Publicado em 17/03/2014 as 12:00am

Valadarenses relatam a "saga" pelo visto americano

Valadarenses relatam a "saga" pelo visto americano

GOVERNADOR VALADARES – Governador Valadares, cidade localizada no interior de Minas Gerais, é um dos municípios brasileiros mais conhecidos por enviar pessoas aos Estados Unidos da América. Há cerca de dez anos o volume de emigrantes valadarenses em busca de se mudar para as mais diversas cidades americanas era intenso. Pela quantidade de pessoas que se mudou para os EUA naquela época, seja de forma ilegal, ou com o visto de turismo apenas como disfarce para entrar no país, Valadares começou a chamar atenção das autoridades responsáveis pela entrada e saída de pessoas no país.

                A cidade se tornou nome mais que conhecido nos consulados norte-americanos no Brasil. Em média, três vans com 12 pessoas partiam semanalmente de Valadares em direção aos Consulados Gerais para entrevistas de vistos. Nessa excursão muitos queriam o documento para conseguir entrar no país legalmente e por lá ficar como ilegal, excedendo o prazo de permanência. Porém, na época o fluxo de mudança ficou tão excessivo que pessoas interessadas em apenas visitar os EUA não já conseguiam fazer a viagem facilmente. Os moradores da cidade ganharam fama de não conseguirem o documento e terem tratamento diferenciado – de forma negativa – na hora da entrevista.

                Segundo a diretora de uma agência de turismo de Valadares, Amanda Coelho há dez anos aconteceu diversos casos de pessoas que tiveram o visto negado só porque eram do município mineiro. “Muitas pessoas, até mesmo que queriam realmente fazer turismo foram negadas sem ao menos apresentarem algum documento ou o cônsul perguntar algo. Quando a pessoa chega para a gente e fala que a entrevista não foi muito boa, ou que ela achava que o visto negado teve algum motivo, um parente próximo ilegal nos EUA ou a falta de vínculo no Brasil nós entendemos a situação. Mas, antes não existia isso. Antes era só olhar o passaporte, ver que era de Valadares e a pessoa era negada”, afirmou Amanda.

                Apesar do histórico negativo que a cidade tinha nos consulados, a demanda pelo agendamento de entrevistas consulares não diminuía. Portanto, as agências começaram a buscar meios que tentassem amenizar o fato dos interessados serem de Valadares. “Antes existia aquela coisa de escolher o consulado pela reputação que ele tinha. Por exemplo, o consulado do Rio de Janeiro tinha uma bronca com Valadares porque eles já conheciam o perfil das pessoas. Parecia que o pessoal de lá era treinado contra a gente. Por conta disso a gente não usava o consulado do Rio, era só São Paulo ou Brasília”, comentou Amanda.

                Para o proprietário de outra agência e pioneiro no turismo de Valadares, Chico Teixeira não importava a quantia que as pessoas tinham no banco ou os vínculos que ela tinha no Brasil. Os relatos de pessoas que não conseguiram o visto porque eram de Valadares ficou tão grande que alguns forjavam os documentos para fraudarem o local onde nasceram. “Antigamente Governador Valadares era o maior centro brasileiro exportador de mão de obra para os EUA. Para se ter ideia, Valadares foi a única cidade em que uma consulesa veio para ter uma conversa com representantes e pessoas ligadas a emigração sobre essa enorme demanda das pessoas de irem para os EUA. Nessa época, as pessoas fraudavam os documentos para dizerem que eram nascidos em outras cidades como Caratinga (MG) e Teófilo Otoni (MG)”, relatou.

