Publicado em 7/04/2014 as 12:00am

Filhos de imigrantes falam sobre os desafios da distância

Distância

GOVERNADOR VALADARES – É comum que pais e filhos em algum tempo da vida se separem, saiam de casa e passem a não se ver com tanta frequência. Essa separação pode acontecer de diversas formas, algumas de maneira mais natural e outras mais difíceis, até forçadas. A segunda opção enquadra as famílias que tem que se separar por conta da emigração. Em Governador Valadares, nos anos 90 e início dos anos 2.000 famílias passaram por afastamentos. Nessa época pais emigraram ilegalmente para os Estados Unidos em busca da realização econômica. Porém, devido as condições da “mudança”, muitos deixaram seus filhos para trás. Com quem esses filhos ficaram sob cuidados é algo muito relativo, mas em algo a história da maioria desses emigrantes se assemelha: a falta de saber quando irão retornar ao Brasil e como a relação familiar ficará depois da partida.

            Elcilene Maciel foi ilegalmente para os EUA em 2004 e deixou dois filhos no Brasil aos cuidados de seus pais. Ela conta que ao falar semanalmente com eles a relação entre ela e os filhos aparentava ser boa. Porém, ao retornar ao Brasil em 2009 as conseqüências dos anos sem convívio direto ficaram evidentes na rotina. “Quando voltei, eles foram morar comigo, ficaram apenas dois meses. Meu filho não conseguiu se adaptar ao meu modo de viver, pois eu colocava mais regras e já não podia dar pra ele tudo o que ele me pedia. Ele não me respeitava como mãe, minha filha também não se dava muito bem com os irmãos, brigavam muito. Então eles resolveram voltar pra casa dos meus pais. No ano passado minha filha resolveu voltar pra minha casa, por vontade própria, e nossa relação de mãe e filha começou a partir desse momento”, relatou.

            Ivone Soares foi para os EUA em 1995 sem pensar muito no efeito que a partida causaria no seu filho de seis anos. Nas palavras dela, ao conseguir o visto ela viu uma oportunidade de melhoria de vida. Só depois de ter chegado em solo americano que ela refletiu no que aconteceria a partir dali na relação dela com o filho. De início Daniel [filho] ficou com a avó. Dois anos depois ele foi viver com o pai, onde permaneceu por mais um ano. Em seguida a casa da avó foi o seu lar por mais dois anos. Após tantas mudanças ele ficou sob os cuidados de uma tia em torno de um ano e depois se mudou para casa do pai. Ele morou sozinho durante algum tempo, mas hoje vive com o pai em Valadares.

            “Apesar da distância tentei o máximo manter o contato, seguir as fases dele, de criança e adolescência. Mesmo sendo difícil a comunicação, sempre procurei manter minha presença. No primeiro e segundo ano ele teve uma revolta por eu ter o deixado. Na adolescência teve uma fase que ele não queria se abrir, foi uma fase de briga. Até que a gente venceu essa barreira difícil, mas a minha presença na vida dele foi diária. Quem cuidou dele o educou com minhas ordens, ou mesmo na minha palavra com ele no telefone. Ele me ouvia e apesar da distância ele sabia que não podia quebrar uma ordem. Eu via isso dele”, contou.

            No próximo ano Ivone e Daniel completarão 20 anos sem se ver. Depois de todo esse tempo e de tantas mudanças, hoje Ivone consegue analisar o preço que ambos pagaram pela separação. “Os pais tentam suprir o sentimento de culpa por ter os deixado de toda forma, a financeira é uma delas e a que mais traz conforto. Se o filho é triste por não ter a mãe do lado ele vai ver um brinquedo enviado/dado por nós e vai lembrar que a mãe está trabalhando longe e duro para dar algo para ele. Quando você vê que seu filho está feliz automaticamente a felicidade vem para você também”, pontuou Ivone.

            Erika Christina Gomes é pedagoga e autora da pesquisa “O reflexo da migração na vida escolar dos estudantes em Valadares”. De acordo com ela, na hora de produzir o artigo ela perguntou aos seus entrevistados sobre a relação familiar. Segundo ela, as respostas mais predominantes encontradas envolviam o contato entre pais e filhos para resolver questionamentos financeiros. “Geralmente a resposta dos entrevistados era que conversavam sobre tudo. A gente buscava entender o que era esse tudo. Isso estava relacionado aos presentes: o que eu vou ganhar de natal, de aniversário, um dinheiro que eu preciso para sair no fim de semana. A gente via que existia certa necessidade do pai de compensar a distância o filho através de presentes. E o filho sem essa dimensão e em uma fase de construção das relações, não tinha a percepção do que acontecia”, afirmou.

            Apesar de todos esses anos morando longe, a vontade de estar perto sempre falou mais alto para Ivone. O filho tentou visitar a mãe quatro vezes de forma legal e sempre teve o visto recusado. Segundo ele, por tanto tempo morando longe, hoje ele não consegue imaginar como é ter uma mãe morando na mesma casa que ele. “Talvez seria estranho no início tanto para mim, que nunca tive uma mãe dentro de casa, quando pra ela, que deixou uma criança e, hoje sou um adulto”, ponderou Daniel Soares.

            Para Igor Ferreira a situação seria totalmente diferente. Seu pai foi para os EUA quando ele tinha 12 anos. Na época ele achava que a partida dele seria somente uma viagem. Hoje, com 21 anos ele tem consciência que a estadia do pai em outro país não tem data marcada para retorno. Mas, mesmo com essas condições ele acredita que se o pai voltasse a morar com ele e a família hoje em dia o relacionamento entre eles seria da mesma forma que o pai deixou anos atrás.

            Em Valadares as histórias de pais e filhos que se separaram são extensas, cada uma com suas peculiaridades. Muitos conseguiram o retorno financeiro que queriam ao partir, outros viverão marcados para sempre com algo que o dinheiro vindo dos EUA não compra. Para os ilegais o convívio familiar diário será sempre machucado pela distância. A mãe de Ana Paula Gualter partiu quando ela tinha 12 anos. Hoje, dez anos se vê-la ela lamenta a falta da presença da mãe em momentos cruciais na sua vida. “Posso considerar que me criei sozinha com participações especiais, pois sempre tive ajuda, mesmo dela. Porém ela não me viu passando de adolescente para mulher, e isso, com certeza me afetou de alguma forma”, revelou.

            Quando questionada sobre a possibilidade de morarem juntas novamente Ana Paula é objetiva. “Não morei com ela quando mais precisei, portanto não seria agora a escolha que eu faria na vida. Faz exatamente 10 anos que eu não a vejo. Durante esse tempo muita coisa mudou inclusive eu. Talvez se surgisse a oportunidade de morarmos juntas novamente eu até iria, mais por uma questão de necessidade. Mas caso contrario, no máximo eu faria o possível para morarmos perto de preferência, e não exatamente juntas”, concluiu.

Fonte: Por AGATHA BRUNELLY