Publicado em 2/01/2015 as 12:00am

Transexual fala como iniciou na prostituição

Erica Silva foi apontada pelo Brazilian Times como brasileira que vende sexo pela internet

O jornal Brazilian Times publicou na edição datada de 1º de janeiro de 2014 (edição 2587), uma matéria intitulada “Brasileiras oferecem sexo em sites de MA”. A notícia repercutiu muito na comunidade brasileira, e alguns criticaram e outros defenderam as pessoas envolvidas. Nesta semana, este jornalista conversou com uma delas, a qual contou toda a sua história e os motivos que a levaram até esta vida.

Em um site, ela se identifica como “sexy latina” e que atende a região de Boston. Mas ao conversar com a reportagem do BT, se identificou por Erica Silva, 24 anos. Durante a entrevista, ela disse que desde criança sentia que era diferente, “mas morria de medo das reações das pessoas, ainda mais por morar em uma cidade pequena (Ipatinga-Minas Gerais)”. Erica fala que morria de medo de apanhar das pessoas devido ao preconceito existente.

Quando tinha 13 anos de idade, ela se mudou para os Estados Unidos, com a ajuda de alguns familiares. Mas a opção sexual dela também foi obstáculo neste país. “Antes de me tornar transexual, eu vivi vários anos como gay e isso gerou muitos problemas em minha vida, principalmente pelo preconceito da comunidade”, afirma. “Meus tios sempre acharam e acham até hoje que homem tem que ser pegador de mulher”, continua.

Erica estudou nos Estados Unidos, mas não conseguiu se formar, pois sofria muita pressão psicológica decido às brincadeiras dos colegas de escola. “Eu não tinha outra opção, pois na minha casa eu não tinha voz, pois se eu não ajudava não tinha direitos”, fala ressaltando que deixou os estudos, mesmo contra a vontade própria.

A brasileira relata ainda que certa vez foi acusada de roubar uma loja do MacDonald e seus tios não lhe deram ouvido, achando que ela era culpada. “Tudo isso devido ao preconceito”, afirma. “Sempre me viram como uma pessoa imprestável, inclusive escutei da boda de um deles que eu jamais conseguiria se quer comprar um carro e sempre viveria de caronas e vivendo de porta em porta”, se emociona.

Erica fala que a desunião de sua família foi o motivo para ela sair de casa, “pois mesmo trabalhando e ganhando seu próprio dinheiro, não fazia questão de viver em um ambiente negativo e pesado que a perseguia pela sua opção sexual”.

Aos 17 anos, ela saiu de casa e foi morar de “roommate”, na casa de uma amiga e foi nesta idade que ela revelou para a sua mãe e sua avó, por telefone, que era homossexual. “Foi aí que o inferno começou em minha vida, deixei de falar com um tio e as piadinhas e o bullying aumentaram”, chora ao se lembrar.

Com 18 anos de idade, Erica se mudou para a Florida , na esperança de que sua vida melhoraria, mas não ficou nem uma semana. “Foi lá que tive uma grande decepção, pois conheci um rapaz brasileiro, pela internet, e não deu certo o relacionamento”, fala ressaltando que decidiu voltar para Massachusetts e morar com um tio. Mas parte de sua família, mesmo a distância, tentavam atingi-la. “Houve uma época em que comecei a beber para tentar espantar os problemas, mas nem a bebida me deixava feliz”, conta.

Em outubro de 2007, Erica se mudou para Atlanta (Georgia), pois buscava apoio e ficar longe das pessoas que a perseguiam e lhe causavam tanta dor. Ela conseguiu um emprego em um hotel da rede Marriott, trabalhando como host de um restaurante. Ela também trabalhou como “room server”, pois sendo homossexual era mais fácil conseguir empregos nesta área.

Erica lembra que chegou a ser “go go boy”, mas não conseguia US$10.00 por noite, pois era muito afeminado. Foi então que alguns amigos de Los Angeles (California) foram até Atlanta e lhe ofereceram um lar. “Como eu não sabia como era a vida em LA, decidi aceitar o convite, pois sempre acreditei que devemos buscar as oportunidades até acertamos”, explica.

Em Fevereiro de 2008, ela visitou Massachusetts, em ocasião do aniversário de sua mão, onde ficou por duas semanas, devido ter perdido os seus documentos. Ela tinha apenas US$2.00 e seus amigos de Los Angeles ajudaram com a passagem de volta. “Fiquei mais de 10 horas sem me alimentar e dormi muito mal”, lembra ressaltando que foi acolhida por um casal de lésbicas mexicanas lhe acolheu e deu guarita.