PANORAMA ATUAL

                Atualmente a situação em Valadares é diferente de dez anos atrás. Segundo Chico Teixeira, em comparação a época do boom da emigração no município, o fluxo de interessados em tentar o visto ainda é constante, porém menor. Hoje, uma vez ao mês, viaja um ônibus com cerca de 40 pessoas em direção ao Consulado Geral dos EUA no Rio de Janeiro. Para ele, não só a quantidade se modificou como o perfil das pessoas que se propõe a tentar o visto norte-americano. “O perfil das pessoas que busca a nossa agência para irem ao consulado é de turistas ou de pessoas que vão para visitar parentes ou amigos que emigraram para lá naquela época. Hoje em dia as pessoas vão e voltam”, assegurou.

                De acordo com Amanda, a posição dos Consulados também se alterou com o passar do tempo. “Hoje a gente sente que as pessoas estão mais respeitadas porque o Consulado está tendo mais interesse no brasileiro devido ao perfil que tem mudado. Hoje o brasileiro chega dentro do Consulado e é muito diferente de antigamente. Aqui na agência o que eu percebo é que se a pessoa é de Valadares ou não isso já não faz mais diferença. O retorno tem sido muito positivo. Atualmente, a gente pode mandar o ônibus cheio (de 35 a 45 pessoas) para o Rio que ele vai voltar com o resultado muito positivo. Já teve meses em que metade do ônibus voltava com o visto”, explicou a diretora.

RELATOS

                Há dez anos diversos valadarenses não conseguiram o visto por conta do local do nascimento. Porém, mesmo hoje em dia, essa situação pode estar sujeita a acontecer. A. A. F* é professora efetiva no município de Valadares e pelo Estado de Minas Gerais. Ela tentou o visto americano duas vezes e em ambas teve o pedido recusado. A primeira tentativa aconteceu em 2010, no Rio de Janeiro. A segunda, em 2011, em São Paulo. Segundo ela, o único fator que pode ter a impedido de alcançar o documento foi a cidade em que nasceu.

                “A primeira vez, no rio, o cônsul foi muito áspero comigo, me fez as seguintes perguntas: por qual motivo eu queria ir ao EUA. Com quem eu iria e se eu teria conhecidos no referido pais. Todas as perguntas foram feitas com muita rispidez e a última foi repetida pelo menos três vezes. [o oficial] Não me pediu documento nenhum. E simplesmente me negou o visto. A entrevista durou cerca de três minutos, no máximo”, contou A.A.F.

                No entanto, existem casos totalmente inversos a esse. Wilson Monteiro é enfermeiro e conseguiu o visto americano na primeira tentativa, em julho de 2013 no Rio de Janeiro. De acordo com ele, a entrevista durou menos de um minuto e meio. A oficial o perguntou para qual cidade dos EUA ele iria; se ele já havia saído do Brasil alguma vez, por quanto tempo e para que; além do que ele fazia no Brasil e quanto ele ganhava na minha função que exercia.

                “Acredito que, pelo fato de trabalhar para uma empresa estrangeira da área de petróleo isso ‘me assegurou’, mas confesso que fiquei com medo de ser negado sem ter a oportunidade de dizer nada como havia ouvido algumas pessoas falarem; entretanto a oficial do Consulado que me atendeu foi super educada”, comentou Monteiro.

                Para a diretora Amanda, não há critérios para a aprovação de visto, porém há um perfil de entrevistado que dá mais certo. “A pessoa precisa primeiramente ter vínculos com o Brasil. Ela precisa provar que tem algo que prende ela ao país de origem e que a ida aos EUA será só a passeio, que não tem porquê ela ficar lá. Porém, mesmo se essa pessoa tiver isso e o formulário dela estiver mal preenchido ela não irá conseguir. Se no momento da entrevista o que a pessoa falar não estiver em sintonia com o que está no formulário ela não consegue. O Consulado Americano representa outra cultura, então os critérios que eles utilizam para aprovar um visto ou não é diferente dos critérios que nós, brasileiros, usaríamos por exemplo”, afirmou.

*A.A.F são iniciais. A entrevistada pediu para não ter o nome divulgado.

Fonte: Por: AGATHA BRUNELLY - FOTOS E TEXTO