Publicado em 16/11/2015 as 12:00am

Primeiro brasileiro a ganhar a MLB, Paulo Orlando fala sobre a conquista

Paulo se tornou o primeiro do país a conquistar a World Series (final) da Major League Baseball (MLB), com o Kansas City Royals

No mesmo dia em que completou 30 anos de idade, o brasileiro Paulo Orlando escreveu para sempre o nome na história do esporte nacional e norte-americano. Isto porque no dia 1º de novembro Paulo se tornou o primeiro do país a conquistar a World Series (final) da Major League Baseball (MLB), com o Kansas City Royals – na decisão, o time superou o New York Mets por 4 a 1, na série melhor de sete jogos. Em férias no Brasil, onde permanece por pouco tempo, já que no fim deste mês participará da liga venezuelana de beisebol, da qual é um dos ídolos do esporte, o jogador conversou por telefone com o Hoje em Dia. Entre outros assuntos, ele contou como foi um pouco da trajetória para chegar ao mais alto nível da modalidade.

Os americanos ainda são acostumados a associar o brasileiro ao futebol. Há algum estranhamento lá com você por terem um atleta brasileiro?
Acho que essa é uma associação normal em qualquer lugar do mundo, não é a toa que somos considerados o país do futebol. Mas ele não falam muito isso comigo. Até porque estamos provando que o Brasil não é só futebol.

Você foi campeão logo no primeiro ano na MLB. Qual é o sentimento?
É uma felicidade enorme. Ter tido a oportunidade de jogar nas ligas menores me preparou para chegar bem na MLB. E tive a sorte de entrar em um time que estava sendo preparado para conquistar o título.

Você passou dez anos nas menores ligas, soma mais de mil jogos , o que é um número significativo. Alguma vez você pensou em desistir?
Claro que não foi só alegria durante todos esses anos, mas nunca pensei em desistir. Nunca perdi o foco e a esperança de que um dia eu alcançaria o meu sonho de jogar na MLB. O normal é jogar por lá até uns sete anos antes de chegar na liga, a não ser que você já seja contratado como uma estrela. No meu caso foi um pouco diferente. Tive momentos difíceis, como ficar longe da minha família, e de longe vê-los angustiados pela demora para a minha chegada na elite do beisebol, mas nunca pensei em desistir.

Quais foram os pontos fundamentais para você nunca perder o foco?
O beisebol é um esporte que dá oportunidades para todos que realmente querem chegar a MLB. No meu caso, este sempre foi o meu sonho, e eu nunca desisti dele. Joguei ano após ano nas ligas menores sempre objetivando ter grandes números nas estatísticas, porque é isso que os americanos olham no beisebol. Até que surgiu esta oportunidade.

Como é nascer no país do futebol, e conquistar tamanho reconhecimento em uma modalidade pouco praticada aqui?
É algo diferente, mas que me alegra muito. Infelizmente no Brasil é muito difícil ter acesso ao beisebol. Praticamente não tem lugar para crianças jogarem. Mas espero que eu, o Yan Gomes, André Rienzo possamos ser exemplos de que o Brasil pode ter um grande futuro neste esporte.

Como é a sua relação o André Rienzo e o Yan Gomes? E como é enfrentá-los no mais alto nível de beisebol do mundo?

Nós mantemos contato pelo celular, seja mensagens ou as vezes ligando. Sempre tentamos apoiar um ao outro. O problema é que a temporada de beisebol é muito corrida e normalmente não dá tempo de encontrarmos. Com o André eu tenho mais contato já que nos conhecemos desde quando ainda jogávamos no Brasil e fizemos uma trajetória muito parecida, mesmo jogando em posições diferentes.

Além de vocês três que já estão na MLB, quais outros atletas brasileiros você acredita que podem entrar na MLB no futuro?

Alguns jogadores que estão há algum tempo jogando as ligas menores, como Leonardo Reginatto, Thyago Vieira, Daniel Missaki, Luiz Gohara, entre outros. Eles só precisam construir as estatísticas que os times da MLB procuram.

Como fazer para aproveitar o momento para impulsionar o beisebol no país?

Espero que a minha história inspire muitas crianças. Também é preciso que haja interesse de outras pessoas, principalmente de investidores, em ajudar no crescimento deste esporte no país, com construção de campos, e espaços voltados para o beisebol.

Quando e como você começou a jogar beisebol? Alguém teve influência direta nisso?