Depois de morar com eles por cinco meses e não conseguir se firmar em um emprego, Erica conta que foi uma das lésbicas que lhe sugeriu o trabalho de “escort girl”. “Alguns de vocês chamam isso de prostituição”, fala ressaltando que percebeu que poderia ser a mulher que tanto sonhou através deste emprego. “Eu era feliz como mulher, mas não com a opção de trabalho”, continua.

Erica explica que aprendeu o que deveria fazer para começar a sua transição de homem para mulher, até então gastava em torno de $100 em hormônios, pois não tinha seguro de saúde em LA. No final de 2008, ela começou a tomar hormônios femininos (estrogen). Já em 2009, ainda em LA, ela começou a namorar com um mexicano com quem teve uma relação bastante turbulenta. “Eu sofria com agressões e foi ameaçada de morte”, conta.

Ainda em 2009, a sua mãe, em Massachusetts, passou por uma cirurgia com risco de morte. Foi então que a sua família pediu para que ela ajudasse com dinheiro. Isso lhe motivou trabalhar mais como “escort girl” para levantar a quantia pedida. “Por causa desse trabalho, eu foi presa duas vezes, uma em 2008 e uma em 2009”, afirma. “Mas consegui o dinheiro para ajudar a salvar minha mãe”, continua.

Em 2010, ela foi presa pela terceira vez, devido não comparecer a uma audiência de uma prisão anterior. Erica ficou no Los Angeles County Jail por um mês, junto de outras transexuais, homossexuais e heterossexuais que se passavam por gays. “Por incrível que pareça, eu conheci dentro da prisão, pessoas que me deram bons conselhos, ao contrário de quem está livre”, fala.

Depois de um mês presa, ela foi entregue para o Departamento de Imigração, onde ficou detida por seis meses. Erica lembra que neste período, ficou presa em um pequeno quarto por três semanas sob a alegação de que isso era para a sua proteção. “Depois destas semanas, eu fui transferida para outra localidade e conheci outras transexuais que estavam em processo de deportação e algumas lutando, como eu, para permanecer no país”, disse.

Mesmo não recebendo apoio da família, e sabendo de duras criticas por parte de alguns parentes, Erica decidiu deixar de lado os “maus agouros” e ficar-se em seu caso. Em dezembro de 2010 foi liberada mediante o pagamento de uma fiança no valor de US$3 mil, dinheiro este dado por uma brasileira que lhe ajudou muito. “Sou eternamente grata”, fala.

Depois de ser solta, ela retornou para Massachusetts e trabalhou para uma tia e recebia US$300 por semana. Erica fala que salário não era ruim, mas não era suficiente para manter o seu tratamento de mudança de sexo. “Foi então que decidi trabalhar de uma vez por todas na indústria do sexo, através de sites na internet em vez de ficar nas ruas”, explica. “Os perigos são os mesmo, mas com o dinheiro que eu ganhava e ganho até hoje continuou a minha transição”, continua.

Erica fala que no início atendia os clientes na casa de sua avó, até ter problemas com um vizinho. Isso a motivou a se mudar para a casa de sua mãe, mas também não deu certo manter o trabalho por lá. “Ninguém aceita uma pessoa considerada puta, mas eu sempre defendi que as pessoas devem ser respeitadas, independente de sua opção sexual, trabalho ou o que quer que seja”, fala.

Depois de sair da casa de sua mãe, ela ficou morando de hotel em hotel, como fazia em Los Angeles. Foi nesta época que conheceu seu atual namorado. “Quando ele veio me ver, estava namorando com outra pessoa que o maltratava muito e tinha vários problemas”, fala ressaltando que depois do primeiro encontro, mantiveram uma amizade até surgir uma atração entre eles e, no verão de 2013, o rapaz decidiu deixar o relacionamento para assumi-la.

Erica continua trabalhando como “escort girl” e seu namorado e toda a sua família sabe disso. “Todos me respeitam pelo meu caráter e não pelo trabalho que eu exerço, afinal foi a própria sociedade que me deu esta opção”, fala. “Fico triste pelo enorme preconceito que ainda existe em muitas famílias”, continua. “Antes de condenar alguém, lhe dê cinco minutos para conhecer a vida dessa pessoa e saber porque ela optou por isso”, conclui.

Fonte: Da Redação do Brazilian Times | Texto de Luciano Sodré