Publicado em 13/01/2014 as 12:00am

Valadarenses contam como é retornar dos EUA para o Brasil

Valadarenses contam como é retornar dos EUA para o Brasil

Por Agatha Brunelly Se você perguntar para algum morador de Governador Valadares, Minas Gerais, se ele conhece ou tem algum familiar que emigrou para os Estados Unidos da América, as chances dele dizer que sim são bastante altas. Isso acontece porque essa cidade brasileira é uma das mais conhecidas por ter enviado pessoas para os EUA. O maior fluxo dessa emigração aconteceu nos anos 90. Porém, com a crise econômica de 2008 o número de valadarenses que retornaram à cidade natal também foi grande. Hoje, anos depois da volta desses emigrantes, eles contam como foi o retorno. Quais as principais dificuldades que enfrentaram e as emoções que vivenciaram ao regressarem para famílias, amigos, pertences e vida que deixaram ao partir. Elcilene Maciel nos anos 2000 emigrou ilegalmente e deixou em Valadares os pais e dois filhos, ainda crianças. Em Framingham, Massachusetts, ela viveu cinco anos e cinco meses, onde se casou e teve outros dois filhos. Apesar do marido e ela trabalharem, as despesas das famílias ? uma nos EUA, outra no Brasil - ficou insustentável. Em outubro de 2009 a família retornou ao país de origem. "Decidimos vir embora porque nossa despesa lá com duas crianças ficou grande, além da família que eu tinha que sustentar aqui. O meu dinheiro era só mesmo para pagar babysister e fazer a despesa no Brasil. Assim, meu marido acabou desesperando, foi dar ouvidos as pessoas que estavam no Brasil e diziam para ele que aqui estava muito bom, que aqui a gente não ia ter dificuldade, que iríamos arrumar emprego rápido. Naquela época o dólar estava super baixo, não estava nem dois por um. Mas, se nós não tivéssemos despesas aqui nós viveríamos lá muito bem", relatou Elcilene. Ela conta que no momento em que saiu do aeroporto se arrependeu de ter retornado. "Na hora que desci no aeroporto de Belo Horizonte, Minas Gerais, e senti o calor ? porque eu sai de lá no frio ? eu já estranhei. Quando a van buscou a gente no aeroporto e eu comecei a ver as casas, as pessoas eu disse: 'eu quero voltar agora para trás. Não quero ficar nesse lugar'. Eu quis voltar no mesmo instante, no mesmo dia. Mas, para o meu marido foi tudo festa, ele custou a cair em si. Na verdade de um ano para cá que ele admitiu que a gente poderia ter ficado lá", afirmou. Ela relata que a readaptação a Valadares foi bastante difícil. Apesar de ter vivido mais de duas décadas no Brasil, quando regressou ao país tudo era estranho e novo. "Ao retornar fui rejeitada por muitas pessoas por andar simples, por ter mudado meu jeito de pensar. Aqui foi muito terrível a questão da alimentação, minha filha e eu sofríamos muito porque não achávamos as coisas que gostávamos de comer e se achávamos eu não tinha condição financeira comprar algo importado. O Lucas, meu filho mais novo, sofreu muito com o calor, aqui ele ficou muito doente. Lá ele tinha acompanhamento médico porque é por conta do governo, aqui eu não tinha acesso ao hospital", disse. Elcilene explica que somente após dois anos conseguiu se reinserir no mercado de trabalho ? a mesma empresa que trabalhou antes de sair do país. "Quando chegamos meu marido começou a trabalhar como servente de pedreiro. Já eu, quando fui embora do Brasil, meu patrão tinha me dito que se eu quisesse voltar a minha vaga estaria lá. Quando cheguei fui até a empresa que trabalhava e pedi meu emprego de volta. Na época não tinha vaga. Tinha colocado currículo em vários lugares, parecia que ia dar certo, mas não dava. As pessoas não acreditavam que eu tinha morado fora, achavam que por algum outro motivo a minha