Comecei com 11 anos, em São Paulo, mas foi meio que ao acaso. Minha mãe trabalhava como faxineira no consultório do médico Hideo Ueno, descendente de japonês. Ele era treinador do clube Nikkey, de Santo Amaro (SP), nas horas vagas. Um dia ele perguntou pra ela se eu não queria jogar. Eu fui e me apaixonei. Jogávamos sempre aos fins de semana.

Quando você decidiu que seria um jogador de beisebol? Antes, você fazia o quê da vida?

Decidi que queria ser jogador profissional aos 19 anos. Além de jogar beisebol, eu também praticava atletismo desde novo, era onde eu conseguia me manter financeiramente. Comecei no centro olímpico, depois virei atleta do Esporte Clube Pinheiros, disputava provas de 100m a 400m, e cheguei até a ganhar competições (paulista e brasileiro) e a disputar um mundial juvenil. Quando eu tinha 18 anos, joguei um torneio no interior de São Paulo, onde conheci um técnico (Mauro), que conhecia um cubano chamado Orlando Santana, que era olheiro do Chicago White Sox, da MLB. Depois de conversar com ele, descobri que tinha a possibilidade de eu ir para os Estados Unidos, e saí de lá com um teste marcado na República Dominicana. Eles adoraram minha velocidade para percorrer as bases e para fazer a cobertura do campo nas capturas da bola, e acabaram me aprovando. Conversei com meu técnico de atletismo e expliquei que era meu sonho.

Como está seu contrato com os Royals? Permanece no time para a próxima temporada?

Não tenho nada certo com os Royals. Como vim das ligas menores, faço parte do roster (grupo) de 40 jogadores do time, mas posso ser cortado. Na próxima temporada terei que disputar uma vaga entre os 25 jogadores que serão inscritos para a disputa da nova temporada. É uma verdadeira prova de fogo.

Financeiramente, é interessante jogar na MLB, sem ser um dos astros?

Claro que não recebo nem perto dos principais jogadores, mas é um salário muito bom para qualquer profissão. A questão financeira que mais pesa é porque enquanto a gente fica nas ligas menores, não recebemos bem, então no meu caso foram 10 anos na luta para finalmente agora ter uma condição financeira boa, em que posso ajudar não só a mim, mas a minha família. Mas a realização pessoal é muito maior. É o sonho de todo mundo fazer algo que gosta e receber pra isso, e essa é a principal realização que eu tenho.

Dos 11 jogos que os Royals ganharam nos playoffs, oito foram de virada. Qual é o segredo desse poder de reação?

Assim como o Corinthians no futebol brasileiro é considerado um time de raça, que luta até o final, nos EUA nós somos assim. Nunca desistimos de uma partida até ela acabar. Além disso, o Royals havia sido vice-campeão na temporada passada e manteve a forma do time jogar, com cada um se sacrificando para o bem do conjunto.

Quanto tempo você acredita que um menino no Brasil precisa treinar para ter sucesso no beisebol?

Nos Estados Unidos, o beisebol faz parte da cultura esportiva popular. Lá os pais compram luvas e tacos para os filhos quando eles ainda são crianças e ensinam a jogar. Aqui no Brasil fazemos isso no futebol. Considero que para chegar a um alto nível, é preciso uns 15 anos de prática, mas quanto mais cedo começar melhor. Por isso, é tão raro vermos jogadores brasileiros chegando na MLB.

Como foi a comemoração do título na cidade?

Nunca vi nada igual. Lembro da temporada passada da NBA, que acompanhei a festa do Golden State Warriors com o Leandrinho, e a festa tinha sido grande com 200 mil pessoas nas ruas. Por isso, eu esperava algo parecido. Para começar, cada jogador foi com sua família em um carro conversível; aí, quando chegamos no palco é que vimos o real tamanho da festa. A torcida era um mar de gente interminável (cerca de 800 mil pessoas). Uma coisa que vou guardar na minha memória para sempre.

Você se junta a Leandrinho e Tiago Spliter como brasileiros campeões no esporte americano. Além disso, hoje temos nove brasileiros na NBA, três na MLB e um na NFL. A que se deve tanto sucesso brasileiro nos EUA?

Acho que o segredo do sucesso de qualquer brasileiro em qualquer área é a oportunidade. Já provamos inúmeras vezes que, se tivermos condições, conseguimos ser bons em tudo. Além disso, falta reconhecimento dos atletas que jogam aqui. Infelizmente só se alcança reconhecimento quando os atletas saem do país. Só no futebol que os jogadores se tornam ídolos ficando no Brasil.

Fonte: Brazilian Times