Publicado em 5/06/2015 as 12:00am

Despachantes se revoltam com mudanças no Consulado do Brasil em Connecticut

Redução do número pedidos de passaportes para 5 e exigência de upload de documentos gera revolta

Despachantes do Estado de Massachusetts que utilizam serviços do Consulado Geral do Brasil em Hartford, em Connecticut, estão revoltados com as mudanças implantadas pelo órgão nos últimos meses. Entre as principais reclamações estão a diminuição do número de pedidos de passaportes, de 45 para 5, a exigência de upload de documentos, além do atendimento somente na parte da tarde.

O Brazilian Times ouviu despachantes de cidades da Grande Boston e todos reclamam e de pontos comuns e se dizem indignados. Os problemas acontecem num momento delicado para os consulados do Brasil mundo afora. Recentemente, veio à tona a existência de fraude no Consulado Brasileiro em Nova Iorque, que teria desviado $ 500 mil dólares nos processos de concessão de vistos brasileiros para americanos.

Outro agravante é o corte do orçamento do Itamaraty, o que tem acarretado problemas para os consulados até na compra de material de trabalho. No final do mês passado também houve uma paralisação de funcionários, que reclamavam do atraso de até três meses no repasse do auxílio moradia e de perdas salariais.

Os despachantes entrevistados pela reportagem, e que preferem não se identificar temendo represálias, reclamam também da qualidade do atendimento no órgão de Hartford, acusando alguns funcionários de grosseria e poucas explicações.

Um dos despachantes diz que o clima caracteriza uma espécie de revanchismo dos funcionários contra os despachantes que não são do Estado de Connecticut. “Não existe atendimento por telefone e quando ligamos tudo é informado por gravação. Como eles só nos atendem a cada 15 dias, se houver algum problema nos documentos não ficamos sabendo e isso faz demorar ainda mais os procedimentos”, reclama um dos profissionais credenciados.

Os despachantes da Grande Boston recorrem ao Consulado de Hartford porque lá são exigidos menos documentos do que no de Boston, o que facilita para alguns requerentes que não têm toda a papelada exigida para solicitar o passaporte, entre outros serviços como certidões e autorizações. Mas o que antes era facilidade agora está virando um problema em função das maiores exigências e restrições.


Discriminação e despesas

Uma despachante de Malden (MA), que há 3 anos é credenciada no Consulado de Hartford, diz que sente discriminação dos funcionários em relação ao atendimento a despachantes de Massachusetts. “Eles dificultam tudo e já cheguei a pensar em não ir mais para lá solicitar os serviços”, conta.

Ela também reclama do aumento nas despesas, pois antes podia levar até 45 pedidos de passaportes e agora são somente 5. “Praticamente gasto um dia para ir até lá e são duas horas para ir e mais duas para voltar. Antes ainda podíamos ir cedo, mas agora o atendimento é somente à tarde e tenho de pegar a rodovia nos horários mais complicados e isso faz perder um dia todo para levar tão poucos documentos. Acabamos tendo prejuízos, pois nossos clientes não entendem toda essa mudança e não podemos cobrar mais deles”, explica.

Upload gera dúvidas

Outra reclamação dos despachantes é da exigência, em vigor há um mês, de fazer uploads (envio eletrônico) de documentos e fotos. Eles alegam que a maioria dos despachantes não tem em seus computadores os softwares adequados ou mesmo não têm as habilidades técnicas para transformar os papéis em imagens e enviar por email. “Nem todos têm um scanner ou sabem manusear o Photoshop, por exemplo, para fazer o que antes era serviço deles. Eu mesmo já tentei enviar, mas não sei se estava no padrão e não há uma confirmação se ficou tudo certo”, disse um dos despachantes.

Outro despachante ouvido pelo BT diz que até entende que os funcionários estejam sobrecarregados, mas que nada justifica a maneira como tratam os profissionais de Massachusetts que procuram o Consulado de Hartford. “O atendimento mudou demais ultimamente. Eles estão muito mal educados e alguns até faltam com a ética. Já tive um problema lá porque perderam a foto dos documentos de um cliente meu e quiserem inverter a situação dizendo que eu não havia entregue. Mas como tenho protocolo de tudo provei que tinha anexado a foto e a funcionária teve a coragem de me dizer que usei uma cola ruim. Achei um absurdo esse tipo de comportamento. Eles deveriam ter curso para saber lidar com o público. Estou desanimada”, desabafa.

Um dos despachantes reforçou a reclamação: “Se os próprios funcionários, que recebem treinamento, muitas vezes não sabem fazer o passo a passo do upload dos documentos, o que dizer, então, de nós que não estamos acostumados e não somos especialistas nisso?”


Restrições e valores diferentes

Outro despachante reclama que o Consulado de Hartford também não faz mais passaportes para menores, o que dificulta ainda mais atender as necessidades dos imigrantes brasileiros. “Eles foram mudando as regras e avisando somente por email, diferente do Consulado de Boston, que quando tem alguma alteração nos convoca e explica tudo detalhado, além de tirar as dúvidas.

Um problema também apontado pelos despachantes é a diferença nas taxas para emissão de novo passaporte. Segundo eles, em Connecticut são cobrados $ 160 dólares para emitir outro passaporte em caso de perda ou extravio. Eles alegam que em Boston são cobrados pelo mesmo serviço a taxa de $ 80 dólares. “Qual o critério de um passaporte danificado”, questiona um dos despachantes.

Outra pessoa credenciada ouvida pelo Brazilian Times diz que conhece um despachante que chegou a abrir empresa no Estado de Connecticut para que possa ter as mesmas regras válidas para os profissionais de lá. Mas ela própria descarta esta possibilidade, pois acha um absurdo ter de abrir outra companhia por causa do tipo de tratamento que é dado aos despachantes de Massachusetts.

Para finalizar, um deles falou da importância dos despachantes para a comunidade brasileira. “Temos um papel fundamental que é atender pessoas que não podem perder um dia de trabalho para ir ao Consulado. Há muitos também que não entendem o processo burocrático ou até não sabem ler e interpretar bem todas as exigências. Assim, precisamos ser tratados de forma igual, com as mesmas condições dadas aos despachantes de Connecticut, pois prestamos um serviço essencial para as pessoas”, disse.

Fonte: Da Redação do Brazilian Times | Reportagem de Fabiano Ferreira