participantes se encontrarão em frente à prefeitura e seguirão até o JFK Federal Building, no centro da capital. A estudante brasileira Marcela Elerate, de 24 anos, mora há dez em Boston, para onde se mudou com a mãe, que foi

fazer um mestrado e acabou se casando com um americano. Cursando Justiça Criminal e responsável pelo

departamento que oferece aulas de inglês no Centro de Imigrantes Brasileiros em Massachusetts, ela é presença certa na caminhada de quarta-feira. — A tragédia acabou sendo um incentivo para as comunidades de imigrantes se unirem. Infelizmente foram dois imigrantes da Chechênia que fizeram uma coisa horrível, mas isso não pode mudar Boston, que sempre foi uma cidade muito tolerante com os imigrantes.

Fonte: Brazilian Times