carteira tinha ficado tanto tempo sem ser assinada. Eu deixava claro que não estava no Brasil, mas não acreditavam". Apesar da vontade de retornar Elcilene não pensa em morar ilegalmente nos Estados Unidos. "Hoje em dia prefiro minha situação aqui, mesmo com todas as dificuldades, do que ser uma pessoa ilegal nos EUA. Um dia sei que legalizada vou estar por conta dos meus filhos. Porém, vejo meu futuro aqui e lá. Mas, quero voltar por conta dos meus filhos porque sei que lá eles vão ter uma vida bem melhor do que aqui", comentou. Em busca de um futuro melhor, a valadarense Marcela Souza e seu marido viveram quase cinco anos ilegalmente em Newark, New Jersey. Ela também regressou em 2009, porém o motivo não foi financeiro, e sim por problemas de saúde. "A nossa ideia não era mais voltar para o Brasil. Queria viver lá, já estava adaptada, gostava da minha vida. Resolvi vir porque fiquei doente, tive que ser internada e eles não diagnosticavam o que eu tinha. Pelo meu pai ser médico no Brasil ele ficou assustado com aquela situação. Com 15 dias comprei minha passagem, coloquei minha casa em um contêiner e vim embora. Foi tudo muito rápido", contou Marcela. Para ela a parte mais difícil de ter voltado foi o primeiro ano no Brasil. "Quando cheguei aqui foi um choque. Para a gente se manter no início foi difícil. A princípio tive o apoio da minha família, mas tinha que me adaptar a uma nova realidade. Nem eu nem meu marido tínhamos formado na faculdade. Na época a minha condição ? da doença ? não me permitia nem voltar a estudar, nem trabalhar, meu tratamento era muito pesado. É um sofrimento voltar porque nos EUA é muito diferente. Lá as coisas funcionam mesmo que você seja um imigrante ilegal. Hoje estou readaptada, mas as pessoas que vão sempre ficam com um pé lá e outro cá", assegurou. Marcela ainda deseja voltar a morar nos Estados Unidos, mas não como morou. "Tenho vontade de voltar para lá. Se eu pudesse voltar legal eu voltaria. Já como ilegal não quero mais pagar esse preço alto porque perdi momentos do Brasil. A vida é um filme que não volta atrás e você vai perder se você não viver. Acredito que não encaro uma vida ilegal mais até porque essa doença que eu tenho se agrava com questões emocionais. Talvez não vou ser feliz 100% nem lá nem cá. Lá eu era feliz, mas me faltava minha família e meus amigos. Aqui eu tenho minha família e meus amigos, mas acho a vida muito sofrida", pontuou. RETRANCA: Especialista explica porque é tão difícil retornar ao Brasil A psicóloga brasileira Lídia Barantes desenvolveu no curso de mestrado uma dissertação sobre o emigrante retornado. De acordo com a pesquisa, Lídia garante que de qualquer forma o emigrante fica marcado pela experiência fora do seu país de origem. Para ela, quando uma pessoa volta para o Brasil a dificuldade de readaptação pode ser tão grande que há casos de pessoas que não conseguem prosseguir com a vida brasileira. Ela afirma que não é só uma questão de estar em um lugar fisicamente. Quando uma pessoa regressa ao Brasil depois de anos morando fora as experiências vividas e os hábitos adquiridos tem que ser adaptados ao lugar onde ela está morando atualmente. E isso pode ser muito complicado. Com a pesquisa, Lídia conseguiu observar nos retornados alguns sintomas depressivos, porém subjetivos, uma vez que cada pessoa lida com a situação de retorno de uma forma. "Alguns tem dificuldade para dormir, ficam mais depressivos, outros não apresentam nada disso. Não existe uma regra. De um modo geral sobre a perspectiva dos retornados, observa-se a dificuldade de enfrentar o novo. O acompanhamento profissional psicológico é importante no novo recomeço", aconselhou Lídia.

Fonte: (Agatha Brunelly)